A resignação da Humanidade 

 A resignação da Humanidade 

Um menino de cinco anos segura o seu gato no meio dos destroços da sua casa em Gaza. (Créditos fotográficos: Unicef/Mohammad Ajjour – news.un.org)

Um canal português de televisão teve a coragem de transmitir, a 11 de Julho de 2025, ao fim da tarde, breves imagens da barbárie que está a acontecer em Gaza provocada pelo governo israelita. Se já não bastasse o que conhecemos do horror que lá se passa, a filmagem por um canal de televisão norte-americano dos corpos baleados de crianças de tenra idade, faz do que se viu nesses breves minutos da encarnação do mal uma experiência que irá marcar definitivamente o resto da sua vida.

(Créditos fotográficos: Mohamad Azaam – Unsplash) 

Está, ali, documentado o que nenhum tribunal humano consegue julgar, tal é a bestialidade daqueles actos. Para quem ainda não se tinha dado conta de como se faz o extermínio de um povo, aí está o método levado a cabo, o assassinato dos que poderiam garantir a continuação da existência de quem vive naquele território.

(Créditos fotográficos: Mohamed Jamil Latrach – Unsplash)

Em tempos, a manifestação que levou milhares de pessoas à rua em protesto contra a invasão do Iraque, não se está a repetir perante uma realidade muito mais brutal, tendo o governo dos Estados Unidos da América (EUA) como seu garante. A impunidade de que aquela aliança goza só é possível porque os imensos tentáculos da cobardia nos asfixiaram os valores de que tanto nos orgulhávamos.

Vem-me à memória a imagem de Eva, pintada por Tintoretto, a ser expulsa do Paraíso, com as mãos a cobrirem-lhe a cara pela vergonha que tomou conta dela ao dar a Adão a possibilidade de também ele passar a ser dono da sua vida. Porém, no acontecimento mais hediondo que vai marcar o século XXI, continua-se a ser incapaz, por razões de Estado, de colocar aquele Israel de quarentena total, isolado do resto da Humanidade, até que os seus habitantes entendam que é chegada a hora de expulsar o assassino.

O que se está a passar só se torna possível, sem que a ira tome conta dos povos, porque o medo tomou conta deles, o medo de serem expulsos, estejam onde estiverem, façam o que fizerem. Daí o sinal de que também fomos expulsos do nosso paraíso, por razões opostas às de Eva, e vagueamos, agora, pela terra tendo por único amparo o cajado da vergonha. 

(© OMS – news.un.org)

Quando Israel tomou a decisão de proceder ao extermínio do povo de Gaza, e os líderes europeus resolveram pôr-se a olhar para o lado, fazendo de conta que não era nada com eles – pois, era um território que tinha um mar a separá-los –, pôde-se, finalmente, confirmar que, para eles, os valores democráticos têm duas faces. Aos Israelitas concedem-se todos os graus de liberdade para matar, aos Russos, em qualquer ataque que façam há sempre, pelo menos, uma criança para noticiar que morreu. Se em ambos os casos, mas por razões opostas, se fazem algumas diligências diplomáticas para acabar com os conflitos, são tão secretas que nem o segredo sabe delas.

(Créditos fotográficos: Mohamad Azaam – Unsplash)

Olhando para a História, damos conta de que as grandes civilizações, por regra, extinguiram-se às mãos dos seus dirigentes, fossem reis, imperadores ou faraós. Não foi na guerra que perderam as esporas, mas numa espécie de adormecimento narcísico de quem só quer que não o importunem. Para chegar onde chegou, a Europa teve de criar uma base material que alimentasse esta preguiça, física e intelectual. Foi aqui, neste continente, que essa base material viu a luz do dia, cujos alvores estiveram no laissez faire dos fisiocratas franceses do século XVII. Ao fim de três séculos, o seu também laissez passer deseja ir morrendo calmamente, mas, para isso, tem de deixar passar uns e de barrar o caminho a outros, nem que sejam da mesma família, embora de ramos diferentes, como é o caso. 

A Humanidade foi tomada pela resignação. Mais precisamente, foi sendo tomada pela resignação, uma vez que este sentimento vai-se instalando à medida que acontecimentos que, em tempos, eram motivo de reacções emotivas, levando, mesmo, a manifestações de cólera, são hoje vividos em ambiente protegido, não vão eles entrarem pela porta adentro.

A resignação e o medo tomaram conta da solidariedade humana, colocando-a atrás das grades por obstrução à ideia de um mundo dominado pelo desígnio da escravidão do pensamento. Saturada de tanta injustiça e horror e sem que “houvesse alguém que lhe pudesse valer”, a Humanidade resignou-se a uma espécie de fatalismo. Não é outra coisa o que está a acontecer quando se olham as imagens de crianças de Gaza mortas pelas balas ou pela fome.

Uma criança em Gaza carrega um prato vazio. Várias famílias estão a morrer na fronteira muito perto dos carregamentos de comida que não podem entrar em Gaza. (Créditos fotográficos: ONU News – news.un.org)

Deixa-se que os autores dos crimes vandalizem as vidas que teimam em querer ficar a cuidar da sua terra e dos seus pertences. Uma mão invisível protege-os da justiça dos homens, quanto mais crimes cometem mais fortes se tornam, deram-se conta disso, de nada valendo as súplicas que lhe são dirigidas do alto da tribuna das Nações Unidas.

Como a grande infecção serviu para testar até quando a Humanidade era capaz de obedecer, a grande matança de inocentes está a servir para se conhecer até quando chega a resignação. Não sei como poderemos continuar daqui para a frente, tamanha vai a ser a culpa que iremos carregar, talvez curvados a olhar para a terra que recebeu os corpos das crianças assassinadas em Gaza. Esses vão ser os grilhões que a Humanidade vai carregar, indo ficar escrito no livro da História a imensa desrazão que tomou conta dela. 

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04/08/2025

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Cipriano Justo

Licenciado em Medicina, especialista de Saúde Pública, doutorado em Saúde Comunitária. Médico de saúde pública em vários centros de saúde: Alentejo, Porto, Lisboa e Cascais. Foi subdiretor-geral da Saúde no mandato da ministra Maria de Belém. Professor universitário em várias universidades. Presidente do conselho distrital da Grande Lisboa da Ordem dos Médicos. Foi dirigente da Associação Académica de Moçambique e da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. É um dos principais impulsionadores da revisão da Lei de Bases da Saúde.

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