Panorama da utilização da eletricidade verde nos países da UE
(sana-alentejo2020.pt)
É quase consensual que é preciso diversificar as fontes da energia, por forma a reduzir a utilização da energia de origem fóssil, para obviar às alterações climáticas, embora os Estados Unidos da América (EUA), sob a batuta de Donald Trump, continuem a apostar na exploração dos poços petrolíferos e de gás, em todo o continente americano, e considerem as energias renováveis como uma ideologia de esquerda.

No entanto, importa aumentar a produção de eletricidade para tornar o seu consumo mais barato, não podendo o presidente dos EUA continuar a ter razão, ao acusar países da Europa de terem diminuído a produção de eletricidade e deixado aumentar o seu custo para o utilizador.
Na União Europeia (UE), a utilização total de fontes renováveis de energia atingiu quase 50%, sob o impulso da energia hidroelétrica e, cada vez mais, da energia solar.

De acordo com o Eurostat, a Áustria, impulsionada pelas suas 16 centrais hidroelétricas, lidera a utilização de eletricidade renovável, na UE, com a maior percentagem de energia proveniente de fontes verdes, ou seja, quase 90%.

Logo a seguir, vêm a Suécia, com 88%, alimentada principalmente pelo vento e pela água, e a Dinamarca (outro país nórdico), com 80%, mercê da sua extensa rede de parques eólicos em terra e no mar. Também se registaram taxas significativamente superiores a 50%, em Portugal (66%), na Espanha (60%) e na Croácia (58%), enquanto a Itália e a França ficaram na metade inferior, respetivamente, em 18.º e 21.º lugar, na UE.
As proporções mais baixas de utilização de eletricidade verde registaram-se em Malta (11%), na Chéquia (18%), no Luxemburgo (20,5%), na Hungria e em Chipre (24%).
Estes valores percentuais abrangem toda a eletricidade proveniente de fontes renováveis, incluindo a importada do estrangeiro.
A utilização de eletricidade verde, na UE, aumentou nas últimas duas décadas. Em 2004, representava apenas 16% do consumo total de eletricidade. Cerca de 10 anos mais tarde, o valor subiu para quase 29% e, atualmente, situa-se nos 47,5%.
A energia eólica representa a maior parte das fontes renováveis utilizadas para produzir eletricidade, com 38% do total, seguida da energia hídrica, com 26%. Porém, a que regista mais rápido crescimento é a energia solar, que passou de apenas 1%, em 2008, para mais de 23% em 2024, com 304 TWh (Terawatt-hora).

(bruegel.org)
Segundo Ben McWilliams, especialista em energia da Bruegel, é quase certo que a energia solar ultrapassará a energia hidroelétrica, nos próximos anos. “Os promotores continuam a construir centrais solares a um ritmo recorde, enquanto a implantação de centrais hidroelétricas não aumenta”, afirmou, ao Europe in Motion, acrescentando que quanto mais energia solar a Europa conseguir instalar, melhor [é] para a segurança energética, pois, na sua perspetiva, “cada novo painel solar reduz a dependência do petróleo, do gás e do carvão, e estas dependências são as verdadeiras ameaças à segurança energética europeia”.
Apesar de a grande maioria dos painéis solares instalados na UE ser fabricada na China, McWilliams exclui a ideia de que isso tornará a Europa mais frágil, num contexto de tensões geopolíticas, porque, em seu entender, “os painéis solares são um stock e não um fluxo”, pelo que, desde que “a UE tenha instalado um painel da China, ele fica para sempre” e, se, por qualquer motivo, “as importações de painéis solares da China parassem, isso apenas abrandaria a construção de novos painéis solares e a oferta cresceria noutros locais (incluindo a nível nacional) durante um período de dois ou três anos”.

(portal-energia.com)
De acordo com a Solar Power Europe, existem, atualmente, 166 empresas ativas, na UE, na cadeia fotovoltaica ou energia luminosa. A grande maioria está na Alemanha, embora a maior capacidade de energia solar per capita seja produzida nos Países Baixos, com cerca de 1044 W (Watt), por ano.
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Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), num painel da Euronews no Fórum Económico Mundial (FEM ou WEF), em Davos, traçando a visão de um continente assente em energia limpa e não em combustíveis fósseis, considerou que a Europa tem de eletrificar “tudo”, desde as infraestruturas aos transportes, edifícios e indústria, nos próximos anos, para garantir a segurança energética europeia e para cumprir metas climáticas.
O líder da AIE sugeriu uma estratégia assente em dois eixos. O primeiro é investir, massivamente, em infraestruturas de rede e o segundo é baixar os preços da energia.

“Uma é redes, redes, redes”, disse Fatih Birol, vincando a importância de renovar as redes elétricas na Europa, para o que é necessário ultrapassar a existência de importantes estrangulamentos, como a dificuldade de obtenção de licenças, o que compromete o desenvolvimento das vastas redes interligadas que levam eletricidade a casas, a empresas e a fábricas. Para Birol, este é “o principal obstáculo à eletrificação da economia europeia”.
A este respeito, contou que, em 2025, na Europa, foi instalado um recorde de 80 gigawatts de capacidade renovável e estavam prontos mais de 400 gigawatts de capacidade renovável, mas não se conseguiram ligar à rede – o que, “do ponto de vista económico, não faz qualquer sentido”.
Fatih Birol comparou este impulso para a energia verde desenvolver a infraestrutura necessária para construir um carro sofisticado e eficiente, esquecendo a construção de estradas.

É de recordar que falhas na rede europeia estiveram na origem do apagão ibérico de 2025, tendo deixado 60 milhões de pessoas sem eletricidade em abril.
O envelhecimento da rede europeia foi destacado num estudo do think tank de energia Ember, recém-publicado, que concluiu que a UE não tem dificuldade em gerar energia limpa. Pela primeira vez, em 2025, o vento e o solar produziram mais eletricidade na UE do que os combustíveis fósseis, mas a rede desatualizada dificulta o escoamento dessa energia. Face a estes problemas, a Comissão Europeia apresentou, no final de 2025, um “Pacote das Redes”, para renovar a rede elétrica obsoleta do bloco e aumentar a transmissão de eletricidade em toda a UE27 – medida que Fatih Birol aplaude, esperando que o pacote avance, para poder “desbloquear muitos dos problemas” com que a Europa se confronta.

Kıvanç Zaimler, CEO da Sabancı Holding, uma das principais holdings de investimento turcas, que integrou o referido painel, diz que o investimento nas redes é “indispensável”, mas com transformação profunda. E explicou: “Temos também de pensar na eficiência através da digitalização. É como gerir o trânsito (rodoviário). Não basta construir mais estradas, é preciso resolver os problemas de tráfego com sistemas de navegação.”

Outro problema central é o elevado custo da eletricidade, que representa grande desafio para a competitividade da indústria europeia. Na ótica de Fatih Birol, os preços da eletricidade na Europa são muito altos (três a quatro vezes superiores), face a concorrentes, como os EUA e a China.
O ministro romeno da Energia, Bogdan Ivan, disse que a solução para os preços elevados passava por duplicar os recursos energéticos na Europa. E defendeu que isso deve fazer-se diversificando as fontes. “Quero usar recursos da UE para financiar a energia nuclear. […] É uma das melhores formas de garantir energia barata e de base”, declarou, aduzindo que, se a UE apostar em excesso apenas no vento e no solar, “terá certamente um problema”.

Os ministros da Energia da UE, na última reunião oficial, em dezembro, comprometeram-se a nivelar os preços da energia entre estados-membros e a evitar discrepâncias entre eles.
Anna Borg, presidente e CEO da sueca Vattenfall, presente no painel, concordou que a diversificação é essencial, apontou a energia nuclear como peça-chave, porque é preciso utilizar todas as tecnologias sem fósseis disponíveis, e declarou que importa perceber que “a economia europeia só será competitiva, a prazo, se abandonarmos os combustíveis fósseis”.

Os participantes no painel sustentam que é central rever regulamentos para enfrentar os desafios que atrasam a soberania energética europeia, sobretudo, para baixar preços. E Anna Borg, apelando a uma abordagem mais holística, defendeu a necessidade de resolver a sobreposição de legislação, que trava o rápido desenvolvimento de projetos-chave. “Às vezes, quando queremos construir algo, temos de obter aprovação ao abrigo de um regulamento e depois de outro. Sobrepõem-se a olhar a mesma coisa, mas podem dar resultados diferentes”, observou.
Na verdade, as empresas europeias consideram morosos os processos regulatórios na Europa, a qual “tem o período de licenciamento mais longo, do zero até à construção de uma nova central renovável”, ao passo que os EUA estão mais focados na atribuição de licenças.
Este será um tema a abordar no Pacote das Redes da UE apresentado em dezembro.
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Apesar do investimento recorde em energia limpa, o financiamento aos combustíveis fósseis continua a aumentar. É o que conclui o relatório Estado das ações climáticas 2025,produzido pelo Systems Change Lab, segundo o qual nenhum dos 45 indicadores-chave para limitar o aquecimento global a 1,5 °C (graus Celsius), em linha com o Acordo de Paris de 2015, está no bom caminho para 2030.

Resources Institute. (linkedin.com/in/clea-schumer)
Embora a maioria avance na direção certa, o progresso é demasiado lento e desigual, para cumprir as metas. “Todos os sistemas estão em alerta vermelho”, frisou Clea Schumer, investigadora associada no World Resources Institute (WRI) e principal coautora do relatório, explicitando: “Uma década de atraso estreitou perigosamente o caminho para 1,5 °C. Progresso constante já não chega – cada ano em que falhamos acelerar alarga o fosso e torna a subida mais íngreme. Já não há tempo para hesitações nem meias‑medidas.”
O estudo resultante da colaboração entre o Bezos Earth Fund, a Climate Analytics, a ClimateWorks Foundation, os Campeões de Alto Nível para o Clima e o World Resources Institute (WRI), apresenta “o roteiro mais completo até agora” para colmatar a lacuna na ação climática nos setores responsáveis pela maioria das emissões. Entre eles, contam‑se a energia, os transportes, a indústria, as florestas e os sistemas alimentares.
Dos 45 indicadores avaliados, seis estão “fora de rumo”, 29 estão “muito fora de rumo”, cinco seguem na direção errada e cinco não foram avaliados, por falta de dados. Mesmo áreas antes consideradas casos de sucesso estão, subitamente, a perder andamento. Os veículos elétricos representaram um recorde de 22% das vendas globais de automóveis, em 2024, face a 4,4%, em 2020. Porém, com a emergência do ceticismo climático, o crescimento dos elétricos abrandou em mercados importantes, como a Europa e os EUA, de forma que sua a adoção está “fora de rumo”.
Nenhum dos 45 indicadores climáticos globais analisados no relatório está no caminho certo para 2030. (blogdopedlowski.com)
O abrandamento surge quando os transportes são o único setor que produz mais emissões do que em 1990.
O financiamento também fica aquém. Embora o financiamento climático privado tenha atingido cerca de 1,2 biliões de euros, em 2023, face a cerca de 750 mil milhões, em 2022, o montante continua muito abaixo do necessário. Já o financiamento público aos combustíveis fósseis continua a aumentar, rondando cerca de 70 mil milhões de euros, em média, por ano, desde 2014, e totalizando, em 2023, mais de 1,4 biliões. “Não estamos apenas a ficar para trás, estamos, na prática, a chumbar nas matérias mais críticas”, afirmou Sophie Boehm, investigadora sénior no WRI e coautora principal do estudo.

energia para atingir as metas climáticas. Geração global de eletricidade por
fonte, %. (blogdopedlowski.com)
Quase não se mexe no abandono do carvão ou no travão à desflorestação, enquanto o financiamento público continua a sustentar os fósseis. Trata-se de ações não opcionais, mas do mínimo indispensável para combater a crise climática e proteger a Humanidade.
O relatório define a rapidez com que o Mundo tem de mudar para limitar o aquecimento global a 1,5 °C. O uso de carvão tem de cair dez vezes mais depressa do que atualmente, algo que os autores do estudo equiparam ao encerramento de “quase 360 centrais a carvão”, por ano, travando, em simultâneo, todos os projetos futuros.
Com perdas atuais comparáveis a 22 campos de futebol de floresta que desaparecem, a cada minuto, e com compromissos aquém, a desflorestação tem de reduzir nove vezes mais depressa. As infraestruturas de transporte rápido têm de aumentar cinco vezes mais, enquanto regiões, como a América do Norte e do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia, onde o consumo de carne de bovino e de borrego é elevado, devem fazer escolhas alimentares diferentes.

As tecnologias de remoção de carbono também precisam de crescer mais de dez vezes, enquanto o financiamento climático tem de aumentar em quase 920 mil milhões de euros, por ano, o equivalente a cerca de dois terços dos atuais subsídios aos combustíveis fósseis.
No segundo trimestre de 2025, mais de metade da eletricidade líquida da Europa veio da energia solar. Globalmente, a energia renovável começa a espelhar este crescimento. Desde 2015, a quota da eletricidade mundial gerada por fonte solar e eólica mais do que triplicou, enquanto o investimento em energia limpa ultrapassou o investimento em combustíveis fósseis, pelo segundo ano consecutivo, em 2024.
Tecnologias emergentes como o hidrogénio verde – hidrogénio produzido com fontes de energia renováveis – e a remoção de dióxido de carbono (CO2) também estão a expandir‑se rapidamente. De facto, a produção de hidrogénio verde mais do que quadruplicou, num único ano. “O investimento em energia limpa já supera os fósseis e as novas tecnologias estão a descolar, prova de que o progresso é possível, quando ambição e investimento se alinham”, afirma Kelly Levin, responsável pela ciência, dados e mudança de sistemas no Bezos Earth Fund.

Apesar dos sinais de dinamismo, a mensagem global do relatório é um alerta de que as sociedades têm muito trabalho pela frente para cumprir os objetivos climáticos necessários. “Manter o aquecimento em 1,5 °C depende, agora, de uma coisa: velocidade”, disse Bill Hare, diretor‑executivo da Climate Analytics, advertindo: “A ciência é inequívoca: o Mundo não se move com rapidez suficiente. Cada ano de atraso torna a tarefa mais difícil e só cortes rápidos e sustentados podem manter 1,5 °C ao alcance.”
Ani Dasgupta, diretor‑executivo do WRI, avisa: “Dez anos após o Acordo de Paris, o Mundo está numa encruzilhada crítica. Ou bloqueamos sistemas que estão a agravar as catástrofes climáticas, ou aceleramos a transição para um futuro mais saudável e sustentável.”
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Isto postula a responsabilização dos cidadãos e dos decisores políticos e, sobretudo, das grandes empresas com 250 ou mais trabalhadores, no âmbito dos direitos humanos e dos danos ambientais causados pelas infraestruturas de produção e pelas cadeias de abastecimento.
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26/01/2026