Edgar Morin e as lições da História

 Edgar Morin e as lições da História

Edgar Morin (Créditos fotográficos: Lisaetwikipedia – pt.wikiquote.org)

O último livro de Edgar Morin “Y a-t-il des leçons de l’histoire? foi publicado no ano de 2025, em França, pelas Éditions Denoël . Em Portugal, foi igualmente publicado nesse ano, pelas Edições Crítica, com o título “Lições da História”.

Como a maior parte das obras do autor, este  é um livro de leitura muito aprazível e tem um sugestivo subtítulo: “Podemos aprender com o nosso passado?” O autor está convicto disso e, assim, confessa que “ao longo do século que já viveu, “a questão das lições da História” nunca deixaram de o inquietar. De facto, foram amadurecendo e se transformaram neste livro em que nos oferece 16 lições e remata com uma interessante conclusão ou síntese.

(instagram.com/mirathebooks)

A obra abre com uma curtíssima introdução que podemos resumir na frase: “Estando a verdadeira História envolvida em tudo, o verdadeiro historiador envolve-se em tudo.”

A primeira lição – O resultado de uma acção pode ser contrário à sua intenção inicial–  foi aprendida no seu primeiro ano da universidade, em 1940, com o mestre Georges Lefebvre. Edgar Morin recorda o tempo em que a aristocracia perdeu o poder que julgava recuperar e Luís XVI, ao querer uma reforma financeira perdeu tudo. Para o autor, ficou claro, desde esse tempo, que “o curso de uma acção depende também do seu contexto ou do seu ambiente, bem como das inter-retroações que aí se produzem”.

A segunda lição – Não existe observação válida sem auto-observação – foi aprendida nas aulas de Economia, com Gaëtan Pirou e de outros mestres. Implica que o “observador […] deve autoexaminar-se e situar-se a si mesmo”. Tudo deve ser contextualizado, incluindo o contextualizador e o historiador.

A terceira lição – O improvável pode acontecer – foi aprendida nas aulas de História Antiga, com o professor André Aymard. Edgar Morin ficou impressionado com o incrível e improvável triunfo de Atenas, perante a invasão do gigantesco Império Persa. Com a derrota de Atenas, não teria acontecido a instauração da democracia. Nem o aparecimento da filosofia.

Edgar Morin ficou impressionado com o incrível e improvável
triunfo de Atenas, perante a invasão do gigantesco Império
Persa. (Créditos fotográficos: Gérald Garitan – pt.wikipedia.org)

A quarta lição – As causas dos acontecimentos históricos são sempre múltiplas e emaranhadas – foi aprendida também com André Aymard, quando ele explicou aos alunos que a queda de Roma foi fruto de causas internas e externas. E Edgar Morin evoca, neste capítulo, a Segunda Guerra Mundial, a guerra da Argélia, a guerra da Jugoslávia, as guerras norte-americanas no Iraque, na Líbia, no Afeganistão e as recentes guerras na Ucrânia e em Gaza. Conclui que a memória de tais acontecimentos se vai anestesiando com o tempo e chega a levar a formas de racionalização justificativa das mesmas.

A quinta lição – Os mitos têm uma grande influência na História – parece ser trivial. Fala-nos do papel das grandes religiões ao longo da História. Evoca o caso do Cristianismo, difundido num terço da Humanidade, do Islão e do seu desvirtuamento, das metamorfoses do Judaísmo, para concluir “que não basta ter sido perseguido para se tornar um perseguidor”.

A sexta lição – O incrível destino da Revolução Russa – é, igualmente, um exemplo do triunfo do inesperado e do papel crucial dos mitos na História, uma vez que esta revolução era altamente improvável. E, se esta triunfou, isso ficou a dever-se à genial intuição de Lenine (Vladimir Ilyich Ulianov), que conseguiu vencer o império czarista. Aconteceu depois que “o fracasso humano e moral do socialismo como sociedade igualitária e fraterna […] foi totalmente mascarado pela ideologia”. E a realidade veio a mostrar-se muito diferente do que a ideologia proclamava, provando, mais uma vez, que há processos que conduzem ao contrário do que haviam pretendido.

Edgar Morin, em 2011. (de.wikipedia.org)

A sétima lição – A nação é uma invenção recente –  é, para nós, evidente porque a nação nasceu tardiamente na História.  Preocupantes são, hoje, as três nações-impérios que dominam e controlam o Mundo e até escravizam outros povos: a China, a Rússia e os Estados Unidos da América (EUA). Estas três potências são, cada vez mais, um obstáculo à “possibilidade de uma confederação planetária que pudesse integrar as nações numa Terra-Pátria”.

A oitava lição – A racionalidade da História é, muitas vezes, apenas uma pós-racionalização – resulta de Edgar Morin considerar que “as guerras produzem a História, tal com a História produz as guerras”. O que é uma irracionalidade bárbara que se renova no decurso da História. Dai que Morin conclua que “o que pensávamos ser a racionalidade da História não passa de uma racionalização a posteriori”.

A nona lição – Os destruidores também são, por vezes, grandes civilizadores – parece não ter sentido. Mas os exemplos dos Bárbaros  e dos Romanos mostram que “uma invasão pode levar à simbiose que cria uma nova civilização”.

A décima lição – Nada é tão humano ou tão desumano como a guerra – mostra que o Homo faber  (ou o “Homem artífice”) está ao serviço do Homo demens (o “Homem louco” ou “desatinado”). “A educação militar revela, por si só, o grau de robotização que se impõe ao ser humano”, transformando  o soldado num autómato obediente.

Edgar Morin considera que “as guerras produzem a História, tal com a História produz as guerras”. (gene.eu)

A décima primeira lição – Um só indivíduo pode mudar o curso da história mundial –  quer provar que Edgar Morin acredita que os períodos de crise favorecem o aparecimento de grandes homens e de grandes mulheres causadores de acontecimentos históricos, que podem mudar a História. E evoca  os casos de França, com Joana d’Arc,  Robespierre, Charles de Gaulle; recorda ainda Winston Churchill e alguns imperadores romanos tiranos, sem esquecer os casos de Benito Mussolini, Josef Estaline, Adolf Hitler e Mao Tsé-Tung, personagens divinizadas, em que podem coincidir o mitómano e o megalómano.   Para ele, “os grandes homens trazem à História não só contributos transformadores, criadores ou destrutivos, mas também o inesperado que desvia o curso dos acontecimentos e da própria ia História”.

A décima segunda lição – Os heróis e os santos– relembra os heróis que se manifestam na guerra, enquanto os santos são os que mostram compaixão para  com quem sofre, particularmente os pobres, sendo Mahatma Gandhi o grande exemplo.

A décima terceira lição – Do entusiasmo à revolta vai apenas um passo –  leva Edgar Morin a evocar os casos de Mussolini e de Hitler, idolatrados, mas depois com fins trágicos. Exemplos que provam que “a história das nações mostra que os povos podem, consoante as condições, passar do entusiasmo à revolta ou da revolta ao entusiasmo”.

Edgar Morin evoca os casos de Mussolini e de Hitler,
idolatrados, mas depois com fins trágicos. (fronteiras.com)

A décima quarta lição – A realidade histórica do imaginário – destaca que o imaginário intervém na História e “é activo, mortífero nas religiões que são conquistadoras ou se digladiam, tal como nas mitologias nacionalistas”, dando como exemplo as Cruzadas, que tiveram duas forças motrizes: o mito e a ganância.

A décima quinta lição – O progresso material não é acompanhado por qualquer progresso moral – defende que temos “muitas técnicas” que promovem a servidão, o genocídio, a matança e as guerras; e que foi o progresso científico que “tornou possível” Auschwitz, Hiroxima e Gaza. O sociólogo e filósofo Edgar Morin afirma que, em 2025, a Humanidade estaria “a ser arrastada para uma grande regressão pelo conjunto das crises ecológicas, políticas e económicas”, podendo originar um terceira guerra mundial. Hoje, só podemos concluir que “os progressos técnicos inquestionáveis são acompanhados por deficiências e carências morais”. E, se há progressão em certos sectores, há regressão noutros, concluindo que “o progresso traz consigo a sua quota parte de ambiguidades e de regressões: o declínio das solidariedades e das comunidades em favor dos egoísmos”.

A décima sexta lição – As Guerras são um concentrado de acasos e de determinismos – leva Morin a recordar a Primeira Guerra Mundial (ou Grande Guerra) e a Segunda Guerra Mundial, bem como os combates entre o nazismo e o estalinismo. Recorda ainda que o Tratado de Versalhes (assinado a 28 de Junho de 1919), que queria assegurar uma paz duradora, acabou por ser, ironicamente, uma das causas da Segunda Guerra Mundial.

(Direitos reservados)

O livro “Y a-t-il des leçons de l’histoire? encerra com uma pequena síntese intitulada “As Lições da História”, em que o autor regista que tais lições são fundamentais, porque “a História carrega consigo as grandes forças cósmicas de união e desunião, de concórdia e discórdia”. Edgar Morin sublinha ainda que a principal lição da História é que ela põe em evidência “as diferentes faces da Humanidade, os diferentes comportamentos humanos, mas também a estreita combinação antropológica da razão e loucura, da técnica e mito”.

Para o jornal Le Monde, este é um “livro breve e luminoso”. Para o El Mundo, Morin é voz imprescindível da filosofia europeia. Por sua vez, para o diário El País, Edgar Morin é um sobrevivente de uma espécie em extinção, a dos grandes intelectuais do século XX.  Para mim, é um livro apaixonante e o “testamento do autor”.

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16/07/2026

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José Vieira Lourenço

José Vieira Lourenço é da colheita de Agosto de 1952. Estudou Teologia e fez a licenciatura e o mestrado em Filosofia Contemporânea, na Universidade de Coimbra. Professor aposentado do Ensino Secundário, ensinou Português, Filosofia, Psicologia, Sociologia, Teatro e Oficina de Expressão Dramática. Foi, igualmente, professor do Ensino Superior, na Universidade Católica de Leiria e no Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra. Foi ainda coordenador do Centro da Área Educativa de Coimbra (1998-2002) e só então conheceu verdadeiramente a classe docente. Descobriu bem cedo a sua paixão pela poesia, pela literatura, pela música e pelo Teatro. Foi Menino Jesus aos quatro meses no presépio vivo da sua freguesia. Hoje, como voluntário, dirige o Grupo de Teatro O Rebuliço da Associação Cavalo Azul e também o Grupo de Teatro de Assafarge. Canta no Coro D. Pedro de Cristo, em Coimbra. Apaixonado pela Natureza, gosta de passear a pé pelos trilhos da Abrunheira, na companhia do seu cão. Dedicado às causas da cidadania, é dirigente do Movimento Cidadãos por Coimbra, que insiste em fazer propostas para criar uma cidade diferente. Casado, tem duas filhas e uma neta, a quem gosta de contar histórias.

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