Quando a fraude digital ultrapassa o Estado
Exemplo de deepfake: original à esquerda, deepfake alterado à direita. (weforum.org)
Perguntas de um cidadão, respostas do Copilot

Nos últimos meses, multiplicaram-se, nas redes sociais, vídeos que simulam debates televisivos com figuras públicas portuguesas: antigos ministros, governadores do Banco de Portugal, jornalistas conhecidos, líderes partidários. Todos parecem discutir um suposto “sistema financeiro milagroso” – o Leal Lucrivado – apresentado como meio seguro de poupança e de rendimento. Os testemunhos são convincentes, as imagens parecem reais, os cenários imitam estúdios de televisão.
Mas nada daquilo aconteceu.
Perplexo perante a sofisticação da fraude e a passividade das instituições, decidi perguntar ao Copilot – copilot.microsoft.com, ferramenta digital que responde com rigor técnico – o que está realmente em causa. O resultado é este diálogo, que aqui partilho como contributo para a literacia pública, num tempo em que a mentira se veste de verdade com uma facilidade inquietante.
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1. “Copilot, estes vídeos são reais?”
Copilot: Não. São deepfakes – vídeos manipulados com inteligência artificial que imitam rostos, vozes e cenários. Nenhum dos intervenientes participou nesses debates. Nenhum canal de televisão transmitiu estes conteúdos. O “Leal Lucrivado” não existe: é uma fraude digital destinada a captar depósitos de vítimas.

2. “Mas são tão convincentes que qualquer pessoa pode acreditar…”
Copilot: Precisamente. Os burlões usam ferramentas baratas e acessíveis para criar vídeos com qualidade profissional. Reproduzem logótipos de televisões, simulam painéis de debate, fabricam comentários nas redes sociais. A fraude não é apenas financeira; é perceptiva.

3. “Se isto é tão evidente, porque continua a circular impunemente?”
Copilot: Porque o sistema de proteção pública está atrasado face à velocidade da fraude digital. Há quatro falhas principais:
- A tecnologia corre mais depressa do que a lei.
- As plataformas digitais não travam o problema.
- As autoridades têm meios limitados e jurisdição curta.
- A literacia digital da população é insuficiente.
4. “Então o que está a falhar?”
Copilot: Falha a capacidade de resposta – legal, tecnológica, institucional e cultural – face a fraudes que usam inteligência artificial (IA) para manipular a perceção pública.

5. “E o que deveria ser feito?”
Copilot: Responsabilizar plataformas digitais por anúncios financeiros falsos.
Criar uma unidade nacional de combate a fraudes digitais.
Investir em educação digital, para que qualquer cidadão reconheça sinais de fraude.
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6. A confusão entre factos reais e deepfakes
Há um detalhe que explica por que estas fraudes são tão eficazes: existiu realmente um debate televisivo em que Mário Centeno, então governador do Banco de Portugal, se levantou e abandonou o estúdio durante um confronto com André Ventura. O episódio foi amplamente comentado e ficou na memória pública.
Os burlões exploram, precisamente, essa lembrança real para fabricar vídeos falsos com outras figuras públicas – como Álvaro Santos Pereira –, usando deepfakes que imitam o formato televisivo e que recriam o gesto de abandono do debate. Misturam um facto verdadeiro com uma falsificação sofisticada, criando a sensação de que “isto já aconteceu”, quando, na verdade, nunca aconteceu com as pessoas que aparecem nos vídeos fraudulentos. A verificação da Lusa confirma que Álvaro Santos Pereira nunca abandonou nenhum programa de televisão, e que tudo isto é parte de um esquema fraudulento que usa IA para promover plataformas de criptoativos.

7. Uma breve bicada necessária: a falta de educação digital
Durante décadas, ensinámos Matemática, História, Gramática – mas não ensinámos como reconhecer uma fraude online, como verificar a autenticidade de um vídeo, como identificar manipulação digital, como proteger dados pessoais.
A escola não preparou os cidadãos para o mundo em que vivem.
E o Estado não preparou o país para o mundo que já chegou.
A literacia digital não é um luxo tecnológico: é uma forma de defesa cívica.

8. Conclusão: quando a perplexidade se transforma em responsabilidade
O que me espantou inicialmente – a invasão das redes sociais por fraudes com figuras públicas – tornou-se, após este diálogo, um diagnóstico claro: a fraude digital ultrapassou a capacidade de resposta das instituições.
Mas há algo que não ultrapassou: a responsabilidade cívica de cada um de nós.
Perguntar, esclarecer, denunciar e educar são atos de cidadania.
Este artigo é apenas um contributo. Que sirva para iluminar os incautos, para alertar os atentos e para incomodar os responsáveis.
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27/08/2026