A ignorância da ignorância

 A ignorância da ignorância

(Créditos fotográficos: Nick Fewings – Unsplash)

Os mais recentes ataques, físicos e verbais, da extrema-direita revelam que esta tem mais consciência do perigo do que a cultura para ela significa, do que os democratas, do que ela deveria contribuir para a defesa da liberdade e dos valores da cidadania.

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Em (grande) parte, o crescimento da extrema-direita decorre da pouca ou nenhuma atenção dada à cultura, à educação (não digo meros interesses corporativos na escola nem estatísticas de canudos, falo da “formação integral do indivíduo”, para citar Bento de Jesus Caraça) e mesmo à ciência – em sumo: ao conhecimento.

O recurso ao medo, ao ódio e ao bode expiatório são traços comuns a todas as extremas-direitas. Em Portugal soma-se-lhes a ignorância e a boçalidade generalizada, que mergulham em raízes com mais de 100 anos, mas a que, em 51 deles, a Democracia não deu resposta. Os insultos a Lídia Jorge ou o espancamento do actor Adérito Lopes ocorreriam na mesma? Julgo que sim. Mas provocariam uma onda de choque e de indignação e não a indiferença ou desvalorização pela esmagadora maioria da população.

Aposto que se fosse agredido um cantor pimba ou o produtor de um qualquer programa tipo “Casa dos Segredos”, haveria um enorme movimento de indignação (também justo, claro). Mas só acontecer nesses casos é mau, muito mau. Acontece porque, fora dos valores pífios que são promovidos, não há empatia. E não há empatia porque não há o reconhecimento de si fora deles. Os gritos (muitas vezes histéricos) de raiva de nada servem. Ou se servem, neste ambiente de incultura generalizada, é o propósito contrário.

Seria bem melhor que fossem dezenas de milhar a irem, por hábito, a concertos de música sinfónica do que umas centenas a gritarem, de si para si, palavras de ordem fora da realidade. Nesta tragédia nacional – porque um povo ignorante e ignorante da sua ignorância é, por si, uma tragédia –, todos os democratas, da esquerda à direita, são (ir)responsáveis. Ou pior: partilham a ignorância da ignorância da ignorância.

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23/06/2025

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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