Teatro no TNSJ
Ensaio de “O Fim”. (Créditos fotográficos: José Caldeira – tnsj.pt)
Revisitação de três espectáculos
“Ao pé das grades, há uma grande roseira com rosas de toucar que nascem murchas… É a rainha mesmo que as regas. Em vão: nascem murchas abrem mortas.”
(“O Fim”, de António Patrício)
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Logo no início, a imagem da morte e de uma natureza mirrada.
Como esclarece o Teatro Nacional São João (TNSJ), no princípio da peça está o fim. O fim da monarquia e da velha sociedade do antigo regime, símbolos de um país parado no tempo. “História dramática em dois quadros”, de António Patrício, que imagina um palácio em ruínas.

Lemos na mesma nota informativa do TNSJ que o “casarão húmido” é habitado por uma rainha solitária com uma “doença incurável” e uma pequena corte de nobres, servidos por antigos criados, vestidos com roupa fora de moda: “Vivemos então os últimos dias de um povo?” Publicada em 1909, imediatamente antes da queda da monarquia, “O Fim” é uma alegoria sobre o declínio inexorável de uma era e o início ainda incerto de outra.
Encenada por Carlos Pimenta, a companhia profissional Ensemble – Sociedade de Actores, resgata a primeira obra para teatro de um dos maiores representantes do simbolismo em Portugal. Com um elenco de sólida interpretação, em que se destaca a actriz Emília Silvestre, que imprime na sua frágil figura e potente voz, paradoxalmente, a debilidade de uma rainha no centro de uma tormentosa loucura poética como a do Rei Lear, em Shakespeare.
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“Sentinelles”
Inspirado no romance “O Náufrago”, do escritor austríaco Thomas Bernhard, o encenador francês François Sivadier recria as relações de um trio de pianistas virtuosos dominado pela sombra tutelar e intimidante de Glenn Gould. Três actores, três pianistas, três músicos, discutem “as etiquetas” que, aplicadas aos grandes compositores, chegaram até nós e influenciam os nossos gostos.

Referências iniciais, logo no princípio da peça, ao pianista chileno Claudio Arrau, considerado um dos grandes intérpretes de Frédéric Chopin. Também a uma das minhas cenas favoritas do filme “Roma de Fellini” (de 1972), na qual se regista como se esvaem, se esfumam e desparecem os frescos romanos descobertos nas obras do Metro… A descoberta é mortal. Não seria melhor ter deixado aquilo guardado, selado para evitar o seu desaparecimento?

O TNSJ sublinha que este é um espectáculo “de particular longevidade (em cena em França há quatro anos), Sentinelles assume-se como uma conversa inacabada entre três artistas, que discutem, com som e fúria, os trânsitos e os curtos-circuitos da arte e da vida”. Tem texto, encenação e cenografia de Jean-François Sivadier (MC93 – Maison e la Culture de Seine-Saint-Denis à Bobigny, em França).

“Class Enemy”
“Class Enemy”, de Nigel Williams com encenação de Manuel Tur: “Nós somos o sonho concretizado de qualquer assistente social.”

Num momento da peça, ouvimos a deixa em que seis alunos, “desterrados” do sistema de educação, se julgam a si próprios como os inimigos de classe. A palavra “classe” pode aludir à classe, turma ou aula, mas também, no contexto social, classe trabalhadora, classe económica ou o grupo social ao qual as personagens pertencem.
Retirámos da respectiva nota informativa do TNSJ o seguinte: “Numa qualquer escola, seis alunos aguardam a chegada de um novo professor. Preparam-se para fazer de tudo para o aterrorizar, tal como fizeram aos anteriores. Enquanto esperam, e para passar o tempo, o líder da turma convence os colegas a le[c]cionarem, cada um deles, uma aula… ‘Class Enemy’, do britânico Nigel Williams, foi escrita no final dos anos 70, mas continua tão a[c]tual e instigante como no dia em que estreou. Num tempo em que as políticas de integração estão no centro do debate público, o encenador Manuel Tur propõe uma pertinente reflexão sobre o papel da educação na origem das assimetrias sociais, comuns a diferentes tempos e lugares.”

Neste jogo de professor- aluno, aparecem expostas as realidades familiares destes seis adolescentes: violência, pobreza e exclusão. Será uma escolha natural e inevitável o rejeitar a escola? Há uma réstia de esperança no final da peça, quando um deles espera pelo professor, que se aproxima e se dirige para a sala de aula…

Moutinho. (dgartes.gov.pt)
Finalmente, uma nota que muito nos orgulha. O actor Mário Moutinho integra o elenco de “O Fim”, que esteve em cena no TNSJ. E, ao terminar a récita do dia 12 de Fevereiro, foi homenageado no Salão Nobre, que ficou pequeno param conter a emotividade e a amizade dos presentes. Produtor e programador cultural, Mário Moutinho foi a personalidade portuguesa distinguida com o Reconhecimento à Gestão das Artes Cénicas Ibero-Americanas “Guillermo Heras”, uma iniciativa do programa IBERCENA, que visa distinguir 19 personalidades do espaço cultural ibero-americano, na sequência do Ano Ibero-Americano das Artes Cénicas (2025). Além das palavras de agradecimentos do homenageado, Pedro Sobrado, presidente do Conselho de Administração do TNSJ, e Américo Rodrigues, director-geral das Artes e representante de Portugal no programa IBERCENA, destacaram o percurso e a personalidade de Mário Moutinho.

O actor mantém uma relação de longa data e de grande proximidade com o TNSJ, tanto na qualidade de colaborador e de intérprete, como enquanto espectador assíduo. Na temporada de 2023-2024, Mário Moutinho fez parte do corpo diplomático do TNSJ e, no papel de embaixador da casa, afirmou: “Encontro no teatro – e em particular no Teatro Nacional São João – um oxigénio precioso, não poluído pelos impérios mediáticos ou pelas indústrias criativas que tentam acinzentar a existência. É por isso que aqui venho. Regularmente. Para me emocionar e refle[c]tir.” Este reconhecimento homenageia a figura de Guillermo Heras (1952-2023), actor, encenador, dramaturgo, gestor cultural e editor espanhol, considerado uma das figuras essenciais das artes cénicas ibero-americanas.
O “Fantas” já chegou!…
A 46.ª edição do Fantasporto (Festival Internacional de Cinema do Porto), que está a decorrer desde 27 de Fevereiro e até ao próximo domingo (8 de Março), continua a ser uma celebração do cinema internacional, com uma selecção de cerca de 100 filmes, incluindo 31 antestreias, de 29 países dos cinco continentes.

Seguindo a informação oficial do “Fantas 2026”, registamos que o festival, que tem sido uma referência cultural no Porto, se destaca pela sua abordagem moderna e por incluir uma retrospectiva dedicada ao cinema norueguês, organizada pelo Instituto Norueguês de Cinema.
O Fantasporto também se destaca pela sua representação de talentos emergentes e por ser um lugar de descoberta e de lançamento de novos filmes.
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05/03/2026