Morrem os nossos heróis de meninos

 Morrem os nossos heróis de meninos

(Créditos de imagem: Jeremy Bishop – Unsplash)

Pior do que uma realidade dura e sangrenta, cruel, é constatar que as utopias se tornam em distopias antes inimaginadas, reforçando essa mesma realidade dura e conseguindo vê-la superada no pior, para voltarmos ao ponto de partida.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Depois da perda nas convicções anteriormente consideradas bandeiras, segue-se a descrença sobre a idealização abstracta de ideais de que ainda nos queremos convencer da pureza inicial. Posteriormente, vem a derrocada total, ao termos de parar e olhar de frente já não apenas a dureza da realidade sangrenta e cruel, mas para ver a crueldade do sangue puro e duro.

Morrem os nossos heróis de meninos e ficamos perdidos. E perdidos os heróis que o foram por estarmos enganados. Olha-se Deus como uma última oportunidade de haver um qualquer desígnio. E se Ele não estiver lá? Só resta acreditar que está. Porque se O não há, seja lá o que Ele seja, tudo é tão absurdo como a inutilidade de eu mesmo ter estado a escrever isto. A ser, que expluda o Sol já e amanhã o Universo colapse sobre si mesmo. Ele mesmo, Universo, é um equívoco: inútil, cruel, sangrento. Duro seria, em tal caso, permanecer qualquer existência. Nem um vidro quebrado serve. Nada.

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30/03/2026

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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