A gorjeta (que não) é opcional
(Créditos fotográficos: Lawrence Lam – pexels.com)
No Japão, onde ainda reina o serviço pelo serviço, uma gorjeta pode ser recusada e até considerada um insulto. Um bom serviço não é visto como algo extra, e sim como parte do trabalho. Por isso, uma maneira mais agradável de agradecer pelo serviço é oferecer para comprar uma bebida ao cozinheiro ou empregado de mesa: eles apreciam o gesto, recebem um extra que não é uma esmola. Um gesto humano e não transacional. Infelizmente, a mão do turismo chega a todos os lados, por essa razão já existem lugares que têm uma espécie de taxa de serviço, como um gasto mínimo. Mas até esse vem com algo: costuma chegar mascarado no custo de um pequeno petisco para acompanhar a bebida.

O contraponto ao Japão é feito pelos Estados Unidos da América (EUA), onde pagar uma conta requer dinheiro e uma calculadora. Pedimos a conta, que chega à mesa e depois vai com o cartão até à caixa, regressando na companhia de dois recibos, um para o estabelecimento, outro para o consumidor. Quem paga tem de olhar para o total, calcular uma percentagem adequada e decidir quanto mais pensa pagar como gorjeta. Adiciona-se isso ao total, assina-se e, mais tarde, ajustam quanto se pagou de verdade, 15 ou 20 por cento extra – mas pode ser consideravelmente superior.

O serviço nos EUA é dos melhores do Mundo. Os empregados de mesa passam, enchem copos de água, asseguram-se de que está tudo bem, fazem conversa como parte do trabalho. Um comensal sente-se bem recebido, o que nem sempre acontece em lugares como Barcelona, por exemplo. Parte disto é cultural – geralmente, os norte-americanos são de conversa fácil e bastante expressivos –, mas a outra é que o salário de um empregado de mesa é, apenas, uma proporção do rendimento esperado: o resto é comparticipado por gorjetas. Daí que tenhamos de sacar da calculadora e ajustar a conta adicionando uma percentagem muito além do que nos diz o menu.
Este sistema cria uma dinâmica estranha para todos os envolvidos. Do ponto de vista do trabalhador, ao não darmos uma gorjeta, privamo-lo de parte do seu salário. Do nosso, pagamos mais que o necessário pelo serviço esperado. O empregado tem de ser simpático até com pessoas idiotas, o consumidor tem de pagar um extra, mesmo quando o serviço é medíocre. Quem se safa no meio disto? O empregador, que pode pagar salários mais baixos e lucrar sem pagar mais.

Ainda que com alguns ajustes culturais, a expectativa de gorjeta criada nos EUA começa a aparecer noutros países. No Reino Unido é comum aplicar uma taxa de serviço – service charge – de mais de 12% nos restaurantes, para entregar aos empregados. À boa maneira inglesa, vem com um truque. Muito como a gorjeta norte-americana, é totalmente opcional, mas, para retirá-la da conta, é necessário pedir ao empregado que a remova após a conta ter sido pedida. Ou seja, cria-se outra situação de tensão social em que se pede a uma pessoa que diga, ainda que indiretamente, que não gostou do serviço. A maioria das pessoas evita a situação e o desconforto. E lá se inflacionam as nossas vidas. Estes exemplos começam a espalhar-se. Na Turquia, por exemplo, onde não há tradição de gorjetas, vi empregados de mesa trazerem a conta e dizerem: “Olhe que isto não inclui gratificação!”. E a ficarem a olhar para nós na expectativa de dinheiro extra.

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É estranho viver num mundo onde, para além do preço da comida, temos de adicionar pelo menos 15% à conta. Em abril, foi notícia no Reino Unido que os restaurantes do chef Gordon Ramsay iam começar a aplicar uma taxa de serviço de 20%, à maneira norte-americana. A reação do público foi negativa e até cronistas americanos avisaram que há coisas que é escusado imitar do outro lado do Atlântico. Isto inclui uma lógica salarial duvidosa que divide trabalhadores entre quem recebe gorjeta ou não. Segundo a lei federal norte-americana, o salário mínimo é de 7,25 dólares por hora, mas se o trabalhador receber gorjetas, esse valor desce para 2,13 dólares! Mantém-se a expectativa é de que a diferença virá da gratificação extra. As gorjetas tornam-se, literalmente, o salário.

Os Estados Unidos da América e o Reino Unido são países que, por uma razão ou por outra, optam por não celebrar o 1.º de Maio, o Dia Internacional do Trabalhador. Data que, ironicamente, celebra uma greve em Chicago, ocorrida em 1886. Enquanto o resto do Mundo celebra a data, as lições do passado devem continuar bem vivas. Qualquer trabalho deve vir com um rendimento digno e sem depender da boa vontade de estranhos que já tiveram de abrir os cordões à bolsa. Assim, sempre que se der uma gratificação, é, como no Japão, um momento especial para ambas as partes e não um passo extra que deixa um mau sabor na boca de quem paga e de quem recebe.
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04/05/2026