O mito de Don Juan

 O mito de Don Juan

“Don Juan” na produção da companhia Teatro Clásico de Sevilla. (sevillacitycentre.com)

O mito de Don Juan é muito mais do que a avidez carnal de um homem. É o mito da insatisfação (contado no masculino, porque nasce numa sociedade patriarcal; também os há no feminino em sociedades matriarcais) e o impulso tanático oculto pelo impulso erótico (tal como é e não meramente sexual).

Don Juan na ópera “Don Giovanni”, de Mozart, uma pintura de Max
Slevogt. (pt.wikipedia.org)

Don Juan só se compraz quando beija a morte, que o leva. Antes, “mata” ele, mas não lhe basta. A paixão é instrumento de dominação, porque é o que transforma o amor em irracionalidade.

Por isto mesmo, do mito, nas suas várias formas em teatro, não é o de Molière nem o de Tirso de Molina (os mais famosos, em teatro declamado e transpostos para a ópera) que mais admiro. Mas o de António Patrício, com “Dom João e a Máscara”, em que quem assume a figura da morte é Beatriz. Daí me referir, simbolicamente (retirado de um texto esteticamente simbolista, o que é curioso), à morte como “Beatriz”.

O que é condizente, em Patrício, porque, etimologicamente, “Beatriz” é “a que traz a felicidade”. No caso do mito, a concretização do impulso tanático é a felicidade. Portanto, o mito do mito (Don Juan como um “conquistador carnal”) desfigura o sentido inicial (e final, afinal) do mito, do arquétipo do mito. António Patrício resgata-o, Molière e Tirso de Molina iludem-no e, provavelmente, iludem-se, porque é mais superficial e menos complexo autodefrontarem-se com ele.

Esta imagem é uma representação da obra “O Naufrágio de Don Juan” (também conhecida como “La Barque de don Juan”), pintada pelo artista francês Eugène Delacroix em 1840.  (en.wikipedia.org)

Na pintura, Delacroix pressente-o como desastre. O que não é o enfoque mais rigoroso, mas, mesmo assim, tem mais sentido do que na figura “principesca” em Velásquez, independentemente da grandeza deste como pintor.

Don Juan é um primo de Sísifo e não um irmão de Casanova ou sequer um irmão “bastardo” de Cupido. É um primo que se realiza, enquanto Sísifo nunca levará a pedra até Beatriz!

.

14/05/2026

Siga-nos:
fb-share-icon

Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

Outros artigos

Share
Instagram