“Abril não foi um, foram mil”
Arte sobre capa “25 de abril de 1974, a Revolução dos Cravos”, de Lincoln Secco – Companhia Editora Nacional. (jornal.usp.br)

“Abril não foi um, foram mil”, escrevi eu, numa peça de teatro que foi apresentada há mais de um ano. E é, justamente, o facto de terem sido mil que lhe empresta a grandeza de um acto heróico libertador.
Quem o ataca num ajuste de contas de coisas incomparáveis, usando exageros de um dos mil Abril para pôr em causa a Liberdade, não é um mero demagogo no qual muitos, com razões para se sentirem marginalizados hoje, votam. É a voz insinuosa (e, no caso, arruaceira) de quem pretende matar os mil Abril e não apenas este ou aquele, aproveitando essas margens de descontentamento como um mero oportunista que não quer, minimamente, saber verdadeiramente do sofrimento nelas.
Abril, para mim, é também a possibilidade de o ter abraçado de uma maneira e de o tempo me fazer pensá-lo, agora, de outra maneira nesses mil. É assim que prossigo a amar Abril, acima de todas as ditaduras, sendo eu mesmo, no que foi a paixão da minha vida (o teatro), marginalizado por outros que pensam outro Abril. Não será isso que me calará contra esses que escondem o proveito próprio, egoísta, debaixo de capas libertárias e que são a imagem ao espelho do demagogo oportunista.

E não “apesar disso”, mas “por isso”, pela possibilidade de discordar e de os combater sem prisões – minha ou deles –, que continuo a amar Abril. E vou concluir a partir de outra frase da mesma peça, que explica muitos enganos: “Quem não viveu completamente Abril, nunca perceberá tão completamente o que foi Abril.” Porque nunca saberá o que foi antes, que não era esse mil, era outros mil de um só. Mil de uma guerra condenada ao fracasso, de prisões, de uma sardinha à mesa, de muitos pés descalços, de analfabetismo, de raquitismo, de silêncio e de corrupção nele. Há que o dizer sem hesitações e sem medo.
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27/04/2026