O silêncio como matéria teatral
FITEI 2014 (jpn.up.pt)

Foi na edição do FITEI 2014 e perante as muitas ameaças da continuação (pela falta de apoios) do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI) que, com os meus alunos – em conjunto, os do Balleteatro e da Escola Superior Artística do Porto (ESAP) –, organizámos uma performance no átrio (ou foyer) do Teatro Municipal do Porto – pólo do Rivoli. O referido acto performativo apenas consistia em fazer barulho com apitos e numa entrega personalizada aos espectadores do texto que anexo, no final deste artigo. Faltou, nesse texto, incluir a poética presença do silêncio no autor russo Anton Tchekhov, que, na sua peça “A Gaivota”, corporiza esse silêncio com a descida ou a passagem de um anjo!
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O silêncio enquanto matéria do teatro

Muito cedo, o silêncio entra no espectáculo como matéria teatral. Matéria que se confunde nas suas diferentes expressões, na sua própria forma poética e na sua linguagem.
Em Ésquilo, na sua tragédia “Prometeu Agrilhoado”, a personagem “[…] insiste que o seu silêncio não é mais sinal de uma sobranceria que alguns julgam perceber na sua confrontação com os deuses”. “Ele tão-só uma marca de sofrimento, legitimo na vítima de ingratidão dos imortais de geração recente, que são também devedores do seu talento”, como anota Maria de Fátima Sousa e Silva, no seu ensaio “Ésquilo – O primeiro dramaturgo europeu”.
Silêncio famoso e denso é o de Cassandra ante Clitemnestra – aqui, coincidem Albin Lesky e Maria de Fátima Sousa e Silva – “[…] espectacularmente ela entrou no carro com Agamémnon no carro do vencedor, como uma imagem sem voz, mas coberta de enigma” (Agamémnon 783).

segurando seu ceptro, datada do século V a.C.
(en.wikipedia.org)
E se William Shakespeare nos devolve o silêncio como umbral final da sua obra mais intensa nas palavras do protagonista a Horácio – “O resto… é.… silêncio…” (Hamlet: Cena II, Acto V) –, será com Samuel Beckett, nos nossos dias, que esta matéria volta com força demolidora numa das suas obras mais importantes: “À Espera de Godot”.
A este propósito, Maria Margarida Costa Pinto, da Universidade Fernando Pessoa (no Porto), escreve, no âmbito do seu trabalho ensaístico “O silêncio em Samuel Beckett”: “Distribuídos ao longo de toda a peça, os silêncios formam um sub-texto paralelo ao texto das palavras. A presença desses silêncios não indicia uma intenção autorial de manipular um texto inteligível de modo a torná-lo impenetrável. Pelo contrário, a desordem da inesperada tranquilidade provocada pelas pausas estabelece uma linguagem de misteriosa compreensão, um código transcendente que une através de um saber universal.”

Mas há um outro silencio… Aquele que nos querem impor e contra o qual o teatro, historicamente, sempre lutou. Um silencio estrategicamente circunstancial e que, contrário aos sentidos, objectiva o interdito!
Foi editado, no ano passado, o livro“A História do Silêncio”, de Alain Corbin. Informam os editores: “Numa época em que o ruído invade todos os espaços, o autor recorda a história desta época em que a fala era rara e preciosa. Condição de contemplação, devaneio e oração, o silêncio é o lugar íntimo de onde emergem as palavras. Os monges criaram mil técnicas para o exaltar, até mesmo os cartuxos que vivem sem falar. Os filósofos e os romancistas disseram que a natureza e o mundo não são uma distra[c]ção vã. No entanto, ocorreu uma ru[p]tura por volta da década de 1950, e o silêncio perdeu o seu valor educativo.”
Não tive a oportunidade de comprar o livro na altura, mas, sim, no início deste ano, na remodelada Livraria Latina, hoje Bertrand, afortunadamente!

Na tarde do primeiro dia das eleições presidenciais, fui ao encontro do silêncio, assistindo à emotiva aula magistral de Mário Azevedo, músico, professor, gestor, referência da música e da educação na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo (ESMAE). Mário Azevedo jubila-se, mas parte com a consciência de ter contribuído para a formação de um grande número de músicos e de professores.

O Mário Azevedo é mais do que um amigo, é essa família que o exílio me deu e quem me compensa os meus 50 anos de afastamento dos meus! Além da música, o Mário ofereceu-nos dois actos performativos: a música que se pode arrancar da porcelana e/ou aquela que se pode respirar na manipulação exterior de um contrabaixo… Durante esse momento, questionei-me: será que o contrabaixo tem alma como os violinos?
A aula do Mário Azevedo teve como título “O silêncio em acto à exatidão do pensamento vivo / Conferência-performance intimista em torno da força do silêncio e da vida do pensar”.

De forma emotiva e singular cita Pascal Quignard, autor da obra “La Leçon de Musique”: “Hoje, fiz demasiada música. Vou lavar os ouvidos no silêncio.”
A noite de 8 de Fevereiro foi uma noite gloriosa. A Democracia venceu o extremismo. Curiosamente, antes das eleições, eu tinha lido sobre um inquérito na imprensa nacional que traduzia a vontade de os Portugueses não quererem André Ventura nem em São Bento nem em Belém… Ficou também demonstrado acerca do que querem aqueles que vociferam, ruidosamente, na Assembleia da República, junto dos seus “educados e democratas” companheiros de bancada!
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Nota do Director:
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19/02/2026