A era do rabo

(© A Era do Vazio | São Paulo | Facebook)
O “rabo” tem hoje grande importância. Basta folhear aquelas coisas recheadas de fotografias das famosas para o confirmar. Muitas apresentam-se ou são apresentadas como actrizes. Para se apresentarem assim, ou para assim serem apresentadas, basta-lhes terem uma cara laroca, um corpito com as medidas da moda e uma cabecinha capaz de decorar umas tretas.
Tais actrizes não precisam de ter biblioteca nem de interpretar Gil Vicente, Almeida Garrett, Almada Negreiros, Bernardo Santareno, José Saramago ou Luís de Sttau Monteiro, William Shakespeare, Molière, Anton Tchekhov, Bertold Brecht, Henrik Ibsen ou Oscar Wilde. Não, não precisam. Basta-lhes darem uns gritinhos, publicar as fotos das festas e das férias em ilhas exóticas, preferencialmente de rabo virado para a câmara do fotógrafo, para receberem o apluso do respeitável público.

Estas actrizes representam bem “A Era do Vazio” em que vivemos e que Gilles Lipovetsky denunciou há 40 anos. A obra do filósofo e sociólogo francês, editada inicialmente em 1983, faz um retrato fiel das novas atitudes do indivíduo numa sociedade que nos vendem como pós-moderna. E em que as instituições colectivas, sociais, políticas e públicas deram lugar ao individualismo, narcisista e hedonista, que faz do prazer um surpremo objectivo de vida.

Um prazer assente numa estética capitalista que fomenta o consumo e torna famosos e importantes pobres diabos como aquelas que plasmam as fotos das suas nádegas nas redes sociais. Sabendo que as coisas logo as embrulharão em papel couché brilhante para serem consumidas à mesa do café do bairro ou no consultório do dentista. A “era do vazio” está aí, em todo o seu esplendor e de rabo(s) ao léu. A imbecilidade e o vácuo também.
Nota final: Bastava fazer uma pequena busca na Internet para ilustrar este texto com fotografias de tão ousadas artistas. Não o fiz por respeito aos leitores.
06/02/2023