É importante não esquecer a “figura profética” de Manuela Silva

 É importante não esquecer a “figura profética” de Manuela Silva

Professora Manuela Silva (© Agência ECCLESIA)

Ocorreu, a 11 de novembro, entre as 18h00 e as 19h30, no auditório da Caixa Geral de Depósitos (CGD), em Lisboa, ao lançamento do livro O Legado de Manuela Silva – Um desafio para o futuro, editado pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), da Universidade de Lisboa, com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Sessão de lançamento do livro “O Legado de Manuela Silva – Um desafio para o futuro”, no ISEG, em Lisboa.
(Créditos fotográficos: © Miguel Figueiredo Lopes / Presidência da República)

José Leitão, presidente da direção do Centro de Reflexão Cristã (CRC), de que a homenageada foi fundadora, assina um dos artigos do volume, evocando a sua “figura profética”.

Manuela Silva (1932-2019) era licenciada em Economia pelo ISEG, onde foi professora catedrática convidada, tendo recebido, em 2013, o doutoramento honoris causa pela, então, Universidade Técnica de Lisboa.

Personalidade de referência, a nível nacional e internacional, desempenhou vários cargos e publicou diversos estudos e foi presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), da Igreja Católica em Portugal.

Distinguiu-se como membro do Graal, movimento internacional de mulheres católicas, e presidente do Movimento Internacional dos Intelectuais Católicos/Pax Romana (de 1983 a 1987) e da Juventude Universitária Católica Feminina (de 1954 a 1957); e criou a Fundação Betânia, em 1990. Por toda a sua atividade, foi agraciada com o grau de Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, pelo Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, em março de 2000.

Como pioneira no estudo do desenvolvimento comunitário e no estudo da desigualdade e da pobreza, deve-se-lhe a coordenação dos primeiros estudos científicos sobre a pobreza realizados em Portugal, nos anos 80, bem como a publicação de diversos estudos sobre a economia e sobre a sociedade portuguesa, revelando sempre uma profunda preocupação com os problemas do desenvolvimento, com as desigualdades, com a injustiça social e com as diversas formas de pobreza e de exclusão social.

(Créditos fotográficos: © Miguel Figueiredo Lopes / Presidência da República)

Neste sentido, o ISEG decidiu promover a edição do livro O Legado de Manuela Silva, uma homenagem que refletisse a sua intervenção pública e académica, bem como as principais áreas científicas a que se dedicou: economia e desenvolvimento; política económica e planeamento; desenvolvimento comunitário e desenvolvimento social; desigualdade, pobreza e exclusão social; ensino e educação; Igreja e cidadania.

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Das intervenções produzidas no momento, parece-me relevante a de Mário Centeno, governador do Banco de Portugal (BdP), que, tendo sido aluno do ISEG, encareceu o trabalho pioneiro da Professora Manuela Silva no estudo da desigualdade e da pobreza em Portugal e a tem como “fonte de muitos ensinamentos e de enorme inspiração”. 

Do livro, que “é um tributo de valor incomparável”, enfatiza que “reúne testemunhos de muitos dos que com ela se cruzaram e trabalharam durante os seus 87 anos de vida” e releva os “artigos sobre o seu percurso, o seu pensamento e a sua obra”, que “dão a conhecer “o trabalho de vários dos seus discípulos sobre os temas que marcaram o seu trajeto académico, profissional e pessoal”. E, sobre a associação do BdP à edição e ao lançamento do livro, refere que esta “instituição de serviço público que atua na área económica e financeira”, visa “promover a investigação e o conhecimento na área das ciências económicas”, procurando sempre, “na persecução do interesse público”, “contribuir para a reflexão e discussão pública informada de temas relevantes para a economia e para a sociedade”.

Intervenção do governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, na sessão de lançamento do livro “O Legado de Manuela Silva – Um desafio para o futuro”, a 11 de novembro, no ISEG. (Créditos fotográficos: © Miguel Figueiredo Lopes / Presidência da República)

Ora, como vincou, Manuela Silva defendeu e ensinou que “a economia deve estar ao serviço das pessoas, contribuir para a preservação do planeta que habitamos e promover o desenvolvimento comunitário inclusivo”. Por conseguinte, na defesa do bem comum, que teve sempre em mente, ao apelar à necessidade de “pôr a pobreza em primeiro plano”, não queria só cuidar dos pobres, mas cuidar de todos, pois, como defendia, “a pobreza afeta os pobres, mas também a qualidade da democracia”. Assim, no dizer de Centeno, “é este o principal legado da Professora Manuela Silva: mostrar-nos que estudar e cuidar dos que estão nas margens da sociedade e da economia é conhecer, cuidar e promover o bem comum.”

Segundo Mário Centeno, Manuela Silva defendeu e ensinou que “a economia deve estar ao serviço das pessoas, contribuir para a preservação do planeta que habitamos e promover o desenvolvimento comunitário inclusivo”

Por outro lado, o governador do BdP entende que a ciência económica mostra que “não é possível distribuir sem crescer e não é possível crescer sem distribuir”. E, parafraseando a notável economista, elege a educação como a melhor estratégia para combater a desigualdade de uma forma estrutural, visto que “é um fator chave para a inclusão económica e social” e “a solução universal para alcançar o crescimento económico a longo prazo”.

Depois, mencionou um estudo recente do BdP, segundo o qual “a transmissão intergeracional da educação, reforçada pela interação com a situação financeira das famílias, tem implicações importantes nos percursos educativos do individuo, e com isso, na inclusão social e no potencial de crescimento económico”. Nestes termos, verifica-se que, em Portugal, 73% dos alunos cujos pais têm educação superior “também eles completaram um curso superior” e 56% dos indivíduos com menos do que o secundário provêm de famílias com um grau de escolaridade mais baixo. 

Ao mesmo tempo, verifica-se que a capacidade de a família financiar o estudo dos seus filhos é fator relevante na transmissão intergeracional da educação. Portanto, a conjugação da formação e da condição financeira dos pais “resulta num efeito ainda mais determinante”. 

Recordou o governador do Banco de Portugal que Portugal, em 2021, apresentava uma taxa de 17,1% no risco de pobreza nos adultos cujos pais têm menos do que o ensino secundário, contrastando com 6,8% nos adultos cujos pais tinham uma educação superior – o que deve levar ao reforço da “importância da necessidade do desenho de políticas públicas que potenciem as oportunidades para todos”. 

Porém, não perdeu o ensejo de encarecer a ação das instituições em que tem prestado serviço – não sei se o Governo, que integrou, se o BdP, em que trabalhou e de que é governador, o ISEG, onde é professor catedrático, ou o Eurogrupo, a que presidiu: “Em resultado do esforço feito nas últimas décadas, hoje, são mais e de maior qualidade os recursos humanos que as nossas escolas colocam no mercado de trabalho. Ultrapassámos os países europeus para quem olhamos durante séculos de uma posição inferior. O aumento da qualidade da oferta de trabalho já se sente na nossa produtividade, o que representa uma verdadeira alteração estrutural na nossa economia. Mas, sendo um percurso de longo prazo, este caminho nunca está terminado; não o podemos deixar incompleto.”

Verifica-se que, em Portugal, 73% dos alunos cujos pais têm educação superior “também eles completaram um curso superior” e 56% dos indivíduos com menos do que o secundário provêm de famílias com um grau de escolaridade mais baixo

Não obstante, Mário Centeno entende que “o legado de Manuela Silva, presente neste livro, permite-nos não esquecer esta tão importante missão, que enquanto investigadores ou decisores políticos, ou nas duas funções ao mesmo tempo, temos em mãos”. Por outro lado, observa que, “se não respeitarmos as instituições, quer quando as servimos, quer depois de deixarmos de as servir”, não se reduzirá “a pobreza e a desigualdade em democracia”.

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Não é a primeira vez que é exaltada a personalidade de Manuela Silva post mortem, esperando-se que sejam muitas. A este respeito, é de mencionar uma compilação de testemunhos sob o título “O legado de Manuela Silva para Portugal (e para o mundo)”, que Filipe Coelho editou em 2019, no site da EdC (Economia de Comunhão) – dinâmica que envolve empresários, trabalhadores, gestores, consumidores, aforradores, cidadãos, estudiosos e demais operadores económicos. 

Manuela Silva em Mambré, na cidade do Hebron, perto de Jerusalém. (fundacao-betania.org)

O professor Carlos Rodrigues escrevia: “Manuela Silva concebia a economia do ponto de vista do serviço às pessoas e do desenvolvimento sustentável e inclusivo.” Juntamente com Bruto da Costa, conduziu, nos anos 80, os primeiros estudos sobre a pobreza em Portugal e promoveu a ideia de transformar em lei a declaração da pobreza como violação dos direitos humanos.

No seu primeiro discurso sobre a EdC, em 1998, Manuela Silva, falando de Chiara Lubich, fundadora da EdC, com quem se encontrara pessoalmente em 2004, intuía o seu significado profético: “A EdC nasce da visão de uma mulher que […] tem o grande mérito de ter ousado romper com a cortina grossa do determinismo económico, sempre a favor da posição dos mais fortes […]. Chiara acredita que o Evangelho tem implicações não só na vida pessoal dos crentes, mas também deve penetrar na vida coletiva, incluindo a organização da economia e da empresa.

E interrogou: “Porque não colocar a EdC em perspetiva para que possa ter, no futuro, um efeito amplificado sobre um modelo económico humanista e solidário para o século XXI? Eu acho que é a hora certa! […] Por outro lado, parece-me indispensável e urgente um trabalho teórico, baseado na experiência adquirida, de modo a produzir competências científicas. […]”

A Comissão Nacional Justiça e Paz de Portugal (CNJP) dizia: “Dotada de uma extraordinária capacidade de iniciativa e organização do trabalho em equipe, Manuela nunca deixou de se dedicar a estas causas, nem com a idade avançada nem com a doença que a afetou.”

Alguns dias antes da sua “partida”, Pedro Patto dizia perceber-se que ela tinha “pressa” de deixar tudo no lugar, mas com a serenidade de quem confiava nas pessoas que tinha envolvido para levar em frente as muitas sementes que lançara. Ficou muito contente com a mensagem de Luigino Bruni em que ele lhe agradecia por tudo o que ela tinha feito pela EdC, tendo-a atualizado sobre o andamento da preparação do evento “The Economy of Francesco”.

Em nota da Presidência da República, lia-se que Manuela teve “uma vida dedicada a causas de grande importância […], incluindo a justiça social, a luta contra a pobreza e a defesa dos Direitos Humanos” e que “a sua morte constitui uma perda de grande importância para Portugal”.

Como recorda o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, Manuela Silva teve “uma vida dedicada a causas de grande importância […], incluindo a justiça social, a luta contra a pobreza e a defesa dos Direitos Humanos”.
(Créditos fotográficos: © Miguel Figueiredo Lopes / Presidência da República)

António Marujo, jornalista que a conhecia bem, escreveu: “Nos últimos momentos, Manuela pegou na mão da sua irmã e deixou-lhe a sua última mensagem: ‘Estou a partir, mas diz aos meus amigos que gostei muito de viver’.” E, na homilia das exéquias, o padre António Janela afirmou: “Que ela tenha gostado de viver é a melhor resposta que um cristão pode dar à morte.”

Conhecia-a pessoalmente, em Fátima, em janeiro de 1987, num encontro de reitores de santuários e de organizadores de peregrinações. Percebi o seu espírito arguto e a sua personalidade muito forte na dedicação à causa dos pobres, longe desta “economia que mata. Quadra-lhe como luva o seu texto com que Filipe Coelho encerra a sobredita compilação e que nos desafia: “Estamos enfrentando um enorme desafio cultural e espiritual, que pressupõe e impõe um compromisso redobrado, a todos os níveis, especialmente na educação das jovens gerações para uma nova conceção de vida boa e feliz, que se traduz em novos estilos de vida, modos de pensar e agir, de produção e consumo, de cuidar de si, dos outros, do seu lugar, do país em que vive e do planeta Terra em que hoje todos nós vivemos e onde as novas gerações viverão nos tempos vindouros.”

17/11/2022

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Louro Carvalho

É natural de Pendilhe, no concelho de Vila Nova de Paiva, e vive em Santa Maria da Feira. Estudou no Seminário de Resende, no Seminário Maior de Lamego e na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi pároco, durante mais de 21 anos, em várias freguesias do concelho de Sernancelhe e foi professor de Português em diversas escolas, tendo terminado a carreira docente na Escola Secundária de Santa Maria da Feira.

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