ONU em risco de colapso financeiro

 ONU em risco de colapso financeiro

Uma vista da entrada da sede da Organização das Nações Unidas, com o edifício da secretariado ao fundo. (Créditos fotográficos: Loey Felipe / ONU – news.un.org)

António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), alerta para o risco de “colapso financeiro” desta organização mundial. O alerta surge depois de a administração norte-americana, liderada Donald Trump, ter reduzido o financiamento de algumas agências da ONU e de ter rejeitado ou atrasado algumas contribuições obrigatórias.

A Assembleia Geral das Nações Unidas e o seu Quinto Comité em reunião, a 30 de dezembro de 2025, para finalizar as negociações e para votar no orçamento regular das Nações Unidas para 2026. (news.un.org)

Já muitos analistas consideram que a ONU praticamente não funciona, no atinente à promoção da paz, à prevenção dos conflitos armados ou à cessação dos mesmos. Todavia, as instituições que a organização criou e mantém, têm desempenhado, no geral, a missão para que foram concebidas, há uns meses, com dificuldades acrescidas, quer por falta ou por insuficiência de verbas, quer por óbices criados ao seu regular funcionamento. É, por exemplo, o caso da ajuda humanitária, que tem dificuldade em chegar aos locais onde há populações fustigadas por conflitos armados ou por catástrofes naturais (as autoridades impedem ou dificultam a entrada ou desviam-na para outros fins), ou os negacionismos no atinente às vacinas, no quadro das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), ou no atinente às alterações climáticas.

Segundo António Guterres, a ONU enfrenta problemas orçamentais crónicos, porque alguns estados-membros não pagam, na totalidade, as suas contribuições obrigatórias, enquanto outros não pagam a tempo, o que obriga a congelar as contratações e a fazer cortes.

Crianças no Haiti comem uma refeição fornecida no âmbito do programa de alimentação escolar do PAM. (© PAM/Jonathan Dumont – unric.org)

Por conseguinte, o secretário-geral da ONU, alertando para o risco de falência da organização e para o facto de poder ficar sem dinheiro até julho, apelou aos países para que paguem as suas contribuições. “Ou todos os estados-membros honram as suas obrigações de pagar, na íntegra e a tempo, ou os estados-membros devem rever, fundamentalmente, as nossas regras financeiras, para evitar um colapso financeiro iminente”, escreveu António Guterres, numa carta.

O presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, que reduziu, nos últimos meses, o financiamento a algumas agências da ONU e rejeitou ou atrasou algumas contribuições obrigatórias, tem questionado a relevância e as prioridades da ONU.

Secretário-geral da ONU, António Guterres. (Créditos fotográficos: Eskinder Debebe / UN Photo – news.un.org)

Por outro lado, as tensões entre os EUA, a Rússia e a China – membros permanentes com poder de veto no Conselho de Segurança, o mais alto órgão de decisão da organização – deixaram o Conselho de Segurança paralisado. Além disso, no mês de janeiro, o inquilino da Casa Branca lançou o seu “Conselho da Paz”, que era suposto supervisionar o governo da transição na Faixa de Gaza, após o acordo entre Israel e o Hamas, com vista a uma certa normalidade no território, mas que pretende, segundo os críticos, rivalizar com a ONU.

(instagram.com/jornaldebarretos)

Efetivamente, cada membro do Conselho de Paz tem de disponibilizar cerca de 860 milhões de dólares, não se sabe para que efeito, mas supõe-se que será para o investimento necessário, em conformidade com as missões que vier a definir, sob a batuta de Donald Trump.

Parece que, na perspetiva trumpiana, a área de influência do Conselho da Paz estender-se-á a todas as zonas do planeta, ou seja, a Estratégia da Segurança Nacional não se limita às Américas.

Embora mais de 150 estados-membros tenham pagado as suas dívidas, a ONU encerrou 2025 com 1,6 biliões de dólares em contribuições não pagas – mais do que o dobro do valor de 2024.

“A trajetória atual é insustentável. Deixa a organização exposta a um risco financeiro estrutural”, observou o secretário-geral da ONU.

Ao mesmo tempo, como disse Farhan Haq, um dos porta-vozes de António Guterres, durante uma conferência de imprensa, a ONU enfrenta um problema relacionado: tem de reembolsar os estados-membros pelos fundos não gastos. E o secretário-geral sublinhou o problema, escrevendo na carta: “Estamos presos num ciclo kafkiano, onde se espera que devolvamos dinheiro que não existe.”

Farhan Haq, um dos porta-vozes do secretário-geral da ONU, António Guterres. (Créditos fotográficos: Loey Felipe / ONU – news.un.org)

“A realidade prática é gritante: a menos que as cobranças melhorem drasticamente, não podemos executar, integralmente, o orçamento do programa de 2026 aprovado em dezembro”, escreveu António Guterres, advertindo: “Pior ainda, com base nas tendências históricas, o dinheiro do orçamento regular pode acabar em julho.”

Guterres, que deixará o cargo no final de 2026, fez, em janeiro, o seu último discurso anual, tendo definido as prioridades para o próximo ano e disse que o Mundo estava dilacerado por “divisões geopolíticas autodestrutivas e [por] violações descaradas do direito internacional”.

O secretário-geral da ONU – no que é acompanhado pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen – criticou os “cortes generalizados no desenvolvimento e na ajuda humanitária”, numa referência aos cortes profundos nos orçamentos das agências da ONU, efetuados pelos EUA, no âmbito das políticas “America First” da administração Trump.

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De acordo com a ONU News, a Assembleia Geral da ONU aprovou um orçamento regular de 3,45 mil milhões de dólares para as Nações Unidas, em 2026, após semanas de negociações intensas e uma das mais importantes iniciativas de reforma da organização, a UN80.

O orçamento, aprovado, a 30 de dezembro de 2025, pela Assembleia Geral, composta por 193 estados-membros, autoriza 3,45 mil milhões de dólares para 2026, cobrindo os três pilares centrais do trabalho da organização: paz e segurança, desenvolvimento sustentável e direitos humanos. E, embora o orçamento aprovado seja cerca de 200 milhões de dólares superior à proposta do secretário-geral, elaborada no âmbito da iniciativa de reforma UN80, é aproximadamente 7% inferior ao orçamento aprovado para 2025, como estava previsto.

O orçamento regular financia as atividades centrais da ONU, incluindo assuntos políticos, justiça e direito internacional, cooperação regional para o desenvolvimento, direitos humanos, assuntos humanitários e informação pública. E é distinto do orçamento das operações de manutenção da paz, que funciona num ciclo fiscal de 1 de julho de um ano a 30 de junho do ano seguinte, ao passo que o orçamento regular segue o ano civil.

Chandramouli Ramanathan, controlador, secretário-geral
adjunto para Planejamento de Programas, Finanças e
Orçamento da ONU. (un.org)

O controlador da ONU, Chandramouli Ramanathan, dirigindo-se aos delegados, no final das negociações da Quinta Comissão, o principal órgão administrativo e orçamental da Assembleia Geral, elogiou a Comissão por ter conduzido um processo complexo e acelerado até uma conclusão atempada. “Foi um ano de desafios”, afirmou, frisando que o secretariado teve de preparar um orçamento completo, em menos de seis semanas, produzindo centenas de tabelas e respondendo a milhares de perguntas dos órgãos de supervisão e dos estados-membros. Por outro lado, sublinhou que, apesar de negociações, muitas vezes, exigentes, a Comissão voltou a alcançar um acordo por consenso, uma marca distintiva do processo orçamental. “É algo notável que não deve ser subestimado”, disse o controlador aos delegados.

Chandramouli Ramanathan alertou que a adoção do orçamento marca o início e não o fim de uma fase exigente de implementação. Como explicitou, a partir de 1 de janeiro de 2026, serão abolidos 2900 postos de trabalho e já foram concluídas mais de mil separações de pessoal, exigindo uma gestão cuidadosa, para garantir que os trabalhadores afetados continuem a receber salários e benefícios, durante o período de transição.

Chandramouli Ramanathan saudou ainda o nível recorde de potenciais pagamentos antecipados por parte dos estados-membros para o orçamento de 2026 e apelou à continuação do pagamento atempado das contribuições.

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Guy Ryder, subsecretário-geral de Políticas e Presidente da
Task Force da ONU80. (Créditos fotográficos: Manuel Elías /
ONU – unric.org)

A Iniciativa UN80, lançada pelo secretário-geral da ONU, em março de 2025, para assinalar o 80.º aniversário das Nações Unidas, é um plano de reforma abrangente, apoiado pela Assembleia Geral, através da Resolução 79/318. O objetivo é tornar a ONU mais ágil, integrada e eficiente, face a desafios globais, como conflitos, alterações climáticas e recursos limitados, simplificando procedimentos e revendo mandatos. Ou seja, visa tornar a organização mais responsável e preparada para o futuro. Com o plano de ação, a UN80 foca-se na transformação da forma como a organização trabalha, garantindo maior impacto no terreno. 

Os principais focos da Iniciativa UN80 são:

  • melhoria da eficiência interna, reduzindo a burocracia e otimizando os processos internos;
  • revisão de mandatos, avaliando a implementação dos mandatos, para assegurar que são relevantes e eficazes;
  • mudanças estruturais, através do exame do realinhamento de programas, para aumentar a sua agilidade;
  • gestão de recursos, pela adaptação a restrições orçamentais, garantindo que a organização responda melhor às necessidades globais; e
  • UN 2.0, ou seja, atualizar a ONU para o século XXI, reforçando capacidades em dados e em tecnologia digital. 

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A ONU, cuja missão é enfrentar várias questões globais urgentes, desde crises humanitárias até operações de manutenção da paz e à crise climática, tem o seu orçamento aprovado, anualmente, pela Assembleia Geral.

As Nações Unidas trabalham para prevenir conflitos, apoiar os processos de paz e proteger os civis, mantendo o seu mandato principal de manutenção da paz e da segurança internacionais. (Créditos fotográficos: UNFICYP / Katarina Zahorska – unric.org)

Além do secretariado, o Sistema das Nações Unidas é composto por agências, fundos, programas e missões de paz, que tratam de diversas questões e que são financiados em separado.

De acordo com o vice-porta-voz das Nações Unidas, Farhan Haq, segundo o qual “o custo das operações das Nações Unidas representa cerca de 10% do valor do mercado global de batatas fritas”, se dividíssemos as despesas do funcionamento da ONU pelos oito biliões de pessoas do Mundo, caberia a cada pessoa, por ano, um custo de 40 cêntimos do dólar; e, se somássemos todas as despesas da ONU (o orçamento regular e as forças de manutenção da paz”, o custo anual médio para cada pessoa, no Mundo, seria de cerca de 1,25 dólares. E Farhan Haq lembra que são gastos triliões de dólares nas máquinas de guerra do Mundo, enquanto os soldados de paz da ONU, por mais numerosos que sejam, representam só 0,3% dos gastos militares mundiais.

Vacinação apoiada pela UNICEF numa aldeia remota do estado de Shan, Myanmar. (Créditos fotográficos: UNICEF/Minzayar Oo. – unric.org)

O valor das contribuições dos estados-membros para o orçamento da ONU é baseado numa fórmula complexa, que inclui o tamanho da economia de cada país, entre outros elementos. As contribuições variam de 22% do orçamento, pagos pelos EUA, a 0,001% desembolsado pelos países menos desenvolvidos. Se o montante da dívida de um país for igual ao valor devido nos dois anos anteriores, perde o direito de voto na Assembleia Geral da ONU. Todavia pode recuperar o poder de voto, se o órgão tomar uma decisão especial ou se o estado-membro pagar o suficiente para ficar com uma dívida menor. 

Farhan Haq explica que, em termos reais, o orçamento não aumenta, todos os anos, mas há momentos em que a ONU corta despesas, para manter um crescimento real zero.

A ONU conta com auditores internos e externos, como o Escritório de Serviços de Supervisão Interna, para investigar denúncias de fraudes internas ou corrupção. A principal supervisão, no entanto, é feita pelos estados-membros da ONU, que aprovam o orçamento anual e garantem que as despesas do órgão estejam alinhadas com seus objetivos.

Vista do edifício da sede da ONU a partir da Ilha Roosevelt, em Nova Iorque, nos EUA. (Créditos fotográficos: ONU News / Anton Uspensky – unric.org)

O vice-porta-voz da ONU, enfatizando que as Nações Unidas procuram utilizar todo o seu dinheiro de maneiras verificáveis, lembra que as operações de manutenção da paz são supervisionadas, para garantir que todos os países que contribuem com tropas e equipamentos sejam reembolsados pelo trabalho que realizam. Além disso, afirma que, ao enviar ajuda humanitária para os países, são implementados mecanismos de verificação, para assegurar que toda a ajuda chegue ao local necessário e não seja desviada.

No campo humanitário, a ONU fez um pedido adicional de 3,77 biliões, em 2021 para ajudar 174 milhões de pessoas, em 60 países, mas recebeu menos da metade desse valor. Segundo Farhan Haq, alguns apelos receberam apenas entre 20% e 30% das despesas. Na verdade, crises que recebem mais atenção mundial costumam ter níveis de investimentos mais altos. Outras, não tão visíveis nas notícias, recebem muito menos.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, informa os meios de comunicação social sobre a Iniciativa ONU80. (Créditos fotográficos: ONU / Manuel Elías – unric.org)

O auxílio humanitário, que abrange alimentação, água potável, abrigo e outros itens essenciais, é visto como um investimento nas pessoas e como um meio de construir um Mundo melhor. Para Farhan Haq, é necessário criar formas para que pessoas possam cuidar de si mesmas. “E é isso que tentamos fazer com o dinheiro que gastamos; quando se investe um dólar na educação de uma menina, está-se a investir em alguém que pode criar um futuro melhor para si mesma e para sua comunidade”, conclui.

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A 16 de janeiro, o secretário-geral da ONU criticou, duramente, líderes mundiais que procuram “condenar à morte a cooperação internacional”, numa altura de violações flagrantes do direito internacional, mas evitou apontar países em concreto. No entanto, reiterou estar “profundamente preocupado com a repressão violenta no Irão”, antes de uma reunião de emergência do Conselho de Segurança sobre a crise.

(Créditos fotográficos, da esquerda para a direita: © OMS/Daniel Hodgson, Foto da ONU/Marco Dormino, UNICEF/Aliaga Ticona, PMA/Arete/Fredrik Lerneryd, Foto da ONU/Martine Perret)

António Guterres proferia o último discurso anual de definição de prioridades para o ano seguinte, afirmando que o Mundo está marcado por “divisões geopolíticas autodestrutivas e [por] violações flagrantes do direito internacional” e denunciando “cortes generalizados na ajuda ao desenvolvimento e humanitária”, numa alusão aos cortes profundos nos orçamentos das agências da ONU determinados pelos EUA, ao abrigo da política “America First”. “Estas forças e outras estão a abalar os alicerces da cooperação global e a pôr à prova a resiliência do próprio multilateralismo. Numa altura em que mais precisamos da cooperação internacional, parecemos menos dispostos a usá-la e a investir nela. Alguns procuram condenar à morte a cooperação internacional”, disse António Guterres à Assembleia Geral.

(un.org/es/UN80)

O secretário-geral disse que a ONU está “totalmente empenhada na causa da paz em Gaza, na Ucrânia, no Sudão e muito para lá desses casos, e incansável na entrega de ajuda que salva vidas a quem desespera por apoio”. São três conflitos mortíferos e prolongados que ensombram o mandato de António Guterres à frente da ONU, com críticos a sustentarem que a organização se revelou ineficaz na prevenção de conflitos. “Hoje, enquanto nos reunimos, as armadilhas do conflito prenderam milhões de membros da família humana em ciclos miseráveis e prolongados de violência, fome e deslocação”, observou o líder da ONU.

Por fim, António Guterres instou à ação contra o uso abusivo da inteligência artificial (IA), pedindo esforços de combate à desigualdade, também a que a IA trará.

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Gerir as relações entre 193 países é tarefa ingente. Não se esperava de Guterres um milagre, mas não era expectável tão atribulado mandato, com os conflitos a pulularem ou a recrudescerem por quase toda a parte. É assim, quando as ambições dos grandes são ilimitadas e a força se arma em lei.  

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02/02/2026

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Louro Carvalho

É natural de Pendilhe, no concelho de Vila Nova de Paiva, e vive em Santa Maria da Feira. Estudou no Seminário de Resende, no Seminário Maior de Lamego e na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi pároco, durante mais de 21 anos, em várias freguesias do concelho de Sernancelhe e foi professor de Português em diversas escolas, tendo terminado a carreira docente na Escola Secundária de Santa Maria da Feira.

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