O mar como fator da identidade portuguesa e de apelo ao futuro
Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas na ilha Terceira. (Créditos fotográficos: Ana Rocha Nené / Presidência da República)
A 10 de junho, em Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, neste ano de 2026, na Ilha Terceira, nos Açores, o discurso do Presidente da República (PR) partiu dos versos do açoriano Vitorino Nemésio – “Quando penso no mar, o mar regressa / a certa forma que só teve em mim – / Que onde acaba, o coração começa.” – para vincar a ideia de que o mar não é só paisagem, mas “uma condição” e “uma forma de ser no Mundo.

Tendo sido “diante do Atlântico que aprendemos a olhar mais longe”, na perspetiva do chefe de Estado, os Portugueses viram, nele, “um caminho”, que os ensinou a “partir” e a “regressar”, resilientes ante as “tempestades”, humildes ante a “imensidão” e determinados ante o “desconhecido”. E o PR sentenciou: “Falar de mar é falar da identidade portuguesa.”

Depois, salientou o lugar singular dos Açores na identidade, na História e no futuro de Portugal, pois, situando-nos “num ponto estratégico” entre a Europa e o continente americano, entre o Atlântico Norte e as rotas marítimas e aéreas estruturantes da ordem global, induziram-nos à assunção de “responsabilidades e deveres”, na afirmação “da nossa soberania, dos nossos interesses e do nosso futuro estratégico”. Frisou que “a autonomia estratégica europeia como prioridade não é contraditória com a defesa transatlântica”, mas “seu complemento natural”. E sustentou que o presente e o futuro da Europa e da América do Norte são dimensões da mesma comunidade de segurança, que tem o seu pilar fundamental na Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). Com efeito, “o Atlântico faz parte da autonomia estratégica europeia”, a nível “político, económico, energético, tecnológico e de segurança e defesa”.

É pertinente a assunção presidencial da autonomia como “liberdade de decisão e responsabilidade, aperfeiçoando, atualizando e reforçando cooperações bilaterais com os nossos aliados”. Na verdade, como observa o também comandante supremo das forças armadas, só é possível garantir a segurança da Europa em articulação com os aliados, na “relação de equilíbrio e reciprocidade, de respeito pela soberania dos Estados, assente em valores” que não mudam – paz, liberdade, direitos humanos e multilateralismo – que norteiam a ação das forças armadas em Portugal e em missão por todo o Mundo, as quais “são um dos pilares fundamentais do Estado democrático” e “a garantia” da soberania da República, da integridade territorial e da liberdade do povo português”. Por isso, merece gratidão a sua lealdade, dedicação e amor a Portugal.
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Pensando na celebração de meio século das autonomias regionais, o Presidente da República referiu que, depois ter estado no Luxemburgo, com uma das comunidades da diáspora e após a sua presença nos Açores, estaria na Madeira no dia 11. E relevou que a sua presença nos dois arquipélagos projeta uma ideia a que atribui valor fundamental: “Portugal é maior, quando é plural. A unidade nacional não se faz pela uniformidade, faz-se pelo reconhecimento das diferenças. Um país capaz de gerir a sua própria diversidade interna tem mais capacidade para enfrentar os desafios que vêm de fora.”

Recordou que, em 1976, quando a Constituição da República Portuguesa (CRP) consagrou a autonomia político-administrativa das regiões autónomas, alguns questionavam a capacidade de as ilhas se governarem. Duvidavam da “viabilidade de territórios fragmentados, ultraperiféricos, distantes dos centros de decisão”, ou seja, “de que a descentralização fosse compatível com a coesão nacional”. Porém, passados 50 anos, a resposta é clara: “A autonomia não enfraqueceu Portugal. Fortaleceu-o.” Efetivamente, como desenvolveu o PR, “criou instituições com legitimidade democrática”, gizou “políticas adaptadas às realidades locais [e] gerou identidades regionais robustas que não contradizem a identidade portuguesa, antes a enriquecem.”
Contudo, o chefe de Estado, alertou para “as assimetrias persistentes entre o continente e as regiões autónomas, [para] o custo real da insularidade que continua a pesar sobre famílias e empresas, [para] a necessidade de um modelo de financiamento que reflita, com mais precisão e [com] mais justiça a especificidade destas regiões”.
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Sobre a assunção do 10 de Junho, desde 1978, como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, António José Seguro observou que esta junção não foi “detalhe administrativo”, nem “escolha inocente”, mas “decisão profunda sobre a forma como os Portugueses olham para si próprios, para a sua História e para o seu futuro”. Com efeito, na ótica presidencial, neste dia, “celebramos uma comunidade histórica, uma memória coletiva, uma língua, uma ideia de pertença que atravessou guerras, crises, mudanças de regime, separações e reencontros”, isto é, o Portugal de 900 anos, “com as suas grandezas e contradições, com os seus erros e a sua extraordinária capacidade de resistência”.

Por outro lado, celebrar Camões será, talvez, evocar “a expressão mais poderosa da consciência portuguesa”, pois nenhum outro “escreveu tão profundamente” o que fomos, o que desejámos ser e o que procuramos; e, como disse o PR, “depois de Camões, nenhuma cultura europeia produziu um poema nacional com semelhante densidade humana, simbólica e histórica”. Por isso, António José Seguro, salienta que evocar a figura e a obra de Luís de Camões significa, não escolher “o passado e, muito menos, permanecer nele”, mas “reconhecer a sua herança e a sua importância simbólica para o nosso modo de ser atual e para nos prolongarmos como povo”. Com efeito, é graças a Camões que Natália Correia (também açoriana) podia dizer: “Foi por línguas de fogo que aprendi a falar.”

(Créditos fotográficos: José Luís Ávila Silveira / Pedro Noronha e Costa –
pt.wikipedia.org)
Camões – prosseguiu o Presidente da República – está vivo, entre nós por ter escrito o que é peculiar à condição humana: “o medo, a ambição, o amor, a perda, a coragem, a dúvida, a inveja, o desejo de grandeza e a fragilidade da condição humana”. Ao mesmo tempo, “ensinou-nos a falar da beleza e da violência, da glória e do fracasso, do heroísmo e da miséria” e, sobretudo, que “uma nação não se constrói apenas pelas suas vitórias”, mas também “pela capacidade de enfrentar as suas contradições.
Assinalou, existencialmente, o chefe de Estado que “todos já nos identificámos com Luís de Camões, num verso, numa imagem, numa frase ou numa passagem que sabemos de cor”. Por exemplo, em “Os Lusíadas”, o épico interroga-se sobre qual pode ser o nosso refúgio: “Onde pode acolher-se um fraco humano? / Onde terá segura a curta vida? / Que não se arme, e se indigne o céu sereno / contra um bicho da terra tão pequeno?” (Canto I, estância 106).
“Nós somos esse ‘bicho da terra’, frágil e à procura de um lugar a que pertencemos e onde nos sentimos protegidos. E esse lugar é Portugal”, comenta António José Seguro, discorrendo que celebrar Camões, hoje, é “uma forma de sermos portugueses, porque ele nos escreveu a todos”, e celebrarmos uma língua antiga e que suscitou a Vergílio Ferreira uma das mais belas definições: “Uma língua é o lugar de onde se vê o Mundo. Da minha língua vê-se o mar.”

Neste dia, celebramos as Comunidades Portuguesas espalhadas pelo Mundo: “as que vivem no território nacional e as que transportam Portugal consigo, através dos continentes, das gerações e da distância”, destacou o chefe de Estado, vincando que a diáspora “é uma das nossas maiores riquezas”, pois trata-se de “comunidades unidas por uma língua, por referências comuns, por uma herança afetiva e cultural que o tempo transformou, mas nunca, mas nunca, destruiu”.
E o Presidente da República não perdeu o ensejo de fazer declaração apelante a todos, estejam onde estiverem, “Portugal pensa em vós. Portugal precisa de vós. E Portugal estará sempre de braços abertos a receber-vos, se e quando assim o decidir[des].”
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A seguir, considerando que “vivemos um tempo de trincheiras”, explicitou que as ansiedades na economia, na geopolítica, na segurança, na proteção dos mais desfavorecidos, nas questões da vida das pessoas, criam o “impulso de fechar fileiras, de escolher um lado, de erguer muros”, faltando “as palavras do meio”, que “não nascem entre muros, mas nos espaços abertos”, que “não ficam sitiadas, nem sitiam”, mas que instam “ao diálogo e ao encontro”. São, na linha de pensamento presidencial, “mais de tolerância do que de exclusão, mais de disponibilidade do que de afastamento”; são elas que facilitam “a aproximação, a criação de pontes entre as pessoas, entre os Portugueses, entre as instituições, entre as ideias; e “são o antídoto para o vírus da polarização” que substitui “a argumentação, o debate e a negociação”.
Tais palavras são do dicionário que antecipa o diálogo, porque “criam a disponibilidade para que ele aconteça” e “têm a ver com o desejo do bem comum, com um desígnio coletivo, com um país unido, com liberdade de pensar e de criar”, explicou o chefe de Estado.

Lembrando que a sua eleição para Presidente da República “foi marcada pelo desejo de unir os Portugueses e de unir Portugal”, António José Seguro advertiu que “unir o país não significa uma unanimidade artificial e indesejável”, mas reconhecer que “a pátria é um chão comum e que nele há espaço para todos”. Por isso, em advertência política, sustentou que “não haverá democracia firme e pujante, se os partidos não reconhecerem que a política, sendo um espaço de confronto, é também um lugar de compromisso” – com tolerância para quem pensa de forma diferente ou tem origens, religiões e credos distintos, por forma que “Portugal seja, para todos, um chão comum” – tendo sido isso o que “nos permitiu ser o melhor do que fomos”.

Numa referência à governação, o PR relevou que estamos num tempo que nos pede a coragem “de fazer escolhas difíceis, sem ceder ao populismo”, de dizer a “verdade”, quando é desconfortável, de “investir no futuro”, quando o presente aperta, de “defender o interesse de longo prazo”, quando “o ciclo eleitoral empurra para o curto prazo”. Apelou à humildade de “reconhecer que ninguém tem o monopólio das soluções, que nenhuma região ou comunidade é dispensável [e] que nenhuma geração é proprietária do país”, porque, tendo-o recebido em herança, “temos a obrigação de o deixar em melhores condições para quem nos suceder”. E, frisando que “é uma responsabilidade que não podemos escamotear”, disse que este tempo nos exige a ambição justa de “não nos conformarmos com menos do que merecemos”, a ambição de quem “conhece o seu valor e se recusa a aceitá-lo como uma promessa adiada”.
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António José Seguro vê “um país que tem mais do que aquilo que, por vezes, reconhece em si próprio”. Neste âmbito, falou de investigadores e de cientistas reconhecidos e premiados internacionalmente, de universidades que “atraem estudantes de todo o Mundo”, de empresas que exportam com valor, que inovam em setores onde competem com os melhores e que vencem, e da cultura que se expande pelo Mundo, através da língua, da música, da literatura, do cinema, das artes e da língua falada por 300 milhões de pessoas, em todos os continentes, a qual “é, simultaneamente, um laço afetivo entre povos, um instrumento diplomático e um ativo económico de enorme valor e que ainda não soubemos aproveitar plenamente”.
O chefe de Estado reconheceu os jovens extraordinariamente qualificados, que “aprenderam a ser competitivos num mercado global, que dominam línguas, que circulam entre culturas com uma naturalidade que as gerações anteriores não tinham”. Por isso, julga que o problema não é, nem nunca foi o talento, mas que “esse talento parte para outros destinos, demasiadas vezes, porque não encontra em Portugal as condições para crescer”. Com efeito, na sua perspetiva, “o que se ganhou em qualificação não tem sido acompanhado em remuneração” e “a habitação”, que “é praticamente inacessível”, “esgota qualquer orçamento”. Enfim, na ótica do Presidente, o Estado e as empresas têm de reconhecer que o mercado de trabalho não aprendeu a recompensar o conhecimento e a inovação, o que “é inaceitável” e tem de se alterar.

Rejeitando a ideia da queda no fatalismo e a da espera por milagres, o Presidente da República defende que o país necessita de decisões que dependem de nós e que estão ao nosso alcance, assim como precisa de “políticas que fixem talento, em vez de o exportarem”, de “salários que reflitam a produtividade e a qualificação dos trabalhadores”, de “um mercado de habitação que permita aos jovens construírem uma vida no país onde nasceram ou estudaram”, de “um Estado que simplifique, em vez de complicar, que antecipe, em vez de reagir, que planeie além do mandato, em vez de gerir apenas a urgência do presente”, de “empresas que invistam em investigação e [em] desenvolvimento”, de “um sistema financeiro” que avalie o “valor do conhecimento” e não só o dos “ativos tangíveis”, de “universidades” mais ligadas ao “tecido produtivo” e de “centros de investigação” que, nas descobertas, encontrem soluções para as pessoas e para as empresas. Enfim, segundo o PR, é necessária, especialmente, “uma cultura de confiança”.
Disse o chefe de Estado que, em países de crescimento sustentável, os cidadãos confiam uns nos outros e nas instituições e arriscam, porque sabem que os outros cumprirão a sua parte. Sustentando que o presente não pode bloquear o futuro, argumentou que “a capacidade de reinvenção é algo que a História portuguesa demonstra, repetidamente”, em contextos diferentes, porque a reinvenção faz das “limitações” oportunidades”, encontra “rotas”, quando se fecham os caminhos conhecidos, e faz o necessário, quando as circunstâncias parecem impedi-lo.
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António José Seguro porfiou que Portugal está, neste espaço, pelo trabalho de “milhões de pessoas que, todos os dias, se esforçam para melhorar a sua qualidade de vida e dos seus filhos”; está nas Ilhas, no continente e na diáspora que, longe, “continua a ser profundamente portuguesa”; e está “em todos os que constroem este país com competência e com dignidade, muitas vezes sem o reconhecimento que merecem”.

E, antes de terminar, citou Emanuel Félix, nascido em Angra do Heroísmo, que escreveu: “Somos herdeiros de uma lembrança / de tesouros afundados / e arpoamos a esperança.” Destes versos infere que somos “herdeiros de uma memória longa, de conquistas e fracassos, de grandeza e fragilidade”, e que “projetamos a esperança com a determinação de quem sabe que o futuro se pode moldar”, pelas “decisões”, pela “coragem” e pela “determinação”. E assegurou que a esperança é uma das “palavras do meio”, que leva a combater “a polarização”.
Por fim, apelou à renovação da confiança no país, na capacidade de criar, de inovar e de enfrentar o futuro com coragem, pois isso “é dar continuidade à vocação atlântica de abertura ao Mundo, de diálogo e de humanidade, porque “Portugal, tal como o mar, é feito de profundidade, de movimento e de infinito”.
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Foi um discurso que articulou política, estratégia, História e Literatura, e que, evocando o passado e firmado no presente, a transformar, constitui um impulso para um futuro de riqueza e de justiça social. Neste sentido, é de salientar que o chefe de Estado citou Ruy Belo, que escreveu: “O Portugal futuro é um país aonde o puro pássaro é possível.”

Não sei se o PR é poeta, mas ficou patente que aprecia a poesia e a Literatura, em geral, que pode dar forma à política, como ao amor e ao destino. Camões dizia de Júlio César que tinha, “numa mão a pena e, noutra a lança”. E ele próprio se assumiu como militar, poeta e amador, como César: “Numa mão sempre a espada, e noutra a pena” (Os Lusíadas, Canto V, estância 96 v 3 e Canto VII, 79 v8, respetivamente).
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11/06/2026