Ensaios sobre o direito de comentar e o risco de (nos) silenciar(mos) (2)
Rio Mondego deixou Baixa de Coimbra em sobressalto. (© VJS – sinalAberto)
Depois da tempestade vem a bonança e o esquecimento…
Tal como os personagens do conto “A Terceira Margem do Rio”, de João Guimarães, também eu me fiz gente numa orla que nunca foi apenas margem de um rio. Nascida na margem esquerda do rio Mondego, em pleno coração do Baixo Mondego, cresci a ouvir o ressoar das águas caídas de um céu negrume e o estontear das cheias. Passei a vida a ver campos, estradas e caminhos a transformar-se em espelhos de água, casas, máquinas agrícolas, etc., a submergirem e a sentir o inquietante silêncio que se instalava depois de a água recuar. Sou filha de uma terra onde a água foi e é presença e memória indeléveis.
Por isso, quando hoje as imagens que nos chegam a retratar aldeias cercadas, casas inundadas, estradas cortadas, barreiras que rebentam ou agricultores a salvar o que podem, não observo nada de novo, apenas vejo repetição. Reproduzem-se momentos e histórias, como se o tempo dançasse entre o passado e o presente.

Para os jovens repórteres sem memória – nem tempo para olhar para a História – para e a maioria dos restantes jornalistas perdidos em paisagens que desconhecem, que nunca calcorrearam, bem como para os editores que não sabem nem ousam procurar saber onde nascem e os percursos que desbravam os rios Mondego, Ceira, Alva, Arunca ou Anços, muito menos a Ribeira de Alfarelos ou a de Figueiró do Campo, a tragédia é sempre nova, os fenómenos naturais são sempre excecionais. Vêm para o terreno e “descobrem” que o Mondego mudou de humor, se tornou impetuoso e, para “surpresa” de todos, as águas reclamam margens, nomeadamente as que os homens insistem em lhes impor.
Cresci a ver o Mondego a mudar de temperamento e até de leito com a implementação do Plano Geral de Aproveitamento Hidráulico do Mondego. Foi neste rio (e na saudosa Ribeira de Alfarelos) que aprendi a nadar e a perder o medo da água. Nele, as mulheres da minha aldeia cumpriam os rituais do “dia da barrela” – lavagem da roupa –, enquanto os homens improvisavam canas de pesca e as crianças capturavam peixes nas tocas, entre as sombras dos salgueiros, freixos e amieiros.

Por estas terras, sempre o Mondego reclamou margens naturais e as que os homens insistem em lhe impor. A água sempre ditou o ritmo da vida e não há inverno que não me traga de volta as lembranças da incerteza que eram os dias e as noites, quando a chuva teimava em cair e os caminhos submergiam. Aprendi, aprendemos todos, que com a Natureza não se negoceia. Ela é rainha, a senhora que nos tolera cá por uns tempos. Vimos repetidamente, ano após ano, vizinhos a sucumbir, a aldeia de Ereira a transformar-se numa ilha, Montemor-o-Velho submergido, estradas cortadas, linhas de comboio submersas, pontes e caminhos que cediam… Águas que levavam sonhos, mas que acabavam sempre por devolver esperança. Vi, de coração partido, o edifício da estação ferroviária de Granja do Ulmeiro/Alfarelos sucumbir à força das águas em 2001, quando, mais uma vez, o Mondego gritou.

Nasci e cresci a escassos metros deste icónico lugar de onde saía diariamente, a partir dos 10 anos, rumo ao futuro para estudar em Coimbra, em escolas que, igualmente ano após ano, fechavam devido à força das águas, às inundações da cidade. Depois, o rio acalmava, o Sol voltava, assim como as andorinhas e as cegonhas. O peixe abundava nos rios e nas ribeiras, os campos férteis não se faziam rogados garantindo que o arroz fosse rei e o milho pão.
Contudo, este ou qualquer outro rio nunca nos prometeu nada, mas também nunca nos enganou. Seria, além do mais, ironia afirmar que “surpreendentemente” rebentaram os diques, que foram galgadas fronteiras (naturais e/ou artificiais), que os cursos de águas “desobedeceram” aos caprichos dos homens que do rio esperam (apenas) serenidade, gentileza e riquezas naturais. A surpresa é continuar a insistir em ignorar a História que os rios e as ribeiras nunca deixaram de contar.
O Mondego é mais do que um curso de água. É parte do ADN de quem aqui nasceu, viveu, vive e aprendeu a medir o tempo entre as enchentes e as vazantes. No Baixo Mondego, a bonança não é paz, é apenas o intervalo em que nos permitimos esquecer que o rio tem memória, enquanto nós, por conveniência ou incúria, preferimos não a ter.

Durante décadas, assistimos às promessas a chegarem com a força das enxurradas. Já noutros tempos, vinham homens e mulheres de galochas lavadas e vozes autoritárias prometer “ação”, “intervenção”. Hoje, são cada vez mais e, na sua maioria, irresponsáveis travestidos de autoridade, insensatos, imprudentes e perigosamente inconscientes de megafone a debitar “slogans” vazios que nada mudam e apenas servem para encobrir a sua própria incapacidade e incompetência. Além do mais, a bonança tem um efeito secundário terrível nas esferas do poder: a amnésia. Ainda o Sol não secou a lama e as medidas “urgentes” já estão esquecidas numa qualquer gaveta de Lisboa.
Além de mais, ainda temos outros focos de tragédia. As depressões, que agora têm nome de gente, parecem assolar territórios menos habituados aos humores da Natureza. Mas, a verdade é que sempre convivemos com ciclones, furações, tornados, depressões atmosféricas, rajadas, enxurradas, cheias, ondas de frio, ondas de calor, incêndios e com toda a panóplia de fenómenos aos quais os estudiosos do clima atribuem designações humanizadas. E no rescaldo das promessas impôs-se quase sempre o oblívio ou o esquecimento total.
Esquecimento que não desejo sejam vítimas as gentes da região de Leiria e de todos quantos – pelos quatro cantos de um país que, sucessivamente, entre incêndios, cheias e ventos fortes – ouvem palavras que acolhem como sendo de esperança e ficam entregues ao seu fado.

(© VJS – sinalAberto)
Ninguém permanece numa margem de um impetuoso rio, junto à costa de imprevisíveis marés ou numa serra fustigada por desdém à Natureza. Nem, simplesmente, porque não pode partir. Há no Povo uma determinação silenciosa, uma dignidade quase sagrada. O Mondego, ou qualquer outro rio, não é só tragédia. As montanhas consumidas pelas chamas não são só calamidade. Os planaltos e as planícies sem água não são só adversidade. As zonas costeiras engolidas pelo mar não são só fatalidade. São lugares onde se aprende a resistir, a recomeçar e a carregar uma memória que não cabe nos noticiários. São territórios onde a vida pode nem sempre ser fácil, mas sempre foi inteira. E onde os cidadãos locais sabem, melhor do que ninguém, que a Natureza, por vezes parecendo hostil, não é inimiga. É parceira. É condição.
.
Nota:
Defenderei, na generalidade, até que a voz me doa os jornalistas, mas rogo-lhes que tenham a coragem para dizer “não”. Em defesa do Jornalismo e da sua própria dignidade. Que digam “não” ao ridículo de cederem a medir a subida das águas com recurso a pedras, tijolos, mesas, galochas ou mesmo chapéus de chuva. Que digam ainda “não” a diretos insanos, a manter “no ar” rostos e vozes que se expõem sem filtro pela incapacidade de não percecionarem que a sua maior tragédia é a de estarem a dar palco à (sua) fragilidade humana.

É a nós, jornalistas, enquanto mediadores das vozes públicas e intermediários das inquietações do povo (sem nunca confundirmos o nosso papel como sendo “a voz do Povo” ou pés de microfone – a diferença é substancial), que nos compete filtrar, lembrar que a palavra tem peso, que as imagens têm consequência e que o nosso trabalho não é amplificar o desespero, mas impedir que ele seja usado como entretenimento, como paródia dos tempos modernos.
.
19/02/2026