A bestialidade, o ódio e o desrespeito

 A bestialidade, o ódio e o desrespeito

Pormenor do quadro (óleo sobre tela, datado de 1797) “O Sábado das Bruxas”, de Francisco de Goya. (Museu da Fundacion Lazaro Galdiano, Espanha – esmadrid.com)

“Autorretrato com Máscaras”, pintura do belga James Ensor. (sartle.com)

Estive ausente, sem Internet nem televisão. Estou surpreendido com tantos acontecimentos em cinco dias. Para lá de elementos eminentemente políticos, reinam a bestialidade e o ódio e o desrespeito. E, pelos vistos, até de comentaristas televisivos. Sei que não se combate com ódio, que é o combustível de radicais e de nazis. Mas também não sei já como se combate. O ódio contaminou tudo e (quase) todos.

Moralmente, permaneço mobilizado com vacina para tais males. Coragem tenho a que um homem de 71 anos pode ter. Esperança (quase) nula. O que fazer não sei mesmo. Salvo a de pensar a longo prazo, lançando agora as sementes. O horror já não está a bater à porta, está no átrio de entrada, pelo menos. A divisão actual não é entre esquerda e direita, é entre a inteligência, a educação e o bom coração versus a estupidez, a ignorância e os maus fígados. Quem não perceber nem assumir isto nada percebeu e será, ainda que sem consciência disso, cúmplice e irresponsável. Os jogos florais político-partidários não têm lugar no que é preciso fazer, disso tenho a certeza.

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16/06/2025

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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