Camilo Castelo Branco ainda nos lê

 Camilo Castelo Branco ainda nos lê

Camilo Castelo Branco é um dos nomes mais emblemáticos da literatura portuguesa do século XIX. (facebook.com/TNDMII)

A maior preocupação dos humanos talvez seja a de saber ou de não saber a verdade, seja o que isso for. Ela estimula-nos a procurar, a rever, a repensar tudo o que se disse, desenhou e escreveu antes, até nas zonas mais estéreis deste planeta que nos acolhe e que continuará a manter os seus mistérios.

É atribuída a Winston Churchill a afirmação de que, “às vezes, os homens tropeçam na verdade, mas quase sempre se levantam e continuam o seu caminho, como se nada tivesse acontecido”. Talvez seja uma das razões que nos levam a viajar de novo e, constantemente, a não prestarmos atenção às circunstâncias das nossas expedições, algumas delas sem destino.

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Os pintores admitem, como terá observado Pablo Picasso, que “se só houvesse uma verdade, não se poderiam pintar cem telas sobre o mesmo tema”. Daí as múltiplas viagens que fazemos ao longo da vida, incluindo as que não implicam deslocação física. Daí as leituras que – mesmo quando não faltam as bibliotecas nem os jornais – nos são permitidas nos olhares e nas respirações daqueles com quem partilhamos o espaço e o tempo. Daí a sofreguidão ou a forma mais vagarosa com que descodificamos uma lágrima, um sorriso, um gesto e, especialmente, os símbolos gráficos e as palavras que se cruzam no cérebro e desafiam significados.

Muitas décadas depois de ter sido oficialmente obrigado a estudar o Romantismo português também através do romance “Amor de Perdição”, nessa busca literária que não reservo como exclusiva, experimento agora, por vontade própria, a descoberta da escrita mordaz e da crítica social e política de Camilo Castelo Branco.

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Ando a ler, muito devagar e com um sentido distante do pieguismo e das fatalidades amorosas do ideal romântico, a novela “A Queda dum Anjo”, editada em 2003 pelas Publicações Dom Quixote, sendo a fixação do texto e a actualização da grafia da responsabilidade de Deolinda Rodrigues Cabrera.

(© VJS – sinalAberto)

Falta-me alguma destreza para me envolver com a época em que se situam as figuras desta narrativa, mas relembro a advertência de Camilo, na edição de 1873: “A pressa com que nos foi pedida a revisão deste livro, segunda vez editorado, estreitou-nos o tempo necessário para colher informações da vida que levaram os personagens desta história, no lapso de sete anos. Começamos desde já em averiguações. […]” 

Na dedicatória que, em 27 de Setembro de 1865, tinha dirigido a António Rodrigues Sampaio, Camilo expressava: “Volto a oferecer-lhe uma das minhas bagatelas. Chamo assim, para me fingir modesto, bagatelas a umas coisas que eu reputo no máximo valor.” Como confessaria em 1873: “O autor cuidou, quando escreveu esta novela, que alguma intenção moralizadora se transluzia da contextura da história. Hoje, por lho haver dito um amigo franco, está persuadido que o seu livro não morigerou; mas também não escandalizou ninguém. […]”

(Direitos reservados)

Século e meio depois, o verbo “morigerar” já não é conjugado entre nós. As televisões e os outros meios de comunicação transmitem-nos a ideia de que se desvalorizam os princípios e os bons costumes, sem ter em conta as consequências dos excessos e das imprudências. Enquanto sucedem as polémicas que afectam o ministro da Administração Interna – o qual não pondera a demissão, apesar das investigações em curso e da avaliação interna da sua liderança quando dirigiu a Polícia Judiciária –, preparo-me, sem propósitos moralistas, para ler um outro livro de Camilo Castelo Branco que, na opinião de Gonçalo M. Tavares, “é de um sarcasmo destruidor”: “Coração, Cabeça e Estômago”. Valham-nos, ao menos, as viagens propostas pelo escritor que viveu a sua paixão com Ana Plácido em São Miguel de Seide!

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Nota:

O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 9 de Agosto) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.

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10/08/2026

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Vitalino José Santos

Jornalista, cronista e editor. Licenciado em Ciências Sociais (variante de Antropologia) e mestre em Jornalismo e Comunicação. Oestino (de Torres Vedras) que vive em Coimbra.

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