O preço dos pobres

 O preço dos pobres

(Créditos fotográficos: ia huh – Unsplash)

Quanto custa formar um pobre?

(stone-soup.net)

Há números que se repetem ano após ano, como se fossem parte da paisagem natural. Mas não são. São construções sociais, escolhas políticas, prioridades orçamentais. Portugal entrou em 2026 com 1,66 milhões de pessoas em risco de pobreza, segundo o “Balanço Social 2025” da Nova SBE. A taxa baixou de 16,6% para 15,4%. É uma descida real, estatisticamente sólida, e a economista Susana Peralta sublinha que a economia tem crescido acima da média europeia e de forma relativamente inclusiva.

(novasbe.unl.pt)

Mas o asterisco é inevitável: 15% continua a ser muita gente. E, dentro desse grupo, um terço vive com encargos excessivos de habitação. Isto significa que vivem sem margem de manobra, sem almofada, sem futuro. Vivem no fio da navalha, em que qualquer imprevisto – uma renda que sobe, uma doença, um carro que avaria – se transforma numa catástrofe doméstica.

Se alargarmos o indicador europeu AROPE – “At Risk of Poverty or Social Exclusion” –, que inclui dimensões de exclusão social, o número sobe para 18,6%. Estamos abaixo da média europeia (20,9%), mas isso não nos deve tranquilizar. A Bulgária, a Grécia e a Roménia continuam entre os países com as taxas mais elevadas de pobreza e de exclusão; a República Checa, a Polónia e a Eslovénia situam‑se no extremo oposto, com as taxas mais baixas. Portugal permanece a meio da tabela, mas com um problema estrutural: a pobreza é persistente, intergeracional e territorialmente concentrada.

(agencia.ecclesia.pt)

E há desigualdades internas que raramente entram no debate público:

  • as mulheres têm maior risco de pobreza do que os homens (21,9% contra 19,8%);
  • os desempregados enfrentam uma taxa de 66,3%, um número que deveria ser suficiente para parar qualquer reunião de Conselho de Ministros; e
  • as famílias com filhos continuam a ser penalizadas, com mais de um quinto em risco de pobreza ou de exclusão social.

Nada disto é novo. Mas tudo isto é grave.

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A pobreza como custo económico – o elefante no Orçamento do Estado

A pobreza não é apenas uma tragédia humana. É um custo económico gigantesco, silencioso, permanente.

(Créditos fotográficos: Simon Reza – Unsplash)

O pobre paga menos impostos. O pobre consome menos e produz menos do que poderia. O pobre adoece mais cedo, usa mais o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e morre mais cedo. O pobre tem escolaridade baixa, o que reduz produtividade, inovação e competitividade. O pobre não poupa, não investe, não faz crescer a economia. O pobre não paga sequer o seu funeral. O Estado paga por ele.

Tudo isto tem um preço. Um preço que não aparece no Orçamento do Estado, mas que pesa nele como chumbo.

A investigação internacional é unânime: a pobreza custa mais do que as políticas que a poderiam prevenir. Custa em saúde, em absentismo, em prestações sociais, em perda de produtividade, em ciclos intergeracionais que se perpetuam. Custa em tribunais, em prisões, em programas de emergência, em habitação temporária, em apoios de última hora. Custa em vidas desperdiçadas.

Em Portugal, há ainda um custo adicional raramente discutido: a instabilidade educativa. A precariedade docente, que obriga milhares de professores a percorrer centenas de quilómetros por semana, tem impacto direto nas escolas mais pobres. Onde há mais rotatividade, há mais insucesso. Onde há mais insucesso, há mais retenção. Onde há mais retenção, há mais abandono. E onde há abandono, há pobreza futura.

É um círculo vicioso que o país nunca conseguiu quebrar.

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A longa história da exclusão

Portugal convive com a pobreza como quem convive com o clima: resignado, fatalista, quase indiferente. A história do país é a história de uma exclusão persistente: dos camponeses analfabetos, dos operários sem direitos, dos bairros de lata, dos trabalhadores pobres de hoje. Mudam os nomes, mantém-se a estrutura.

(Créditos fotográficos: Bennett Tobias – Unsplash)

A pobreza não é um acidente. É uma construção. E, como todas as construções, pode ser desconstruída.

Por isso, a pergunta essencial não é “Quanto custa combater a pobreza?”, mas, sim, as questões: “Quanto custa continuar a produzi-la? Quanto custa formar um pobre?”

As respostas são desconfortáveis: “Fica mais caro formar pobres do que formar ricos. Fica mais caro deixar que a pobreza se instale do que a prevenir. Fica mais caro ignorar do que agir.”

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A Europa acorda. E Portugal?

João Oliveira, deputado do Partido Comunista Português, é relator do
Parlamento Europeu para a primeira estratégia da União Europeia (UE) de
combate à pobreza. (pcp.pt)

No Parlamento Europeu discute-se, agora, por proposta do eurodeputado João Oliveira, a possibilidade de erradicar a pobreza até 2035. É um objetivo ambicioso, talvez utópico, mas politicamente revelador: a pobreza não é uma fatalidade – é uma escolha. Uma escolha orçamental, fiscal, laboral, habitacional e educativa.

A Europa percebeu que a pobreza é um travão ao crescimento, à coesão e à democracia. Portugal ainda hesita entre o discurso moral e a ação estrutural.

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Conclusão

No fim, talvez tudo se resuma a isto: um país mede‑se pela forma como trata aqueles que não têm nada para oferecer em troca. A pobreza é a sombra que carregamos desde sempre, uma espécie de penumbra histórica que insiste em acompanhar-nos. Mas nenhuma sombra é eterna. Basta uma decisão – política, ética, humana – para acender a luz. E, quando a luz se acende, a pobreza deixa de ser destino e passa a ser memória. O futuro começa aí: no instante em que um país decide que ninguém deve ficar para trás.

(Créditos fotográficos: Tiana – pexels.com)

Escrevo isto depois de décadas a observar escolas, famílias, territórios, vidas que se repetem no mesmo padrão de exclusão. Vi crianças que chegavam à sala de aula já derrotadas pelo Mundo, professores exaustos a tentar contrariar estatísticas, comunidades inteiras a sobreviver no limite. E aprendi uma coisa simples: a pobreza não é um fenómeno natural, é uma construção humana. Se a construímos, podemos desmontá-la. Talvez por isso continue a escrever – para lembrar que a dignidade não é um luxo, é um direito. E que um país que produz pobres está, no fundo, a empobrecer-se a si próprio.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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01/06/2026

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José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

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