“Buluku”: Entre cosmologia africana, tecnologia e imaginação

 “Buluku”: Entre cosmologia africana, tecnologia e imaginação

Djam Neguin e a sua criação artística “Buluku”. (agendalx.pt)

(Direitos reservados)

“Buluku” é a mais recente criação coreográfica e multimédia de Djam Neguin (eu próprio), pensada para o público infantil e familiar, onde dança, tecnologia e cosmologias africanas se encontram para imaginar outros futuros possíveis. Inspirado na figura de Buluku – princípio criador presente nas mitologias do povo Fon –, o espetáculo acompanha um Afronauta curioso que atravessa diferentes mundos e modos de vida, explorando temas como o da imaginação, da ecologia e da coexistência. A peça combina “performance” ao vivo com “videomapping”, inteligência artificial e ambientes digitais imersivos, propondo uma experiência sensorial que aproxima ancestralidade e inovação tecnológica. “Buluku” estreia nos dias 21 e 22 de março de 2026, no Teatro do Bairro, em Lisboa, numa criação de Djam Neguin, com produção da Companhia Clara Andermatt.

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Buluku – cosmologias africanas para um futuro sustentável

Há momentos na criação em que uma palavra aparece antes mesmo de sabermos exatamente o que ela quer dizer. Não surge como conceito, mas como sensação. Foi assim que “Buluku” entrou neste projeto.

O povo Fon acreditava que, antes da Terra ser criada por Nana Buluku, o
deus criador gerou o dragão macho e fêmea Aido-Hwedo como sua
companhia. (mitographos.blogspot.com)

Primeiro, ouvi o som da palavra. Curto, redondo, quase como uma pequena vibração no ar. Uma palavra que cabe bem na boca, que pode ser repetida como um ritmo. Durante algum tempo, ela existiu assim: apenas como som, como presença.

Mais tarde, descobri que “Buluku” surge nas cosmologias do povo Fon, na região do antigo Daomé – atual Benim – como um princípio criador primordial. Uma força que dá origem ao Universo e que depois se retira, permitindo que a vida encontre o seu próprio caminho. Essa imagem ficou comigo.

Talvez porque, de certa forma, também descreve aquilo que, muitas vezes, acontece na arte. Criamos algo, lançamos uma ideia, abrimos um espaço… e, depois, precisamos de confiar que aquilo que nasceu encontrará as suas próprias formas de existir.

(agendalx.pt)

Foi a partir desse gesto inicial que começou a nascer “Buluku”, o espetáculo.

Mas este projeto nunca foi apenas sobre a origem. É também sobre a imaginação. Sobre o futuro. E sobre aquilo que decidimos fazer com o mundo que herdámos.

(agendalx.pt)

Vivemos numa época em que se fala muito de tecnologia, de inteligência artificial, de mundos virtuais, de viagens espaciais. O futuro aparece constantemente diante de nós como promessa ou como inquietação. E, no entanto, muitas das imagens que usamos para pensar esse futuro continuam a vir sempre dos mesmos lugares culturais.

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Quando pensamos em ficção científica, por exemplo, raramente pensamos em cosmologias africanas. Quando imaginamos o universo digital, raramente pensamos em outras formas de compreender a vida e o Cosmos que existem fora das narrativas dominantes. Isso sempre me intrigou.

Não porque seja necessário substituir umas referências por outras, mas porque me parece importante alargar o campo da imaginação. Permitir que diferentes histórias, memórias e cosmologias possam participar na construção das imagens do futuro. “Buluku” nasce um pouco dessa vontade.

No centro do espetáculo, existe um Afronauta – uma criança viajante que atravessa diferentes planetas e mundos possíveis. Ao longo da viagem, encontra paisagens inesperadas, formas de vida estranhas e modos distintos de organizar a existência.

(agendalx.pt)

Alguns desses mundos são harmoniosos. Outros mostram sinais de desgaste. Há planetas onde a vida floresce em equilíbrio com a Natureza e outros onde se percebe que algo se perdeu pelo caminho.

À medida que o Afronauta avança na sua viagem, vai percebendo uma coisa muito simples e muito profunda: imaginar novos mundos não é apenas um exercício de fantasia. É também uma forma de pensar como queremos viver.

E talvez seja por isso que, sem que eu tivesse planeado completamente desde o início, a dimensão ecológica começou a atravessar todo o projeto.

Palmeira, Cabo Verde. (Créditos fotográficos: Martin Widenka – Unsplash)

Porque, quando pensamos em futuro – verdadeiro futuro –, não podemos esquecer o planeta que temos agora. Imaginar outros mundos é também uma forma de nos perguntarmos: que tipo de mundo estamos a construir aqui?

No espetáculo, essa viagem acontece através do encontro entre corpo, dança, luz, projeções digitais, “videomapping” e inteligência artificial. A tecnologia ajuda a criar paisagens, atmosferas e universos visuais que ampliam o espaço da cena. Mas, para mim, a tecnologia nunca foi o centro da questão. Ela é, apenas, uma linguagem. Um instrumento que pode ser usado para abrir novas narrativas. O que realmente me interessa é o encontro entre a ancestralidadee a imaginação.

As cosmologias africanas sempre foram formas profundas de compreender o Universo. São sistemas de pensamento que falam de criação, de relação entre seres, de equilíbrio entre forças visíveis e invisíveis. Quando essas visões entram em diálogo com linguagens tecnológicas contemporâneas, acontece algo curioso: o passado e o futuro deixam de parecer tão distantes.

De certa forma, “Buluku” habita esse espaço intermédio. Um lugar onde mitologia, ficção científica, ecologia e infância podem coexistir.

Também me interessa muito pensar que este espetáculo é dirigido a crianças. Porque as crianças têm uma relação muito particular com o Mundo: ainda não aceitaram completamente as fronteiras do possível.

Nana Buluku está na extremidade do Mundo, moldando a Terra. (fabulahub.com)

Para elas, imaginar um planeta habitado por árvores falantes ou por criaturas de luz não é necessariamente estranho. É apenas mais uma hipótese. Talvez seja essa liberdade que precisamos de recuperar.

Num tempo em que tantas coisas parecem já determinadas – pela tecnologia, pela política, pelas crises ambientais –, talvez a imaginação continue a ser uma das ferramentas mais importantes que temos.

Imaginar não é fugir da realidade. Imaginar é preparar outras realidades possíveis.

Para mim, “Buluku” tornou-se exatamente isso: um pequeno laboratório de futuros. Um espaço onde crianças e adultos podem perguntar juntos: e se o Mundo pudesse ser diferente? E se o futuro pudesse nascer de muitos lugares ao mesmo tempo? E se, ao imaginar novos mundos, aprendêssemos também a cuidar melhor deste?

Talvez seja essa a verdadeira viagem do Afronauta. Não apenas atravessar o Universo. Mas voltar à Terra com um olhar diferente. E lembrar-nos de que, antes de procurar outros planetas, ainda temos muito para aprender sobre como habitar este.

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16/03/2026

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Djam Neguin

Djam Neguin (Bruno Amarante) é um artista multidisciplinar da nova geração de criativos contemporâneos cabo-verdianos, expressando-se através da dança, do teatro, do cinema e da música, cruzando várias formas de criação. Djam Neguin, enquanto actual agente da cena artística e cultural de Cabo Verde, vivencia diferentes afectos e domínios artísticos – artes cénicas e visuais –, passando por actividades de gestão e de produção cultural. Assim, tem estado envolvido, como coordenador geral e director artístico, na produção do Festival Internacional de Dança Contemporânea Kontornu e é criador e dinamizador do projecto virtual Rede de Dança da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e da Mostra de Dança da Cidade da Praia, em Cabo Verde, entre outros eventos. Coreografou importantes acontecimentos culturais da agenda cabo-verdiana, tendo sido um dos principais dinamizadores das danças urbanas na última década, organizando “battles” e o Concurso Nacional de Hip Hop (em Cabo Verde). Tem leccionado em diferentes cidades do Mundo e também realiza, com regularidade, diversos “workshops”. Foi membro fundador e bailarino do Cabo Verde Ballet. Desde 2015, cria os seus próprios espectáculos e participa em vários circuitos internacionais. Com a sua rubrica quinzenal “Pokas & Boas” no jornal sinalAberto, Djam Neguin procura reforçar os laços culturais e os afectos no espaço lusófono, através de encontros, de vivências, de relatos, de conversas e de entrevistas com “personalidades negras das Artes, Culturas e Saberes da Lusofonia”, como sublinha.

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