As marcas de um regime autoritário
O olhar crítico de João Abel Manta. (ensina.rtp.pt)
Muita gente da minha geração lembra-se da canção “Tás Quietinho ou Levas no Focinho” (“Taquetinho ou Lebas nu Fucinho”, na grafia fonética portuense). Na banda de “rock irreverente” Trabalhadores do Comércio, que vingou na década de 80, destacava-se o então catraio João Luís Médicis, que, como muita rapaziada do Porto e de outras geografias, “[j]á num qu’ria mais cumer / Estava fartu dir pa escola / Só gustaba de currer / E dandar ò xuto à bola” (sic).

Não eram de estranhar os ralhetes familiares: “Calessa boca / Num digas isso qu’é pecado / Olha cu pai e u jesus / Fica zangadu / Numcusta nada pur ser quem sou ser delicado” (assim registo, seguindo à letra o original da banda que, quebrando convenções, continua a cantar “Chamem a Polícia”). Mesmo depois da Revolução dos Cravos, que supostamente afastaria o cheiro a naftalina deixado por quase meio século de ditadura, manteve-se a ideia de que “o respeitinho é muito bonito”. Mas a vivência prolongada no regime do Estado Novo, sob a repressão da polícia política e o desconforto dos bufos ou espreitadores de conversas de café e dos espaços públicos, fez enraizar nas várias gerações a imposição de limites e a autocensura.
De facto, nesta cultura do medo que procurava moldar a sociedade sem questionar a autoridade nem expressar opiniões divergentes, a sobrevivência dependia da discrição e da capacidade de disfarçar e de dizer por outras palavras o que ia nas almas dos “orgulhosamente sós”, como queria António de Oliveira Salazar.

Porém, as mentalidades não mudam ao mesmo ritmo das alterações dos regimes políticos e, assim, persistem as dinâmicas da obediência cega (talvez zarolha), perpetuando um destino encapsulado e predefinido, como ouvimos cantar, à moda do Porto: “Taba fartu dir à missa / Pra rezar u padre nossu / Num gustaba mesmo nada / De cumer du que num gosto/ Mimpingiam baboseiras / Só me qu’rian mudelar / Eram tantas as asneiras / E eu tinha que calar. [sic]”
Mandar calar é, por excelência, um exercício de dominação e um evidente desequilíbrio nas relações entre os indivíduos. Como escreveu o pedagogo Mário Gonçalves Viana (próximo do regime autoritário e do nacionalismo conservador da época), na sua obra “Arte de Obedecer”, a “desobediência fatiga e, por vezes, exaspera”.

Há quem não se tenha esquecido desse momento histórico que marcou a diplomacia internacional quando, durante a Cimeira Ibero-Americana no Chile, em 2007, o antigo rei Juan Carlos I se dirigiu ao então presidente da Venezuela, Hugo Chávez: “¿Por qué no te callas?” O monarca nosso vizinho perdeu a paciência porque Chávez estava a interromper insistentemente o primeiro-ministro José Luis Zapatero, que defendia o seu antecessor, José María Aznar, a quem o líder venezuelano chamava “fascista”.

A presente crónica vem a propósito de, na noite de sexta-feira (29 de Maio), ainda ter tido a oportunidade de ver, na Casa da Escrita, a exposição “’Este livro de reles estofo’. A censura à literatura durante o Estado Novo”, com materiais do Arquivo Ephemera. No encerramento da mostra, os actores da Cooperativa Bonifrates (Ana Paula Santos, Cristina Janicas, Guilherme Almeida, Maria Manuel Almeida e Rui Damasceno) leram excertos de “obras de mulheres escritoras a quem, para além da vigilância das suas convicções políticas, se pretendia impor um rígido código moral que favorecesse e mantivesse […] a ordem social estabelecida”.

Houve tempo para uma conversa em que participaram José Pacheco Pereira, fundador da Ephemera, e Rafael Antunes, realizador do documentário “Lápis Azul”, com experiências de apreensão de textos e de restrições à liberdade de expressão que nos são contadas, na primeira pessoa, por jornalistas, escritores e colaboradores de jornais e de rádios. O historiador Pacheco Pereira diz ter conhecido a censura de forma directa e, por isso, passou a intervir na imprensa clandestina. Na sua perspectiva, a grande herança, após o 25 de Abril, não é a censura política, mas outras formas de condicionamento que persistem até hoje.
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Nota:
O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 31 de Maio) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.
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01/06/2026