Provavelmente estou velho

 Provavelmente estou velho

(Créditos de imagem: Dariusz Sankowski – Pixabay)

Provavelmente, estou velho. Não consigo, nem com os óculos, ler grande parte das letras em bulas e em instruções. Não consigo entender a lógica de alguns anúncios muito “giros”, mas de que não se retém a marca anunciada. Não acompanho o emaranhado de vários comentários políticos ou desportivos para defender o clube ou o partido de simpatia.

(Fonte: Nadja Drabon – tecmundo.com.br)

Espanto-me com os especialistas em tudo e com soluções imediatas (se calhar, mesmo que caísse um meteorito de 100×100 quilómetros, saberiam as medidas a adoptar). Não percebo por que é que, mesmo para dizer banalidades, repetem persistentemente as afirmações de André Ventura e de José Mourinho.

Não alcanço por que o vocabulário do primeiro-mistro é de banda tão curta. Não sei onde ficam os resultados de apuramento de responsabilidades (por exemplo, do elevador da Glória), para, logo a seguir, vir outro assunto com mais uma, duas ou dez novas comissões de inquérito.

(nau.edu.pt)

Não atinjo a piada da maioria das publicações do TikTok. Não consigo encontrar um filme de jeito nos cinemas. Não acompanho a “involução” da Língua Portuguesa para a proposição “a” aparecer na vez de casos em que seria “com” ou “para”. Também não percebo como uma frase pode começar no infinitivo sem sujeito (“dizer que”). Não faço ideia de onde se constrói etimologicamente “prequela”.

Arrepia-me a boçalidade e a violência da praxe académica. Aflige-me a “telemoveldependência”, até na rua. Estou decididamente velho. Graças a Deus! Que seria de mim, ao estar no futuro de tudo o que ainda está para vir?

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16/02/2026

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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