A tempestade que varreu o Centro do País
Passagem da depressão Kristin causa mortes e milhares de ocorrências em Portugal. (Créditos de imagem: IPMA – sintranoticias.pt)
O que explica a depressão Kristin, segundo o climatólogo Nuno Ganho

Um fenómeno extremo explicado pela climatologia
O episódio meteorológico extremo que, recentemente, atingiu várias regiões do território continental português, em especial o Centro do País, não foi um fenómeno inédito. Apesar de ter assumido contornos particularmente intensos e destrutivos, a sua explicação científica encontra-se bem identificada pela Climatologia. Segundo o climatólogo Nuno Ganho, professor da Universidade de Coimbra, tratou-se de uma depressão em ciclogénese explosiva, associada a um fenómeno específico designado por “sting jet”.

Geografia e Turismo –Secção de Geografia Física da Faculdade
de Letras da Universidade de Coimbra. (cegot.pt)
De acordo com Nuno Ganho, este foi um fenómeno relativamente raro nesta latitude e na sua intensidade, mas perfeitamente conhecido e descrito pela ciência meteorológica. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), em linha com esta leitura, publicou informação técnica classificando a depressão, a que atribuiu o nome Kristin, como uma depressão secundária que evoluiu de forma muito rápida e agressiva.
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A origem atlântica da depressão
Considerando a explicação avançada por Nuno Ganho, a situação teve origem no Atlântico Norte, no contexto da chamada frente polar, uma vasta zona de contacto entre massas de ar frio de origem polar e massas de ar mais quentes de latitudes médias. É neste ambiente que se formam regularmente grandes depressões atmosféricas e onde, ocasionalmente, se desenvolvem depressões secundárias de menor dimensão na periferia dos sistemas principais.

Como afirma o climatólogo, foi precisamente esse o processo observado: uma pequena depressão formou-se a sul, à latitude da Península Ibérica, na região dos Açores, deslocando-se rapidamente em direcção ao continente europeu. Ao longo desse trajecto, a depressão aprofundou-se de forma muito acentuada, registando uma queda de pressão atmosférica superior a 24 hectopascais, em apenas 24 horas. Ultrapassado esse limiar, explica Nuno Ganho, a meteorologia designa o processo por ciclogénese explosiva.
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Intensificação súbita e vento extremo
Declara o climatólogo que este tipo de evolução rápida se traduz numa intensificação súbita do sistema, com efeitos directos ao nível do vento, da precipitação e da instabilidade atmosférica. Embora a depressão Kristin apresentasse dimensões relativamente reduzidas, gerou um campo de vento extremamente intenso.

O climatólogo sublinha que esse vento não se distribui de forma homogénea em torno da depressão. Pelo contrário, concentra-se em zonas muito específicas da sua estrutura, o que explica por que razão os estragos se fizeram sentir de forma desigual no território.
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O fenómeno do “sting jet”
Um dos elementos mais relevantes deste episódio, como confirma Nuno Ganho, foi a presença de um “sting jet” ou “jacto ferrão”. Este fenómeno ocorre na dianteira da frente fria associada à depressão e manifesta-se nos níveis mais baixos da troposfera. Nas imagens de satélite, explica o climatólogo, o “sting jet” é identificável pelo desenho das nuvens, que lembra a forma de um ferrão.

ganhar forma, observando-se o seu centro na zona do X.
(facebook.com/meteomira)
Trata-se, de acordo com Nuno Ganho, de uma corrente de vento muito intensa, estreita e linear, que pode atingir velocidades superiores a 150 ou mesmo 200 quilómetros por hora. A sua influência territorial é limitada, mas extremamente violenta, o que explica os danos concentrados em faixas relativamente estreitas. Em Portugal, acrescenta o especialista, o “sting jet” associado à depressão Kristin afectou, sobretudo, a região compreendida entre Coimbra e Leiria, estendendo-se depois, com menor intensidade, em direcção a Lisboa e ao Sul do País.
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Episódios comparáveis noutras regiões
Para Nuno Ganho, fenómenos deste tipo são característicos das regiões influenciadas pela frente polar, abrangendo parte da Europa nas zonas de médias e médias-altas latitudes. Em anos de maior instabilidade atmosférica, refere, é mais frequente a formação de depressões intensas e, ocasionalmente, de depressões secundárias particularmente activas.

O climatólogo recorda episódios semelhantes ocorridos noutras partes da Europa, nomeadamente uma depressão com características muito próximas que, há mais de uma década, evoluiu rapidamente em direcção à Alemanha, causando danos significativos. Em Portugal, existem também antecedentes. Há cerca de 10 a 15 anos, um fenómeno idêntico provocou rajadas de vento estimadas em cerca de 220 quilómetros por hora na região Oeste, resultando em quedas massivas de árvores, extensos estragos e cortes de energia prolongados.
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Alterações climáticas: o que se sabe e o que ainda se estuda
A ligação entre fenómenos desta natureza e as alterações climáticas deve, na opinião de Nuno Ganho, ser analisada com prudência. Não é cientificamente correcto atribuir um episódio isolado às alterações climáticas. No entanto, os cenários de aquecimento global apontam para uma intensificação dos fenómenos extremos.

Um dos factores actualmente em estudo é a chamada amplificação árctica. No entender do climatólogo, o facto de o Árctico estar a aquecer mais rapidamente do que outras regiões do planeta reduz o contraste térmico entre altas e médias latitudes. Essa alteração influencia o comportamento das correntes de jacto em altitude, tornando-as mais onduladas, o que favorece a convergência de massas de ar muito distintas e potencia a formação de depressões mais cavadas, por vezes com ciclogénese explosiva e “sting jets” associados.
Embora estas relações ainda se encontrem em investigação, Nuno Ganho salienta que os modelos climáticos apontam, de forma consistente, para o aumento da severidade dos eventos extremos, incluindo tempestades, ondas de calor, secas prolongadas e episódios de frio intenso.
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Preparação do território e resposta da sociedade
Como pensa o climatólogo, nenhum país está verdadeiramente preparado para fenómenos meteorológicos desta magnitude. Mesmo sociedades tecnologicamente avançadas continuam a registar perdas humanas e materiais significativas quando confrontadas com eventos extremos.

Nuno Ganho compara esta realidade à dos sismos, frisando que existe sempre um grau de imprevisibilidade que limita a eficácia da resposta. Ainda assim, este académico da Universidade de Coimbra defende que é possível melhorar a organização, a coordenação e a sensibilização dos sistemas de protecção civil, de forma a reduzir riscos e impactos.
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Um aviso num contexto de aquecimento global

Na leitura de Nuno Ganho, a depressão Kristin deixou não apenas um rasto de destruição, mas também um aviso claro. Fenómenos atmosféricos intensos fazem parte da dinâmica natural do planeta, mas, num contexto de aquecimento global, tendem a tornar-se mais frequentes e mais severos. As alterações climáticas não criam estes eventos de forma directa, mas amplificam os seus efeitos, aumentando a exposição e a vulnerabilidade das sociedades. Para o climatólogo, compreender estes mecanismos é essencial, mas insuficiente: o verdadeiro desafio reside na mitigação das causas do aquecimento global e na adaptação das comunidades a um clima em rápida transformação.
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29/01/2026