“Abril não foi um, foram mil”

 “Abril não foi um, foram mil”

Arte sobre capa “25 de abril de 1974, a Revolução dos Cravos”, de Lincoln Secco – Companhia Editora Nacional. (jornal.usp.br)

(Créditos fotográficos: Ria Truter – Unsplash)

“Abril não foi um, foram mil”, escrevi eu, numa peça de teatro que foi apresentada há mais de um ano. E é, justamente, o facto de terem sido mil que lhe empresta a grandeza de um acto heróico libertador.

Quem o ataca num ajuste de contas de coisas incomparáveis, usando exageros de um dos mil Abril para pôr em causa a Liberdade, não é um mero demagogo no qual muitos, com razões para se sentirem marginalizados hoje, votam. É a voz insinuosa (e, no caso, arruaceira) de quem pretende matar os mil Abril e não apenas este ou aquele, aproveitando essas margens de descontentamento como um mero oportunista que não quer, minimamente, saber verdadeiramente do sofrimento nelas.

Abril, para mim, é também a possibilidade de o ter abraçado de uma maneira e de o tempo me fazer pensá-lo, agora, de outra maneira nesses mil. É assim que prossigo a amar Abril, acima de todas as ditaduras, sendo eu mesmo, no que foi a paixão da minha vida (o teatro), marginalizado por outros que pensam outro Abril. Não será isso que me calará contra esses que escondem o proveito próprio, egoísta, debaixo de capas libertárias e que são a imagem ao espelho do demagogo oportunista.

(cm-vvrodao.pt)

E não “apesar disso”, mas “por isso”, pela possibilidade de discordar e de os combater sem prisões – minha ou deles –, que continuo a amar Abril. E vou concluir a partir de outra frase da mesma peça, que explica muitos enganos: “Quem não viveu completamente Abril, nunca perceberá tão completamente o que foi Abril.” Porque nunca saberá o que foi antes, que não era esse mil, era outros mil de um só. Mil de uma guerra condenada ao fracasso, de prisões, de uma sardinha à mesa, de muitos pés descalços, de analfabetismo, de raquitismo, de silêncio e de corrupção nele. Há que o dizer sem hesitações e sem medo.

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27/04/2026

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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