Nova estreia do Teatro da Rainha: as árvores sangram por nós

 Nova estreia do Teatro da Rainha: as árvores sangram por nós

(Fotografia de ensaio por Margarida Araújo – teatrodarainha.pt)

(Fotografia de Paulo Nuno Silva – teatrodarainha.pt)

Tal como aos sinos, não vale a pena perguntar às árvores por quem elas sangram: é sempre por nós, o pedaço de humanidade que, julgando-se virtuosa no seu tranquilo lugar de observação, participa nos crimes pelo silêncio, pela cumplicidade ou pela consciência de que, na ocasião propícia, também libertaria os monstros dentro de si. Entre muitas outras coisas, é disso que fala o texto “A Árvore que Sangra”, do dramaturgo australiano Angus Cerini, encenada por Fernando Mora Ramos, em cena no Centro Cultural das Caldas da Rainha (CCC) até 27 de março.

(Fotografia de ensaio por Margarida Araújo – teatrodarainha.pt)

A árvore, que não vemos na cena, mas imaginamos vividamente graças à precisão matemática das palavras ditas pelas três atrizes (Isabel Lopes, que também assina a tradução e a dramaturgia, e as irmãs Mafalda e Marta Taveira), é um poste totémico, o lugar do sacrifício e da redenção onde, finalmente, se faz justiça, mesmo se à conta da violação do quarto mandamento: não matarás. Mas, aqui, elas matam sem medo e com um prazer quase orgiástico, que se contagia ao público numa espécie de festa pagã que resgata alguma dignidade aos oprimidos.

(Fotografia de Paulo Nuno Silva – teatrodarainha.pt)

O corpo do pai abusador, um homem de uma violência extrema, que, no decorrer de anos, fez da casa o campo de concentração e da família o espaço da aniquilação do corpo e da alma das mulheres à sua guarda, fica exposto, durante dias, ao calor do deserto australiano, comido por vagas sucessivas de animais, até desaparecer a carne e só restar uma espécie de adubo humano com o qual a mãe irá plantar um roseiral, extinguindo-se assim a memória daquela maldita sujeição. “Descansa em paz papá cabeça de burro” é o epitáfio da sua tumba vegetal, a oração que resta para desmemoriar um tirano.

(teatrodarainha.pt)

O fundo mítico que vem do texto autoriza as atrizes a mergulharem na pasta de sangue e morte, que jaz no fundo da existência humana, e a encenação dão-lhes essa licença para matar, fazendo-as comungar da essência das heroínas gregas que também se vingaram por despeito, por ciúme ou por sentido de justiça. Ao mesmo tempo, é difícil imaginar a Grécia nesta paisagem desoladora, onde as pessoas vivem perdidas e vão definhando na solidão árida das suas vidas. O crime é cometido à vista de todos, sem argúcia, desde o tiro ouvido distintamente no silêncio da noite até ao corpo estendido no quintal, mal tapado com uma manta, até ser sangrado na árvore. A questão filosófica não é como esconder o crime, mas como evitá-lo no futuro. A ideia de uma vingança latente é a força dos fracos, a barreira que podemos erguer contra a tirania esmagadora.

Apesar da crueza da cena, potenciada por uma linguagem muito gráfica – é assim que filosofam os pobres –, o espetáculo é muito belo. Sentimos a intensidade do sol e a imensidão fria da noite graças ao elegante desenho de luz de Hâmbar de Sousa. E há um maravilhoso pano terra pintado por Bartolomeu Gusmão, que preenche a totalidade do palco; e os espectadores pisam na entrada e na saída do teatro, para nos lembrarmos de que também os nossos pés deixam as suas marcas nesta passagem pela vida e de que, um dia, regressarão à Natureza.

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19/03/2026

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Carla Baptista

Carla Baptista é docente no Departamento de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCSH), investigadora integrada no ICNOVA (Instituto de Comunicação da NOVA) e jornalista “freelancer” (membro do Conselho Editorial do “Le Monde Diplomatique” – edição portuguesa).

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