Três pensadores entram num café

 Três pensadores entram num café

(Crédito fotográficos: Mario Gogh – Unsplash)

Três pensadores entram num café. Para homens que concebem a leitura de jornais como algo próximo do religioso, a quase ausência de clientes não passa despercebida. O cenário parecia desafiar toda a lógica: uma das horas mais propícias do dia, um dos dias mais convidativos da semana e o mês mais agradável do ano. Influenciados por este quadro de aparente desinteresse cívico, mais do que por uma inclinação natural para o desencanto, os três acabam por convergir numa mesma conclusão: a democracia exige demasiado do cidadão comum. Dissipe-se, desde já, qualquer equívoco: nenhum é adversário da democracia; pelo contrário, é precisamente por nela reconhecerem inequívoco valor que lhe apontam fragilidades e limites.

(Créditos fotográficos: Mihai Halmi-Nistor – Unsplash)

Um deles foi escritor, jornalista e comentador político. Outro destacou-se como pedagogo e tornou-se uma das figuras maiores do pragmatismo norte-americano. O terceiro, ainda entre nós, é atualmente professor de jornalismo na Escola de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade de Columbia. Falamos de Walter Lippmann, de John Dewey e de Michael Schudson – três nomes fundamentais da teoria democrática da comunicação. Convém esclarecer, para não iludir o caro leitor, que o encontro acima descrito jamais ocorreu – ainda que seja difícil imaginar interlocutores mais adequados para uma conversa sobre os dilemas da democracia. Estranho seria, contudo, que uma discussão entre eles conduzisse a um diagnóstico que não este: algo não funciona como deveria na vida democrática. Poucas questões os unem tão claramente quanto esta; poucas, também, os separam de forma tão decisiva, se considerarmos as diferenças nas soluções que encontram.

Walter Lippmann (bristol.ac.uk)

Comecemos por Lippmann, que alimentava a profunda convicção de que o cidadão comum não dispõe das condições necessárias para acompanhar, de forma informada e consistente, a complexidade dos assuntos públicos. Depois de um dia absorvido pelas exigências do trabalho e pelas inúmeras contingências da vida quotidiana, dificilmente se revela capaz de formar juízos sobre questões que escapam ao seu campo de experiência direta e ao seu domínio de conhecimento. Perante este diagnóstico, Lippmann propõe que os processos de decisão política se apoiem no conhecimento técnico daqueles que possuem competência para compreender problemas altamente especializados. Para isso, aos governantes recomenda que se rodeiem de peritos e de aconselhamento qualificado, enquanto para o cidadão comum reserva um papel mais circunscrito – não porque lhe falte inteligência ou dignidade cívica, mas por todas as limitações que tornam estruturalmente impossível que acompanhe, com o grau de profundidade necessário, os assuntos que uma sociedade moderna coloca perante si.

Tal terapêutica dificilmente convenceria John Dewey, para quem o problema não reside na incapacidade intrínseca do cidadão comum. Ensina-nos o pedagogo que, se a capacidade de participação está indissociavelmente ligada às condições sociais e educativas em que os indivíduos se desenvolvem e à ausência de experiências significativas e de instrumentos de formação cívica, isso corresponde a deterioração do exercício de uma cidadania plenamente participativa. Acresce que a solução tecnocrática lhe suscita reservas profundas: nada garante que o conhecimento especializado se traduza em decisões orientadas para o bem comum. Perante este dilema, Dewey prefere apostar na formação do cidadão, considerando que a democracia se fortalece pela criação das condições que permitam ao público compreender e participar nas discussões de forma mais esclarecida.

John Dewey (comunidadeculturaearte.com)

Nenhuma destas posições satisfaz inteiramente Michael Schudson. O cidadão é aquilo que é — e, segundo o autor, não há motivo para encarar este facto como um problema a resolver. Mas como é, afinal, este cidadão? Aquilo a que chama monitorial citizen: atento sem ser omnisciente, vigilante sem ser especialista, participante sem viver permanentemente imerso na esfera pública. Assemelha-se a um operador diante de um conjunto de ecrãs de vigilância — não observa cada imagem a todo o instante, nem acompanha de forma contínua todos os acontecimentos que se desenrolam à sua volta, mas permanece suficientemente alerta para reconhecer os sinais de alarme quando estes surgem.

Michael Schudson (knightcolumbia.org)

Há dias, conversava com um grande amigo sobre estes conceitos. Ele, do lado de Dewey – da confiança nas capacidades do cidadão e no potencial emancipador da democracia. Eu, pessimista me confesso, cada vez mais inclinado para as reservas de Lippmann. Lá nos encontramos em Schudson, para onde se desviou o assunto. Veio a questão inevitável: ainda fará sentido falar do monitorial citizen? Tratando-se de um conceito formulado no final do século passado, à luz de ecossistema mediático incomparavelmente mais simples do que o atual, não será legítimo avaliar se este conceito sobreviveu?

“Que alguém não saiba que a TAP está em processo de venda ao grupo Lufthansa, compreendo. Mas todos saberão quem é o primeiro-ministro de Israel, reconhecerão Zelensky numa fotografia ou conhecerão o ministro dos Negócios Estrangeiros português”, disse eu, convencido de que navegávamos pelas unanimidades.

O silêncio que se seguiu foi suficiente para me fazer reformular a aposta, agora assente em cautela acrescida: “Todos saberão, em traços gerais, o que é a Spinumviva.” O sobrolho franzido disse-me tudo: é provável que esteja enganado. Julgando que Schudson não terá concebido a figura do monitorial citizen sem fundamento, torna-se inquietante admitir uma outra possibilidade: e se os alarmes continuarem a soar com a mesma insistência de sempre, mas tiverem simplesmente deixado de encontrar quem os escute?

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11/06/2026

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Lourenço Ferreira

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Lourenço Ferreira é mestrando em Comunicação Social, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos de Educação para a Cidadania. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

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