Exames nacionais: aumentaram as injustiças
(Créditos fotográficos: Kari Alfonso – pexels.com)
Neste momento, os dois nomes mais criticados em Portugal são os ministros Luís Neves e Fernando Alexandre. Luís Neves, o ministro da Administração Interna, é um caso à parte e só o invocamos por causa das contradições e embrulhadas em que se meteu. Mas podemos dizer o mesmo de Fernando Alexandre, o actual ministro da Educação, Ciência e Inovação (MECI), que parece ter prazer em meter-se igualmente em alhadas, disparando depois em todas as direcções. Parecem duas almas gémeas ou, então, dois afilhados superprotegidos por um padrinho de peso ou por um qualquer deus invisível. Deixaremos em paz Luís Neves para voltarmos à vergonha e às injustiças dos exames.
Confesso que já me tinha esquecido de que Fernando Alexandre (FA) entrou na vida política portuguesa em 2013, como membro do XIX Governo Constitucional de Passos Coelho, em que exerceu o cargo de secretário de Estado adjunto do ministro da Administração Interna, ao tempo Miguel Relvas, até ao final do seu mandato, em 2015.

FA começou a ser olhado com alguma desconfiança, pelo menos da minha parte, quando, em 21 de Novembro de 2011, defendeu que devia ser cortado o 14.º mês aos reformados com pensões acima de 1500 euros, concluindo ainda que tal corte devia ser definitivo. Ainda não satisfeito, terá dito que o corte de um dos subsídios, de Natal ou de Férias, deveria ser também definitivo para todos os funcionários públicos. Que grande cartão de visita mostrou nessa altura!
Convém agora recordar estes dados porque eles, de certo modo, ajudam a traçar o perfil desde neoliberal, com ligações à “Atlas Network”, um centro com sede nos Estados Unidos da América que apoia formações e dá subsídios generosos a grupos e a personalidades neoliberais do Mundo inteiro. E, já agora, temos de referir as suas ligações ao conhecido “Instituto + Liberdade”, entidade promotora da ideologia neoliberal fortemente alinhada com o liberalismo e o centro-direita, de cujo Conselho de Curadores fez parte.

Inovação. (campusdaliberdade.pt)
Tendo isto em conta, não nos podemos espantar com o facto de FA trate, hoje, as questões educativas com o mesmo tipo de políticas neoliberais que sempre defendeu. Os resultados estão à vista de todos. Da sua postura arrogante, de passa culpas, da permanente sacudidela de água do capote, nem é preciso falar, porque esse é assunto de que os meios de comunicação social têm destacado. Diremos apenas que estamos perante uma postura inacreditável, quer do ponto de vista político, quer sobretudo ético. O delírio (que havemos de lhe chamar?) já chegou ao ponto de, através de um suposto porta-voz do governo, se ter lançado a hipótese de um qualquer conjunto de malfeitores, de alguém a querer sabotar o processo dos exames, criando esta vergonha ou este caos, como se queira classificar. Sebastião Bugalho dixit e todos ouvimos!
Há quem pense, porém, que Fernando Alexandre não será o incompetente que muitos dizem. Há mesmo, sobretudo no seio dos apoiantes da Aliança Democrática (AD), quem defenda que este é o melhor dos ministros da Educação que Portugal teve! E, para prova, apresentam o rol das melhorias que a escola sofreu, a começar pela resolução do problema do adiado tempo de serviço, que se arrastou anos e anos, e de outras arengas que tais! Que tudo está melhor! Que nunca esteve tão bem! Enfim, coisas próprias da fé dos crentes na AD. Será, contudo, difícil explicar porque é que um ministro tão bom anda, há dois anos, para nos dizer quantos docentes faltam nas escolas.

Há também quem pense, como o advogado e político António Garcia Pereira, que, afinal, a competência máxima de FA é a de aplicar um dado programa, oculto mas tenebroso, “que visa a destruição da escola pública, desmantelando o sistema público de ensino e entregando as partes mais rentáveis do mesmo (das ‘digitalizações’ às ‘novas tecnologias’, passando pelos ‘conteúdos digitais’ e pelas ‘formações’) aos privados, à semelhança, por exemplo, daquilo que a sua congénere da Saúde, Ana Paula Santos, tem estado a fazer nesse setor.”
E terá sido, pois, neste contexto que FA e a sua equipa montou esta máquina dos exames que deu este descalabro à vista de todos e que terá provocado, segundo números apurados, à volta de 18 mil erros na classificação, afectando largas dezenas de alunos nas suas classificações, embora ele teime em negar, no alto do seu emproado e cego narcisismo, considerando que tudo está resolvido ou se vai resolvendo.

Todavia, antes de ter montado a emperrada máquina dos exames, que tão mal tem funcionado (sobre isso já nem vale a pena repetir o que todos sabemos), outros passos muito mais gravosos foram dados. Tudo pode ter começado com as preocupantes ameaças à Língua Portuguesa, às Ciências Sociais, à História, à Filosofia, à Literatura, à Música e às Artes, varrendo-as, sem mais, das ditas “Aprendizagens Essenciais” e dos Currículos Flexíveis.
E já nem vale a pena falar, como escreveu Garcia Pereira, “do uso acrítico da designação inteligência artificial (IA), utilizada para a destruição dos meios, dos instrumentos e das pessoas, ou seja, dos recursos necessários para formar cidadãos a[c]tivos e conscientes, com capacidade para pensar pela própria cabeça e para discutir e construir os nossos amanhãs”. Obviamente, também escusamos de falar da destruição da máquina dos exames, que tem funcionado sem erros graves há tantos anos, ao contrário do que acontece no presente.

Departamento de Neurobiologia e Codiretor do Centro de
Neuroengenharia da Duke University
(EUA). (editoradobrasil.com.br)
Estou afastado da Escola há alguns anos, mas continuo a viver intensamente os seus problemas. E estou solidário com todos os professores que, neste processo, foram sistematicamente desrespeitados. Seria exaustivo e, talvez, desnecessário dar exemplos destas faltas de respeito para com a classe docente, que se vê hoje reduzida a meros tarefeiros.
Como evidencia o cientista brasileiro Miguel Nicolelis, o perigo não é o das máquinas substituírem o cérebro humano, mas, sim, o de o mesmo cérebro humano, ou seja, a própria Humanidade, se habituar e acabar por aceitar funcionar como uma máquina, esquecendo os sentimentos, as empatias, as emoções e as sensibilidades; em suma, tudo aquilo que constitui a essência do género humano. Afinal, tudo o que de mau aconteceu nos exames!
Muito se tem discutido e continua a discutir acerca da IA. Porém, é preciso ver que que esta não é inteligência, pois esta decorre da matéria orgânica, coisa que uma máquina não tem, nem nunca terá… E não é artificial porque vive à custa dos milhões de horas de trabalho dos escravos que a alimentam, a troco de míseros proventos.

Não temos dúvidas de que este novo desafio da IA ao serviço da classificação dos exames nacionais veio para ficar. Da classificação, repita-se, não da correcção, que isso é outra coisa. No entanto, seria bom que os erros crassos verificados não se repetissem, como acabou por acontecer na segunda fase. E não sabemos como será na terceira.
Para nós, o problema mais grave de todo este caos – não podemos ter medo das palavras, por mais que isso incomode o poder – foi que os docentes deixaram de avaliar as provas na sua globalidade e que se transformaram em classificadores de itens, perdendo a visão global do desempenho dos alunos, com todas as consequências daí resultantes.
Dizem muitos que tal processo pode aumentar o rigor e a imparcialidade, mas isso não está provado. E fica claro que aumentaram as injustiças como, agora, está à vista de todos.
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Nota do Director:
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06/08/2026