Na véspera das eleições, uma breve elegia da informação
(surveyandballotsystems.com)
Há alguns dias, vi-me envolvido numa discussão sobre redes sociais. Fui eu próprio quem decidiu encerrá-la – não por vacilação de convicções, nem por falhas de raciocínio, mas por um cansaço insuportável, provocado pela monotonia das respostas e pela sua evidente impermeabilidade à persuasão. Restou-me uma inquietação discreta, quase melancólica, sobretudo pelo que a discussão expôs sobre o espírito do nosso tempo. É precisamente este impasse, mais do que a controvérsia que lhe deu origem, que este artigo se propõe analisar.

Comecei por sustentar algo que, à partida, me parecia pouco controverso: as redes sociais não foram concebidas para informar. A sua função é outra, mais prosaica e incomparavelmente mais eficiente: capturar a atenção, prolongar a permanência e converter minutos dispersos em valor económico mensurável. A qualidade da informação, a sua relevância pública ou o seu contributo para o debate democrático surgem, neste contexto, apenas como efeitos colaterais. Quando coincidem com os objetivos centrais das plataformas, são tolerados; quando os perturbam, tornam-se descartáveis.

A conversa adensou quando manifestei a minha reserva perante a veneração acrítica da figura do influencer. Não o fiz por moralismo, desdém geracional ou, mais ingenuamente, imputação de responsabilidades a indivíduos isolados. O influencer é a encarnação humana que mais fielmente corresponde às exigências das plataformas que o produzem – e, neste sentido, a sua forma mais acabada. É selecionado, amplificado e recompensado por cumprir com exatidão aquilo que as arquiteturas algorítmicas privilegiam: retenção, recorrência e envolvimento afetivo. Em seu redor agregam-se comunidades, estabilizam-se hábitos e sedimentam-se rotinas de consumo simbólico. O que é preocupante – e deste ponto não me arredo – é que a autoridade deixou de assentar no saber ou na competência e passou a organizar-se em torno da familiaridade, da exposição contínua e da presença reiterada.
As respostas não tardaram. “Cada um constrói o seu feed.” “Há bons influencers.” “Quem não se informa noutros meios, escolhe não o fazer.” Argumentos reconfortantes, sem dúvida, mas cuja fragilidade enquanto autoridade explicativa se revela, à primeira confrontação, com a empiria1. É pena que a realidade não seja tão generosa.

constante atualização. (Créditos de imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog –
tecnoblog.net)
Expliquei ao meu colega, ponto a ponto, por que razão os três argumentos acabavam, inevitavelmente, por esbarrar em limites estruturais que não controlamos. Empenhei nesta tarefa todos os esforços de que dispunha, não com o intuito de vencer a discussão, mas de tornar visível aquilo que tende a permanecer opaco no uso quotidiano das plataformas. Eis, no essencial, o melhor que consegui:
- O feed não é uma construção soberana do utilizador. Resulta de uma negociação estruturalmente assimétrica entre escolhas individuais e arquiteturas algorítmicas desenhadas para maximizar a retenção. Existe margem de agência, sem dúvida, mas opera dentro de limites previamente definidos. Não escolhemos o campo; escolhemos apenas percursos possíveis no seu interior. E quanto mais tempo passamos a escolher, mais esse campo se recalibra para garantir que lá permanecemos.
- Mesmo admitindo a existência de influencers informados e bem-intencionados – o que não está em causa –, o equívoco persiste. Um influencer não desempenha a função de um jornalista. Não se rege por critérios de validação pública, não hierarquiza o relevante em função do interesse comum, não responde perante uma ética profissional orientada para o esclarecimento. A informação jornalística, com todas as suas fragilidades, continua a assentar em princípios que lhe são próprios e inconfundíveis.
- A ideia de que todos são livres para se informarem “noutros meios” exige alguma sobriedade analítica. A liberdade formal de acesso a um espaço pouco diz sobre a disposição efetiva para nele entrar. Muitos fóruns informativos pressupõem um investimento simbólico e cognitivo que não se adquire por osmose, nem depende exclusivamente de recursos financeiros. É preciso saber que estes espaços importam – e aceitar que, por vezes, exigem esforço, tempo e uma atenção que não é recompensada por estímulos imediatos. As redes sociais são os seus maiores concorrentes.

A convicção inabalável do meu colega, uma vez esgotados os meus argumentos, acabou por ditar o encerramento do tópico. Importa, contudo, deslocar o olhar para o seu significado mais amplo. O que ali se revelou, na figura singular do meu interlocutor, foi uma comunidade de pessoas bem-intencionadas, seguras de que escolhem livremente, mas que consomem informação em ecossistemas que as selecionam com notável precisão. Pessoas informadas de forma fragmentária e emocionalizada, estruturalmente vulneráveis à manipulação – não por má-fé nem por ignorância deliberada, mas por uma confiança excessiva na neutralidade do conforto. É neste desfasamento silencioso entre a perceção de autonomia e as condições reais da escolha que se joga uma das questões mais decisivas do nosso tempo.

Esta inquietação agudizou quando me dei conta da proximidade de uma data decisiva. Dentro de três dias, estas mesmas pessoas votarão, em massa, para eleger o próximo Presidente da República. Fá-lo-ão munidas de convicções firmes, forjadas em feeds personalizados e sustentadas por uma sensação de esclarecimento que, na maioria dos casos, raramente passou pelo crivo de informação publicamente responsável.
Este texto nasce da consciência de que as democracias raramente colapsam de forma espetacular. Mais frequentemente, e hoje mais do que ontem, degradam-se pela acomodação. São substituídos a informação pelo envolvimento, o conhecimento pela familiaridade e a formação pela estética do imediato. Entre o feed e a formação, temos vindo a escolher o caminho mais confortável. E, como tantas vezes sucede, este conforto será pago em decisões coletivas cujas consequências partilhamos – quer leiamos jornais, quer naveguemos, desenfreadamente, pelas redes sociais.
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Nota da Redacção:
1 – Empiria diz respeito ao conhecimento adquirido através da experiência, da observação e da prática.
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15/01/2026