Os presentes…

 Os presentes…

Via Láctea (Créditos de imagem: Kota Hamori – starwalk.space)

Ainda a propósito da época natalícia, uma lembrança sobre os presentes.
Numa aula de literatura, eu ainda estava no liceu, falávamos com a nossa professora. O tema era a  literatura fantástica, a ficção científica. Falámos sobre os marcianos e na possibilidade de existirem outras formas da vida na nossa galáxia, a Via Láctea.

Às tantas, a professora perguntou se nós sabíamos como se chamavam os habitantes da Lua… Um colega, aquele que existe sempre e nos faz rir, diz oportunamente: “Lunáticos!…” A turma desatou a rir. Passada a risota, atrevi-me a dizer que esses eram designados selenitas. A professora perguntou-me como sabia. A minha resposta foi simples: “Nos livros.”

(Créditos fotográficos: malith d karunarathne – Unsplash)

Toda esta introdução serve para relatar que a nossa geração era instruída pelos livros, pelo cinema, pela rádio, pelo teatro e por tudo aquilo que estava à nossa volta. Não havia mais. Hoje, as coisas são diferentes e os jovens têm na mão colada no braço uma coisa que, na nossa época, era impensável. Imaginámos os marcianos como seres verdes (apesar de Marte ser conhecido como o planeta vermelho), de antenas e, de certa forma, parecidos connosco.

A icónica cena de “Le voyage dans la Lune”, do
único frame (quadro) colorido sobrevivente do filme.
(pt.wikipedia.org)

Quanto às selenitas, imaginei-as como seres brancos, quase transparentes e, sem dúvida, femininas. Curiosamente, Georges Méliès, no seu filme “A Viagem à Lua” (de 1902), mostra os exploradores a dormir rodeados de uma constelação de estrelas femininas, como nos cartazes de Toulouse-Lautrec.

Reconheço que os livros foram e são a minha maior fonte de informação, hoje, também ajudada pela consulta diária na Internet, bem como pelos jornais e artigos de interesse.

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(facebook.com/teatrodasbeiras)

Na recente época natalícia, como presentes, recebi dois  livros da companhia Teatro das Beiras, com sede na Covilhã. São dois excelentes documentos  sobre o  percurso, em 25 e em 50  anos de actividade,  incluindo as peças encenadas  e demais realizações. Os títulos “GICC – Teatro das Beiras, 25 anos: 1974-1999” (lançado em 1999) e “GICC – Teatro das Beiras – 1974/2024” (publicado em 2024) foram-me oferecidos pelo encenador Fernando Sena.

Também fui presenteado com um livro publicado pela Jangada – Cooperativa de Teatro Profissional, de Lousada, que ilustra os anos de actividade desta companhia, assim como textos editados para a infância da autoria de Luiz Oliveira, um “jovem” que está a frente da Jangada Teatro e que foi – felizmente, na minha recordação – meu aluno no primeiro curso de formação do Balleteatro, no Porto.

A Jangada Teatro, companhia de teatro residente em Lousada, apresentando a sua criação “Alecrim vs Manjerona”, em 2019. (Créditos fotográficos: Susana Neves – verdadeiroolhar.pt)
(teatroartimagem.org)

A referida oferta foi após uma visita a esta companhia, guiado pelo programador cultural Luís Ângelo, da Câmara Municipal de Lousada.

Também fui presenteado com outros dois documentos bibliográficos magníficos, sobre o Festival Internacional de Teatro Cómico da Maia (FITCMaia), da autoria de José Leitão e de Micaela Cardoso, com textos sobre os espectáculos realizados nos 30 anos da sua existência (1994-2025).

E, finalmente, um belo livro do encenador José Caldas sobre as suas encenações e a ligação aos artistas plásticos que o ajudaram a concretizá-las. O livro “Cenógrafos, Figurinistas e Marionetistas – 50 Anos de Teatro” foi lançado no Festival Cómico de 2025 e, antes do fim do ano de 2025, na UNICEPE (Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto) – obra ímpar de Rui Vaz Pinto, que me pediu apresentar o livro.

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(unicepe.pt)

A 26 de Novembro, na UNICEPE, destaquei o percurso poético de José Caldas, obra que, no teatro, é uma presença plasticamente assumida, acompanhada por artistas de renome nacional e internacional; ou assumida pelo próprio autor e encenador.

Na apresentação do livro, falei da minha relação com o Brasil, por essa “nação irmã ao Norte do Chile”, que admirávamos como, “o melhor país do Mundo…” e que, de repente, com a ditadura militar, se transformou violentamente no pior país do Mundo…

Recordei João Goulart, que foi recebido no Chile (em 1963) por mais de meio milhão de pessoas, ou seja, um quarto da população de Santiago. Aludi ainda à minha formação numa escola pública da minha cidade chamada Escola n.º 2/República do Brasil e aos muitos brasileiros que passaram pelo Chile deixando memórias e cultura.

Roberto Merino e o autor José Caldas. (Créditos fotográficos: Rui Vaz Pinto – Unicepe)

Regressando aos livros, considero que eles nos ajudam, nos acompanham, nos retiram a solidão, nos seguem e também servem para guardar flores entre as páginas, romanticamente depositadas por jovens apaixonados.

Escola República do Brasil, na cidade de Santiago, Região
Metropolitana, no Chile. (commons.wikimedia.org)

Revi, no fim de 2025, o filme “O Leitor”, que fala de livros e de analfabetismo. Um jovem lê livros para uma mulher mais adulta. A sua relação, além de carnal e de desejo, está cimentada na leitura: ela quer ouvi-lo ler e o jovem lê para ela. Mais tarde, essa mulher seria acusada de ter sido vigilante num campo de concentração. Ao ser julgada no final da Segunda Guerra Mundial e condenada por ordenar castigos e regras discriminatórias – regras que, mais tarde, saberemos que nunca poderiam ser ditadas por ela, pois não sabe escrever nem ler – no momento do julgamento, não assuma a sua condição de iletrada. Antes de ser libertada, após 20 anos de presídio, na véspera, suicida-se, alcançando uma mortal ajuda, subindo para um monte de livros. Assim, apoiada nas obras que aprendeu a ler no cárcere, a mulher enforca-se. De facto, ao relembrar-me desta cena final, penso que os livros também podem ser mortais.

Cena do filme “O Leitor” (de 2008) , dirigido por Stephen Daldry. (cronicadecinema.com.br)

No fim do filme, ainda é citado esse autor humanamente indescritível Anton Tchekhov, no seu breve relato ou conto “A Dama do Cachorrinho”, texto que nos atravessa a alma, a mim e a todos aqueles que alguma vez o leram:
“Comentava-se que na avenida à beira-mar tinha surgido uma cara nova: uma dama com um cachorrinho. Dmítri Dmítritch Gúrov, que estava em Ialta havia duas semanas. […]Sentado no pavilhão do Vernais, viu passar pela calçada da praia uma jovem senhora, loura, baixa, de boina; atrás dela corria um lulu da Pomerânia branco.”

Monumento a Anton Pavlovich Tchekhov e à Dama do Cachorrinho na margem do Ialta. (pt.wikipedia.org)

Para concluir, noto que, no dia 18 de Janeiro, Portugal teve um presente na primeira volta. É pena que o primeiro-ministro, Luís Montenegro, esteja no meio da ponte, equidistante entre a democracia e o radicalismo da extrema-direita!

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29/01/2026

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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