Diário de guerra IV

 Diário de guerra IV

Suécia e Finlândia entregam pedido de entrada na NATO. (Créditos: AFP /Johanna Geron)

I – “Sob o novo acordo, pediremos à Finlândia que extradite seis membros do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e seis membros do Fetö e à Suécia que extradite 10 membros do Fetö e 11 do PKK”. É este o preço que os faróis da democracia ocidental estão dispostos a pagar para aderirem à NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a mando do Pentágono para, supostamente, amedrontarem o Kremlin, considerando os 1.300 quilómetros de fronteira da Finlândia com a Rússia.

(© Cola da Web)

Recep Tayyip Erdoğan (actual presidente da Turquia) tem os seus inimigos, os quais, no entanto, tinham encontrado quem os defendesse das perseguições de que eram alvo. Não se conhecem quaisquer críticas daqueles países à permanência dos membros do PKK e do Fetö nos seus territórios, foram aceites e contaram até à data com a sua solidariedade, uma vez que os respectivos governos tinham conhecimento de quem eles eram e o que representavam. Perante as exigências colocadas por Ancara, a Suécia e a Finlândia vão entregar activistas políticos cujo destino está traçado: a prisão. Os princípios que estes países defendiam foram, num ápice, lançados para o lixo. Tornaram-se cobardes em nome de uma causa belicista. Isto, sim, é digno de se chamar uma actuação vergonhosa. Quem assim age não deve merecer o respeito de ninguém: renderam-se sentados. Mereciam que os Suecos e os Finlandeses os enxovalhassem, julgando-os como traidores aos valores dos direitos humanos.

II – Em 28 e 29 de Junho, esteve reunido em Madrid o estado-maior das forças armadas ocidentais para decidirem da melhor maneira de continuar a guerra na Ucrânia e, por via disso, continuarem o esforço de destruição deste país, tanto em pessoas como em bens.

(Direitos reservados)

Embora a hipocrisia mande dizer que é tudo em nome da defesa da liberdade e do nosso modo de vida, a verdade é que, quanto mais destruída a Ucrânia ficar, maior será o valor do negócio, quando finalmente for alcançada a paz. No balanço entre parar as hostilidades, no estado em que a situação no terreno se encontra, e continuar a guerra, a NATO decidiu continuar a guerra, prometendo aos ucranianos mais armamento – salvo aquilo que ela não pode cumprir, pelo menos por enquanto, e que faria a diferença: fornecer-lhes armas nucleares, para serem utilizadas contra território russo. É que o primeiro que tiver a ousadia de as utilizar sabe que terá a opinião pública mundial virada contra si e ficará irremediavelmente condenado, por muito preparada que ela esteja a ser para esse efeito. Esta reunião é o reconhecimento de que, ao contrário do que vem sendo dito pelos meios de propaganda ocidental, a NATO está a perder a guerra; e que, a cada dia que passa, o avanço das tropas russas é maior. Até onde poderão ir, seguindo a lógica dos confrontos armados, está nas mãos do Pentágono decidir. Quanto mais se encarniçar, maior será a devastação causada pelos confrontos.

Ao contrário, a reunião de Madrid devia servir para analisar as condições do regresso à diplomacia, colocando as vidas humanas em primeiro lugar e garantindo a segurança para todos os países daquela região. É tempo de, no nosso país, pedirmos satisfações ao governo pelo apoio que tem vindo a dar a esta política que, sob a capa da solidariedade, não passa do alinhamento consciente a uma política que, há muito, extravasou o patamar do aceitável nestas situações e está a virar-se contra as nossas condições de vida.

III – Na impossibilidade de declarar guerra à Rússia, o presidente dos EUA avançou com uma ideia que, na prática, já está a ser aplicada: promover a colaboração táctica e estratégica do G7 com a NATO. Estaria, assim, criada uma nova entidade económico-militar ocidental para enfrentar os BRIC. Contudo, reconhecendo a sua debilidade relativa, aquela aliança, dos 600 mil milhões de dólares que diz estar disposta a gastar com os efeitos desta guerra declarou-se disposta a distribuir parte deles com alguns países que fazem parte dos BRIC (em Economia, é uma sigla que se refere ao Brasil, à Rússia, à Índia e à China, tidos como países em desenvolvimento), na tentativa de enfraquecer a aliança que está em formação entre eles. Está, pois, à vista a formação de dois grandes blocos, a ocidente a NATO e a oriente os BRIC.

(© todamateria.com.br)

Claro que, se isto acontecer, será tudo o que não devia acontecer. Isto, sim, é um retrocesso civilizacional. E tudo porque, do outro lado do Atlântico, a maior potência capitalista não quer ceder o passo a outras potências também elas capitalistas; e também porque, deste lado do Atlântico, a UE não tem organização militar para impor a sua importância económica. Contudo, não será esta reconfiguração estratégica do ocidente que irá ditar a sorte da guerra na Ucrânia, porque as sanções ditadas pela entente UE/NATO duram meses a ser aplicadas e ainda mais tempo a produzir efeito. E é num instante que caem misseis sobre a Ucrânia. Ainda estamos no Verão. Todavia, quando os frios do Outono chegarem e as populações que dependem do gás importado da Rússia para se aquecerem sentirem os efeitos da sua escassez, tendo em conta o desemprego e o aumento do custo de vida, que não escolhem estação, então os erros políticos se mostrarão em toda a sua tragédia. Até lá, o Ocidente não pára a sua caminhada em direcção ao atoleiro do aumento da miséria em todo o mundo. Que os de cima se queiram matar, a escolha é deles; se arrastam os outros, é criminoso.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

07/07/2022

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Cipriano Justo

Licenciado em Medicina, especialista de Saúde Pública, doutorado em Saúde Comunitária. Médico de saúde pública em vários centros de saúde: Alentejo, Porto, Lisboa e Cascais. Foi subdiretor-geral da Saúde no mandato da ministra Maria de Belém. Professor universitário em várias universidades. Presidente do conselho distrital da Grande Lisboa da Ordem dos Médicos. Foi dirigente da Associação Académica de Moçambique e da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. É um dos principais impulsionadores da revisão da Lei de Bases da Saúde.

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