Fundação Calouste Gulbenkian: 70 anos
(gulbenkian.pt/70anos)
“A agenda dos 70 anos da Fundação Calouste Gulbenkian propõe um programa que cruza celebração, memória e futuro”, lemos na página electrónica da Fundação Calouste Gulbenkian
O meu pai, Rafael, era um homem muito informado. Contou-me, certa vez, uma história que conhecia sobre o “Sr. 5%” (Calouste Sarkis Gulbenkian). A verdade, porém, é que Gulbenkian era muito mais do que isso.

Mal imaginava eu que, um dia, me iria cruzar com os destinos da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
Resumindo: quando me encontrava exilado na RFA (República Federal Alemã), em 1974, um dos meus professores de Alemão – e que, mais tarde, viria a tornar-se um grande amigo –, o Dr. Joaquim Silveira, colocou-me em contacto com a Fundação, em Lisboa. Nesse Natal, recebi um telegrama do TEP (Teatro Experimental do Porto) informando-me de que a Gulbenkian atribuía um subsídio à companhia para que eu assumisse o cargo de director artístico. Uma carta assinada pelo director dos Serviços Culturais da Fundação, o actor e dramaturgo Carlos Wallenstein, reforçou essa missiva.
Foi assim que me fixei em Portugal: três anos no Porto (1975-1978), seguidos de cinco anos na Madeira (1978-1982), sempre com o apoio da Fundação.

Em 1982, quando regressei ao Porto para participar na criação do primeiro Curso Superior de Teatro da cidade, na Cooperativa de Ensino Superior Artístico Árvore (actual ESAP), voltámos a contar com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e do amigo Carlos Wallenstein, a quem sempre considerei o meu “Anjo da Guarda”.
Quando, nos anos oitenta, adquirimos, com enorme sacrifício, o edifício da Cooperativa de Ensino Superior Artístico Árvore, na Rua Barbosa de Castro – uma antiga fábrica de guarda-sóis –, tivemos igualmente a honra de receber a visita do Dr. Azeredo Perdigão, então presidente da Fundação.
Mais tarde, em 1991, aquando da criação da companhia de Teatro de Formas Animadas Rever os Clássicos, o meu amigo e marionetista Alexandre Passos e eu beneficiámos de um apoio inicial da Fundação, indispensável para o arranque do projecto.
Finalmente, no ano 2000, a Fundação concedeu-me um subsídio para a realização de uma exposição comemorativa dos meus vinte e cinco anos de teatro em Portugal, apresentada no Teatro Municipal Rivoli, graças também ao generoso apoio da sua Directora, Dra. Isabel Alves Costa.
Tenho sido, sem nunca o procurar, um dos muitos beneficiários da acção desta extraordinária instituição filantrópica sediada em Lisboa. E não apenas no plano pessoal. Também como espectador, devo-lhe inúmeras horas de enriquecimento cultural: cinema, teatro, bailado, música e as muitas visitas ao Museu Gulbenkian, hoje renovado, onde continuo a maravilhar-me com as suas magníficas colecções. Entre elas destacam-se grandes mestres da pintura europeia, importantes núcleos de arte persa e asiática e, naturalmente, a extraordinária colecção de René Lalique, uma das mais completas da Europa, nascida do encontro entre René Lalique (1860-1945) e Calouste Sarkis Gulbenkian (1869-1955), ocorrido em meados da década de 1890.
Quem percorre o Museu, o edifício e os jardins da Fundação apercebe-se facilmente da dimensão intelectual e humanista do seu fundador. Calouste Gulbenkian foi um homem verdadeiramente visionário, simultaneamente dentro e para além do seu tempo. Possuía um olhar artístico raro, universal, capaz de reconhecer o valor das obras que foi reunindo ao longo da vida e de as preservar para as gerações futuras.

A sua biografia pertence aos historiadores. Prefiro recordar aquilo que a Fundação representou – e continua a representar – para a cultura portuguesa.
Entre as suas realizações mais marcantes, merece especial destaque a criação das Bibliotecas Itinerantes. Sobre esse projecto muito poderia ser dito. Basta recordar o seguinte: “No ano em que a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) celebra 70 anos, o projecto das Bibliotecas Itinerantes – criado dois anos depois da instituição – continua a ser reconhecido por investigadores, responsáveis pelas bibliotecas públicas e antigos leitores como uma das iniciativas que mais contribuiu para democratizar o acesso ao livro em Portugal. Criado em 1958, o Serviço de Bibliotecas Itinerantes percorreu o país durante décadas, numa época marcada por elevadas taxas de analfabetismo, escassa oferta de leitura pública e profundas desigualdades no acesso à cultura.”

Quem, em Portugal, nunca descobriu um livro graças às Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian? A este respeito, lemos no Diário de Viseu: ”As bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que durante décadas percorreram estradas portuguesas levando livros a milhares de pessoas e suprindo uma resposta que o Estado tardou a assegurar, deixaram um legado na rede pública de bibliotecas e na memória cole[c]tiva.”
Uma última palavra sobre o povo arménio: culto, resiliente e profundamente marcado pelo sofrimento da sua História. Os Arménios foram um dos povos mais duramente perseguidos durante o domínio otomano. (Ver Genocídio arménio – Wikipedia, la enciclopedia libre).

É muito provável que, durante a minha infância, no Chile, me tivesse cruzado com alguns deles. Muitos emigraram para a América Latina. Nós chamávamo-los “turcos”, por viajarem com passaporte do Império Otomano, quando, na realidade, eram sírios, libaneses, arménios, palestinianos…
Entre os numerosos artistas de origem arménia recordo apenas três: Charles Aznavour; a actriz e cantora Cher; e o extraordinário compositor Aram Khachaturian (1903-1978), autor de vários bailados, dos quais destaco o belíssimo “Spartacus”, apresentado há alguns anos no Coliseu do Porto.

Por fim, gostaria de evocar uma obra que marcou gerações de companhias de teatro (entre elas o TEP) e de grupos amadores: “A Gota de Mel”, coral de Léon Chancerel, na versão portuguesa de António Pedro, inspirada num conto do poeta e novelista arménio Hovhannes Tumanyan (1869-1923).
Existe uma belíssima curta-metragem de animação baseada nessa história, disponível no YouTube, que deixo à curiosidade dos leitores interessados: “Капля мёда”(Arménfilm, realização de V. Podpomogov, 1968).
.
27/07/2026