A batalha invisível das elites
(jornalopcao.com.br)
Vivemos num tempo em que duas hierarquias disputam silenciosamente o futuro das sociedades. A primeira é a hierarquia da educação, dos valores, da cultura, do saber, da investigação e da honestidade. A segunda é a hierarquia do poder, da corrupção, do negócio, da publicidade e da comunicação inquinada. São duas formas de organizar o Mundo e de formar elites.
A elite do saber nasce da escola, da investigação, da cultura democrática. É lenta, exigente, paciente. Requer professores, bibliotecas, universidades, liberdade de pensamento e responsabilidade pública.

A elite do poder nasce do dinheiro, da influência, da propaganda e da capacidade de manipular emoções. É rápida, agressiva, imediata. Requer controlo da comunicação, domínio económico e capacidade de transformar cidadãos em consumidores. Estas duas elites coexistem, mas raramente cooperam. O mundo contemporâneo tornou‑se o palco onde este conflito se tornou global.

Há países onde o poder domina a educação: Rússia, China, Índia, Coreia do Norte. São sociedades em que o Estado controla a comunicação, em que a escola é instrumental, em que a investigação é subordinada ao poder e em que o nacionalismo substitui a cidadania. E há países onde a educação domina o poder: os do Norte da Europa, que colocam a escola, a empatia e o bem‑estar no centro das políticas públicas. Ali, a elite do saber é a elite do poder.
Entre estes dois modelos, surgem líderes que declaram territórios como se fossem bens pessoais – a Gronelândia, o Golfo de Ormuz, Cuba –, revelando a regressão para um mundo pré‑democrático, onde a lei é substituída pela vontade do chefe. É o triunfo da elite do poder sobre a elite do saber.
As religiões, ao longo da História, deixaram marcas profundas neste dualismo. Foram decisivas na construção do mundo que temos – com virtudes e defeitos. Criaram escolas, preservaram manuscritos, ensinaram a ler e a contar quando o Estado não o fazia. Sem elas, a Europa teria perdido parte da sua memória escrita. Mas também legitimaram poderes, moldaram obediências e, por vezes, perseguiram quem pensava de forma diferente. Da beatitude à fogueira dos ateus, da caridade à censura, construíram modelos que ainda hoje influenciam a política. A sua contribuição para a educação foi real, mas limitada: formaram elites, não povos.
Os novos poderes – rádio, televisão, Internet e redes sociais – ampliaram a força da propaganda. A publicidade transformou cidadãos em consumidores. O comércio global contaminou a saúde pública, a opinião pública e até a gestão das calamidades: cheias, incêndios, epidemias. A elite do poder ganhou um novo braço: a elite da comunicação.

E Portugal? Entre a herança do analfabetismo até às portas do século XXI e a educação das elites, o país vive num limbo histórico. Durante séculos, a escola foi pensada para poucos. O povo ficou de fora. A emigração foi sina e destino.
Ontem, emigravam os pobres; hoje, emigram os letrados. Formamos médicos, enfermeiros, engenheiros e investigadores para que outros países beneficiem do seu talento. Investimos na educação, mas não investimos nas condições para que os educados permaneçam. A elite do saber continua pequena; a elite do poder económico continua forte.
A pergunta é simples e urgente: que mundo queremos ser? O da educação, da cultura e da empatia ou o do poder, da propaganda e da desigualdade.
.
17/09/2026