Meter a foice em seara alheia

 Meter a foice em seara alheia

(Créditos fotográficos: Gerd Altmann – Pixabay)

Tive um bom professor de Filosofia, em Évora, nos 6.º e 7.º anos do liceu (actuais 10.º e 11.º anos de escolaridade), chamava-se António Hortênsio da Piedade Morais. Ao longo da vida, mantive um certo respeito por uma matéria que nunca aprofundei. Lembro-me de uma frase sua: “A Filosofia é, sobretudo, a via que conduz o nosso cérebro ou a nossa mente a pensar sobre o pensamento”. E é esta a noção que conservo desta disciplina. Percebe-se, assim, por que razão os filósofos são, muitas vezes, referidos como pensadores.

Há uns anos, tive curiosidade em passar os olhos sobre o programa oficial desta disciplina, no nosso ensino secundário, e uma das frases que li e que transcrevo é esta: “Iniciar a discursividade filosófica, prestando particular atenção, nos discursos/textos, à análise das articulações lógico-sintácticas e à análise dos procedimentos retórico-argumentativos.”

Um discurso tão desnecessariamente rebuscado pode revelar o elevado nível filosófico de quem o escreveu, mas deixa dúvidas, no que respeita à sua qualidade pedagógica. Uma frase assim faz fugir, “a sete léguas”, um qualquer adolescente. A mim, cuja idade pesa mais do que cinco adolescentes, foi o que me aconteceu, fugi.

(esposende-educa.pt)

Com boa vontade, podemos admitir que todos somos filósofos, sempre que procuramos saber ou investigar algo, seja sobre minerais ou rochas, borboletas, literatura, castelos, gastronomia, pintura, planetas e satélites, jardinagem ou, até mesmo, futebol, moda ou tauromaquia. Tudo é sabedoria e tudo é, de facto, para os respectivos cultores, motivo de amor ou de interesse. Mas o conceito académico de “filosofia” é algo mais profundo, a tratar por quem ganhou estatuto para tal. É, por assim dizer, uma sabedoria com uma longa História, vasta e complexa, que abarca a universalidade do conhecimento, que o questiona, explora e, tantas vezes, vai à frente dele.

Como disciplina dos programas escolares do ensino secundário, a Filosofia é um ramo do conhecimento como qualquer outro. Afasta muitos alunos porque, como se viu, usa demasiadas vezes um vocabulário para eles erudito e hermético, fora do seu dia-a-dia. Na realidade, tem um “falar caro” que, se for “trocado por miúdos”, deixa de “meter medo”, passa a ter significado e, até, acredite-se, pelo menos para mim, tem beleza.

(aemsacramento.edu.pt)

Como filósofo que sou, no estrito sentido de gostar de saber coisas, das mais simples e vulgares, como levantar uma parede de tijolos, ao porquê das ondas de gravidade previstas por Einstein, há 100 anos – e agora, finalmente, descobertas –, não resisto a “meter o nariz e espreitar” este maravilhoso domínio do génio humano.

Fique claro que não pretendo “meter a foice em seara alheia”. Não adquiri preparação académica em Filosofia. Limito-me, pois, a procurar tornar acessíveis as leituras que a condição de “arrumado na prateleira”, na situação de aposentado, desde 2001 (há 22 anos, é muito tempo), me vão ensinando.

“A Morte de Sócrates” (“La Mort de Sócrates”) é uma pintura do pintor francês Jacques-Louis David, datada de 1787. (wikiart.org)

Dada esta explicação, que me desculpem os leitores mais letrados, professores e outros que, certamente, dispensarão, estas minhas incursões. Mas é que eu sei que são muitos os que esperam de mim estas conversas. E é a pensar neles que vou pondo aqui, “enquanto é tempo” (o horizonte de vida não permite dilatar o tempo), o que aprendi e continuo a aprender, bem como o que meditei ao longo da vida.

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14/12/2023

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A. M. Galopim Carvalho

Professor universitário jubilado. É doutorado em Sedimentologia, pela Universidade de Paris; em Geologia, pela Universidade de Lisboa; e “honoris causa”, pela Universidade de Évora. Escritor e divulgador de Ciência.

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