Jameson e os girassóis à beira do Danúbio

 Jameson e os girassóis à beira do Danúbio

“Campo de girassóis”, Vincent van Gogh, óleo, de 1888. (reddit.com/r/Art/)

A caminhar pelo charmoso centro histórico de Bratislava, na Eslováquia, deparei-me com algo tão curioso como inusitado: Vincent van Gogh estava em toda a parte. Sacos de pano com girassóis, canecas com autorretratos, capas de livros, cartazes, ímanes – cada obra multiplicada em suportes sem fim. Um artista neerlandês, sem qualquer ligação direta a esta cidade à beira do Danúbio, dominava a paisagem visual local. Nada de novo, é certo – vê-se isto em muitos países, Portugal incluído. Mas, ainda assim, curioso e inusitado.

“Visões do Inferno – Arte Contra o Esquecimento”, pintura de Adolf Frankl. (chiostrodelbramante.it)
(© Lourenço Ferreira)

Poucos metros adiante, de forma tímida e quase escondida, uma galeria exibia as “Visões do Inferno”, de Adolf Frankl, pintor judeu-eslovaco sobrevivente de Auschwitz. As suas telas são descritas como um grito pintado: corpos esmagados, rostos deformados pelo pânico, composições densas que abalam quem as vir. Na mesma rua, um letreiro discreto assinalava o local onde Amadeus Mozart, então, um prodígio de seis anos, deu um concerto. Raramente alguém parava; uma multidão de transeuntes atentos à imagem mais vibrante, distraídos com mais um “Terraço do Café à Noite”, de Vincent van Gogh, numa caneca, num leque, numa esferográfica.

Ocorre a pergunta: como pode a reprodução de obras de um artista sem qualquer ligação ao espaço e à sua história eclipsar memórias e obras tão ligadas à geografia humana local?

Fredric Jameson, em “Postmodernism, or, The Cultural Logic of Late Capitalism” (publicado em 1991), descreve como, na era do capitalismo tardio, a arte e a cultura se fundem com a lógica da mercadoria, que as livra de substância e as distribui em inúmeros formatos. As obras deixam de existir como criações singulares, para se tornarem produtos infinitamente replicáveis, moldados de acordo com as métricas do consumo rápido e da circulação global.

Bratislava, capital da Eslováquia. (Créditos fotográficos: Michal Vrba – Unsplash)

Uma qualquer obra de arte, estampada num saco ou num íman, nada diz da vida e do contexto que a moldaram; mais não é do que um padrão visual globalmente reconhecível, pronto a ser consumido em qualquer parte do Mundo. O “van Gogh de Bratislava” não passa de um conjunto de signos visuais simplificados, recortados e reaplicados para alimentar um fluxo incessante de objetos e de imagens. O vínculo entre a obra e o seu significado dissolveu-se algures pelo caminho. Olha-se e reconhece-se: evoca alguém a quem chamam Vincent van Gogh. E tudo se esgota nessa informação.

(© Lourenço Ferreira)

Por outro lado, a experiência estética que não é reconhecível pelas massas, como a visão trágica de Frankl ou a densidade histórica de uma nota biográfica de Mozart, permanece na penumbra. Não se convertendo facilmente em merchandising ou não cabendo na estética leve e instantânea do Instagram, é condenada ao olhar passageiro do transeunte distraído. Exigindo tempo, atenção prolongada e disponibilidade emocional – três recursos cada vez mais escassos na economia da atenção –, afasta-se das exigências dos nossos dias. Jameson identifica, neste processo, o triunfo do “pastiche”: o sentido histórico cede lugar a superfícies saturadas de referências descontextualizadas.

O que vemos em Bratislava é a expressão de um fenómeno global: vivemos numa cultura em que a circulação da imagem suplanta a experiência direta do local – do aqui e agora. Neste movimento incessante, não se perde apenas a singularidade dos objetos – perde-se também a memória, dissolvida no fluxo mercantil da pós-modernidade.

Bratislava. (Créditos fotográficos: Victor Malyushev  – Unsplash)

14/08/2025

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Lourenço Ferreira

https://linktr.ee/glourencosferreira

Lourenço Ferreira é mestrando em Comunicação Social, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos de Educação para a Cidadania. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

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