(Créditos fotográficos: Albertina Costa)

As fotografias que, agora, vos mostro foram captadas no Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios da Serra de Aire.

Foi com alguma surpresa que nos deparámos com um panorama tão avassalador na serra de Aire, não só pela vasta área abrangida, mas sobretudo pela quantidade de pegadas de dinossáurios e pela sua preservação.

Segundo nos informa o texto divulgado pela Associação de Desenvolvimento das Serras de Aire e Candeeiros (ADSAICA), a que acedemos através da página electrónica do Roteiro das Minas e Pontos de Interesse Mineiro e Geológico de Portugal, o sítio paleontológico dos dinossáurios da Pedreira do Galinha, descoberto em Julho de 1994, pelos membros da Sociedade Torrejana de Espeleologia e Arqueologia (STEA), encontra-se na vertente oriental da serra de Aire, na localidade do Bairro, em Ourém. Situada a cerca de 10 quilómetros (km) de Fátima e a 16 km de Torres Novas, esta localidade está situada em pleno Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros.  Este importante sítio do Jurássico Médio, com 175 milhões de anos, não é apenas o testemunho mais antigo e extenso de pegadas de saurópodes do Mundo, mas também um testemunho excecionalmente preservado da existência de alguns dos maiores animais terrestres que já existiram no planeta.

Ainda seguindo o mesmo texto publicado pela ADSAICA, ficamos a saber que os saurópodes eram animais herbívoros quadrúpedes com cabeça pequena e pescoço e cauda muito longos. Apresentavam membros grossos e poderosos (semelhantes aos dos elefantes), com uma unha ou garra afiada em cada polegar das mãos e pés, que sustentavam o seu corpo enorme.  As pegadas que, hoje, podem ser vistas no sítio da Pedreira do Galinha foram impressas numa lama carbonatada muito fina e com grande plasticidade, depositada em ambiente marinho em lagoas litorais muito rasas (de, apenas, um a dois metros de profundidade).

“Os sedimentos representados nas camadas visíveis da pedreira, depositados ao longo de milhões de anos, foram posteriormente transformados em calcário, dando origem aos espessos estratos rochosos”, que, até recentemente, eram explorados na pedreira, como lemos na referida página electrónica. No local das pistas, formado pela superfície rochosa de um desses níveis carbonatados, com área aproximada de 30 mil metros quadrados, podem ser observadas várias centenas de pegadas, organizadas em cerca de duas dezenas de trilhos. Entre esses trilhos de grande extensão e de excelente estado de conservação, destaca-se aquele que, com os seus 147 metros de extensão, corresponde ao mais longo trilho de dinossáurios saurópodes conhecido no Mundo.  

A mesma nota informativa dá-nos conta de que os “trilhos são feitos por impressões das extremidades dos membros anteriores e posteriores (mãos e pés) que refle[c]tem claramente a passagem de grandes animais quadrúpedes”. Com efeito, as “impressões elípticas de maior dimensão correspondem às marcas deixadas pelos pés, e acompanhadas por impressões menores em forma de meia-lua correspondentes às impressões das mãos”.

As pegadas de dinossáurios são objecto de estudo científico da Paleoicnologia, ramo da Paleontologia que estuda os restos de actividade orgânica, como galerias, pegadas, ovos fósseis, etc., de seres vivos do passado geológico. Por conseguinte e especificamente, “o estudo paleoicnológico das pegadas fornece informações valiosas sobre a morfologia dos pés e das mãos dos animais que as produziram, bem como sua forma e velocidade de movimento”.  “Ao mesmo tempo, permite especificar certas características anatómicas dos ditos animais, como a extensão da perna, que é aproximadamente quatro vezes o tamanho da pegada”, explicam-nos os estudiosos destas matérias, adiantando que, a “partir da medição deste último e levando em consideração os esqueletos completos conhecidos, é possível calcular as dimensões aproximadas do animal”.

Ao serem desenvolvidos trabalhos de investigação neste contexto, foi possível identificar, na Pedreira do Galinha, “vestígios de animais de diferentes tamanhos, um dos quais pode atingir os 30 metros de comprimento”. Confirmam os especialistas que, por meio do estudo das pegadas, “também é possível conhecer o comportamento individual e social desses animais”. No caso do depósito da Pedreira do Galinha – cujo interesse me levou a recolher as fotografias que aqui são publicadas –, a informação disponível evidencia que, até ao momento, “não foram encontrados indícios de comportamento de pastoreio, ou seja, em rebanho”.  Assim, todas “as pegadas sugerem que são animais que se moviam isoladamente”.

 (Créditos fotográficos: Albertina Costa)
(Créditos fotográficos: Albertina Costa)
(Créditos fotográficos: Albertina Costa)
(Créditos fotográficos: Albertina Costa)´
(Créditos fotográficos: Albertina Costa)

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Nota da Redacção:

A propósito, aproveitamos este espaço para saudar um dos grandes responsáveis pelo “carinho do público” em relação aos dinossáurios, cuja atenta intervenção na questão das esquecidas pegadas de Carenque, no município de Sintra, contribui para a salvaguarda de um dos trilhos mais longos do Cretácico (período que, na escala do tempo geológico, está compreendido entre há 145 milhões de anos e 66 milhões de anos, aproximadamente).

António Galopim de Carvalho – que também colabora no jornal sinalAberto, na rubrica “As Palavras e as Pedras” – é, sem dúvida, “um símbolo nacional da defesa e preservação do património cultural e científico”, como atestam os enriquecedores artigos que oferece aos nossos leitores.

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15/01/2024

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Albertina Costa

Maria Albertina Silva Nogueira Fonseca Costa é licenciada em Serviço Social, pelo Instituto Superior de Serviço Social de Coimbra, com pós-graduações em Intervenção Sistémica, pela Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar, e em Proteção de Menores, pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Foi cofundadora da Delegação Regional do Centro da Associação de Profissionais de Serviço Social, da qual foi a primeira presidente. Desenvolveu a sua atividade profissional na área da saúde, em vários estabelecimentos no Porto e em Coimbra. Nos últimos anos, trabalhou essencialmente com grávidas e com crianças de risco social. Foi coordenadora de equipa no Hospital dos Covões (Hospital Geral) e na Maternidade Bissaya Barreto, do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Nesta última unidade, coordenou o projeto piloto “Nascer Cidadão”, que incentivava os pais a registarem os filhos na Maternidade. Atualmente, é presidente da direção da Sorriso – Associação dos Amigos do Ninho dos Pequenitos, da qual foi cofundadora e a cujos corpos sociais pertenceu. Em 2015, iniciou formação na área da Fotografia, a que se dedica de forma formal e informal, constituindo uma atividade que a tem motivado nos últimos anos. Observar a realidade que a rodeia e captá-la através da lente tem sido a sua paixão. Com a rubrica “O Meu Olhar”, Albertina Costa traz uma nova perspetiva ao jornal "sinalAberto".

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