Não ficar à espera de Godot
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É espantoso (ou não é e eu ainda transporto, irremediavelmente comigo, um enorme fardo de ingenuidade) que, no meio de um mundo multiperigoso – e não só no plano político, mas neste muito próximo de uma abissal loucura universal –, as direcções político-partidárias (falo de Portugal) prossigam nos seus discursos circulares e guerras florais. Já não há, praticamente, ninguém que faça política. A ideia de que a culpa é dos políticos é um erro: a culpa é de que a larguíssima maioria que ocupa cargos políticos não é política o que está a fazer: é o enriquecimento dos seus cofres e dos seus egos.

E o que era preciso era mesmo de políticos, no sentido mais nobre de defender a causa pública, independentemente de cada qual propor soluções contrárias. Onde estão as propostas concretas, sinceras, genuínas? Só nevoeiro e nem com ele virá Dom Sebastião! A única, mesmo única esperança de que faço questão de transportar comigo é a da arte como porta luminosa, por mais pequenina que seja a flor que vive oculta (ou ocultada) no meio da floresta de enganos, da cupidez, das ilusões e desilusões. Mas é nesse casulo que me fecho. Se for subitamente pulverizado por um cataclismo nuclear, quero estar a sorrir de flor na mão. Se o lodaçal nacional prosseguir, quero permanecer ocultado com a minha flor. Porque no mais, nas “grandes causas”, como diria Samuel Beckett: “Nada a fazer”. Não é desistir, é não ficar à espera de Godot.
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26/06/2025