Ventura e a hipótese político-performativa de Moffitt

 Ventura e a hipótese político-performativa de Moffitt

(publicbooks.org)

Há muito que a política deixou de ser apenas a arte de governar. Tornou-se, cada vez mais, a arte de representar. André Ventura compreende-o como poucos. Prova disso foi o momento em que partilhou, nas redes socias, como se fosse atual e tivesse ocorrido em Lisboa, o vídeo de uma rixa ocorrida há dois anos em Rabo de Peixe – uma vila onde, aliás, o Chega obteve expressiva votação. Mais recentemente, também nas redes sociais, voltou a recorrer à manipulação discursiva: deturpou uma intervenção de Mariana Mortágua para insinuar que esta defenderia uma abertura descontrolada à imigração, alegadamente por motivos eleitorais relacionados com o voto bloquista dos emigrantes. Estes episódios não devem ser lidos como meros excessos ou lapsos de retórica. São, na verdade, gestos meticulosamente encenados, calculados e dirigidos a audiências específicas.

(Créditos de imagem: Gerd Altmann – Pixabay)
(sup.org)

Para compreender este tipo de ação política, é particularmente útil o contributo teórico de Benjamin Moffitt, investigador australiano especializado em populismo. No seu livro “The Global Rise of Populism” (de 2016), Moffitt propõe uma leitura inovadora: o populismo não deve ser entendido como uma ideologia ou uma patologia democrática, mas como um “estilo performativo”. Isto é, uma forma de encenação política em que o conteúdo ideológico importa menos do que a forma como a política é representada. Os populistas constroem um palco permanente de crise, dramatizam o espaço público e apresentam-se como figuras autênticas, em contraposição a uma elite corrupta e distante. Afirmam ser os únicos capazes de expressar, sem filtros, o que o “povo” realmente pensa – uma “performance” que privilegia o efeito emocional e a polarização.

É nesta lógica que se inscreve, por exemplo, a manipulação do discurso de Mariana Mortágua. No vídeo original, a deputada critica explicitamente quem instrumentaliza o tema da imigração “para ganhar mais uns votos”. Ao recortar e inverter o sentido da frase, publicando-a depois nas redes sociais, André Ventura não procura apenas vencer um argumento: cria um momento performativo. Não lhe interessa a veracidade da afirmação – interessa-lhe a verossimilhança emocional que dela pode extrair. Como sugere Moffitt, numa política crescentemente mediatizada, a verdade factual dá facilmente lugar a narrativas que “parecem verdadeiras” o suficiente para confirmar crenças prévias e mobilizar afetos.

Benjamin Moffitt, investigador australiano especializado
em populismo. (research.monash.edu)

Impõe-se, por isso, uma pergunta: é toda esta agressividade apenas parte do espetáculo? Moffitt dir-nos-ia que sim. Como personagem populista, Ventura sabe o que dizer, quando dizer e a quem dizer. A distorção do discurso de Mortágua não visa convencer eleitores do Bloco de Esquerda, mas antes consolidar o apoio dos seus próprios seguidores e seduzir indecisos que já se sentem afastados da linguagem da esquerda progressista. Ao apresentar Mortágua como símbolo da elite “woke” desconectada do povo, Ventura reforça o seu antagonismo performativo – mesmo que à custa da verdade. Hostilizar o Bloco e os seus representantes culturais dificilmente lhe traz custos eleitorais. Pelo contrário: garante-lhe o que nunca desprezou: visibilidade. Entre os típicos eleitores do Chega, dificilmente perde algum.

(Créditos da imagem: Global Voices)

O problema, evidentemente, reside mais nas consequências para o espaço público do que nas estratégias políticas. Quando se normaliza a distorção e a teatralização do discurso político, o debate transforma-se num espetáculo de sombras. A verdade torna-se descartável, a política esvazia-se de conteúdo e transforma-se em ruído. E o público, cada vez mais dividido entre aplausos e “zapping”, continua unido em torno daquilo que menos importa: o espetáculo pelo espetáculo.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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31/07/2025

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Lourenço Ferreira

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Lourenço Ferreira é mestrando em Comunicação Social, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos de Educação para a Cidadania. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

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