A verdade num negócio difícil

 A verdade num negócio difícil

(Créditos fotográficos: Suzy Hazelwood – pexels.com)

Muitas são as vozes anónimas, entre outras mais reconhecidas, que nos dizem: “O jornalismo é um mau negócio!” E fico desamparado com a crueza da afirmação, quando poderia ter sido farmacêutico ou médico ou procurado uma dessas profissões que, se não significam necessariamente mais poder económico, são vistas socialmente com reconhecimento e merecida dignidade.

(cgtp.pt)

Então, o que nos leva a querer fazer jornalismo, quando somos quase sempre olhados com desconfiança, na nossa prática de informar e de investigar, atendendo às reduzidas possibilidades de financiamento e aos acrescidos riscos de segurança pessoal e familiar nesse exercício? A nossa vocação de observar e de acompanhar as acções dos diversos poderes é incompatível com os modelos de negócio sustentáveis? Que tipo de negócio é o meu e o dos meus camaradas, quando evitamos que o dinheiro influencie a verdade do que contamos? Quem paga pelo jornalismo independente das agendas mediáticas e, sobretudo, dos poderes políticos e económicos?

De facto, faço parte daqueles profissionais praticamente sem horário laboral e que caminham na corda bamba da precariedade sem qualquer tipo de protecção, mas que teimam em superar o medo de cair. O nosso trabalho não é fácil, exige múltipla preparação e esforço contínuo, em horas absurdas, para que possamos entrevistar fontes credíveis e investigar, apurar, seleccionar e relatar os acontecimentos relevantes para o público (cada vez mais segmentado), transformando informações em notícias.

Redacção de um jornal. ((Créditos de imagem: Pixabay – transite.fafich.ufmg.br)

Como contrapartida, temos um Estatuto do Jornalista desactualizado (embora com alterações posteriores à Lei n.º 1/99), um contrato colectivo de trabalho que, na sua especificidade para o sector, é quase inexistente e mal regula as relações entre os jornalistas e as empresas de comunicação social. Estas, nas incertezas do negócio, funcionam com profissionais sem contrato formal de trabalho e na deriva dos falsos recibos verdes (que espelham os “freelancers”, pagos à peça e pelo número de caracteres). Ou seja, as redacções estão a emagrecer com os despedimentos e os jornais e outros “media” a empobrecerem na qualidade informativa, o que nos desgasta e desgosta profissionalmente.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Não obstante as ameaças de desemprego, a dura realidade dos baixos rendimentos e a falta de condições de trabalho, mantém-se o nosso objectivo de informar com ética e veracidade, agindo como ponte entre a sociedade e as autoridades, quaisquer que elas sejam.

Efectivamente, não vemos a actividade jornalística como um mero negócio, mas também nos apercebemos de que não escapamos ao actual ataque à generalidade dos trabalhadores e ao retrocesso dos direitos laborais e sociais.

John Stuart Mill (learnliberty.org)

Qual é, afinal, o modelo de informação sustentável num país democrático, com paz social e uma esclarecida opinião pública? Luís Montenegro observou, no recente debate quinzenal na Assembleia da República, que “ninguém está a dizer que o país vai acabar se não mudar a lei do trabalho”, mas poderá ficar mais fragilizado “nas mãos da direita radical populista, que já pôs as suas condições”, como alerta, em editorial, Sónia Sapage. Os jornalistas estão fora da equação dos direitos laborais?

Nestas reflexões, recordo esse defensor incansável da liberdade e da racionalidade que foi John Stuart Mill (1806-1873): “O mal temível não é o violento conflito entre as partes da verdade, mas a calma supressão da sua metade; há sempre esperança quando as pessoas são forçadas a escutar ambos os lados […]” Talvez seja este o nosso alento para continuarmos a fazer jornalismo, sem esquecer o preço do pão.

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Nota:

O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 3 de Maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.

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04/05/2026

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Vitalino José Santos

Jornalista, cronista e editor. Licenciado em Ciências Sociais (variante de Antropologia) e mestre em Jornalismo e Comunicação. Oestino (de Torres Vedras) que vive em Coimbra.

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