Canadá ponderou estatuto de membro associado da UE e conseguiu

 Canadá ponderou estatuto de membro associado da UE e conseguiu

(Créditos de imagem: Igor Kyryliuk & Tetiana Kravchenko – Unsplash)

A 13 de setembro, o jornal norte-americano Wall Street Journal (WSJ) noticiou que o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, está a estudar uma maior aproximação à União Europeia (UE), incluindo a hipótese de se tornar “membro associado” do bloco – estatuto que não existe, mas a UE parece aberta à criação de fórmulas especiais de associação, segundo responsáveis europeus e canadianos que prestaram declarações ao Wall Street Journal, sob anonimato.

Primeiro-ministro canadiano, Mark Carney. (Créditos
fotográficos: Lea-Kim – pt.wikipedia.org)

A notícia surgiu antes do discurso de Carney no Parlamento Europeu (PE), em Estrasburgo, a 17 de setembro, para apresentar a sua visão para as relações Canadá-UE, num contexto geopolítico difícil. Com efeito, Otava está envolta numa guerra comercial histórica com os Estados Unidos da América (EUA), com tarifas elevadas em vigor e sem sinais de alívio, e Bruxelas não tem uma relação económica e diplomática incontroversa com Washington.

Por conseguinte, a UE e o Canadá querem reforçar as trocas de bens, serviços e trabalhadores, sobretudo, em áreas como a energia, a inteligência artificial (IA), a defesa e os minerais críticos. Nesse sentido, as duas entidades discutem projetos conjuntos, incluindo cabos submarinos, centros de dados, infraestruturas de nuvem e redes de satélites. E o Canadá pretende aumentar as exportações de energia para a Europa. Contudo, garantir o estatuto de membro associado revela-se difícil, visto que a UE tem regras rigorosas de adesão e um longo processo para alterar os seus enquadramentos, o que pode conhecer alguma flexibilização, mercê do impacto da presidência de Donald Trump, marcada por tarifas e ameaças dos dois lados do Atlântico.

O chanceler alemão Friedrich Merz. (Créditos fotográficos:
Sandro Halank – pt.wikipedia.org)

O chanceler alemão Friedrich Merz apresentou, no início do ano, a sua visão para um estatuto de membro associado, pensado para a Ucrânia, mas aplicável, potencialmente, ao Canadá. O modelo aprofundaria os laços com a UE, sem exigir adesão plena.

O presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, têm agendada, para a próxima semana, uma visita ao território francês de Saint-Pierre e Miquelon, situado a cerca de 20 quilómetros da costa atlântica do Canadá. Segundo Paris, a visita vinca as relações estreitas entre os dois países, em maré de tensão com os EUA. Efetivamente, o inquilino da Casa Branca, a 14 de setembro, em provocação, publicou, no Truth Social, a imagem do mapa da América do Norte com a bandeira dos EUA sobre territórios ultramarinos franceses, incluindo Saint-Pierre e Miquelon, Guadalupe e Martinica, bem como a Islândia, a Gronelândia, o México, o Canadá e grande parte da América Central e das Caraíbas.

Território francês de Saint-Pierre e Miquelon, situado a cerca de 20 quilómetros da costa atlântica do Canadá.(Créditos fotográficos: Courtesy of Kévin Dumarcet Belbéoc’h – pt.euronews.com)

Neste contexto, como indicou, em Paris, o Palácio do Eliseu a visita em causa servirá para destacar os valores partilhados pela França e pelo Canadá, nomeadamente, “liberdade, democracia, Estado de direito e respeito pela soberania dos Estados”, face a um Mundo marcado pelo regresso da política de poder, por tensões geopolíticas e por novas formas de dependência, mas em que a França e o Canadá não receiam partilhar a “ambição comum” de “reforçar a capacidade de agir de forma autónoma. Segundo a presidência francesa, será a primeira visita de um primeiro-ministro canadiano ao arquipélago e será a primeira de um presidente francês, nos últimos 12 anos, pois François Hollande visitou o território em 2014.

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Estava previsto que o primeiro-ministro canadiano discursasse no PE, a 17 de setembro, depois de, no dia anterior, assistir ao discurso da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sobre o Estado da União, que define as prioridades políticas e a orientação estratégica da UE.

Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu.
(© European Union – pt.wikipedia.org)

Embora não seja invulgar o PE ter convidados de honra, o convite dirigido a Carney tem carga mais política, agora, do que em anos anteriores, quando Bruxelas optou por figuras da sociedade civil e centrou as atenções na Ucrânia. E a data coincide com a promessa de Carney de procurar uma parceria cada vez mais estreita com a UE, numa altura em que a guerra comercial entre os EUA e o Canadá se agrava num confronto histórico entre os dois países. “A importante visita do primeiro-ministro será uma oportunidade para aprofundar os laços UE-Canadá e reforçar a nossa relação”, escreveu a presidente do PE, Roberta Metsola, no X.

Recentemente, as conversações comerciais entre o Canadá e os EUA colapsaram, após meses de negociações difíceis, com Otava a acusar Washington de interferir na sua soberania, ao exigir concessões, quanto à língua francesa, de limitar a sua capacidade de concluir acordos comerciais separados e de apresentar exigências excessivas em troca de muito pouco. E administração Trump alega que o Canadá é protegido pelos EUA, que investiu menos na defesa e que Carney está a usar táticas de “tough guy” (ou do “homem durão”).

A 24 de agosto, os EUA impuseram direitos de importação de até 50%, sobre produtos canadianos no valor de 20 mil milhões de dólares (17 mil milhões de euros). Por sua vez, o Canadá afirmou que responderia com tarifas de retaliação “dólar por dólar”, numa escalada sem precedentes entre os dois vizinhos norte-americanos.

Vista de Toronto a partir de Ontário, com o lago no meio. (Créditos fotográficos: SYSS Mouse – pt.wikipedia.org)

O presidente dos EUA afirmou, em agosto, que estava também a ponderar mudar o nome do lago Ontário para “lago América”, na sequência da decisão de rebatizar o golfo do México como golfo da América. Donald Trump refere-se, repetidamente, ao Canadá, como estado dos EUA, e questionou a fronteira entre os dois países, aduzindo que foi traçada, de forma arbitrária, “com uma régua”. Carney, por seu turno rejeitou a medida, afirmando que os canadenses o chamarão de Lago Ontário, “agora e para sempre”.

O primeiro-ministro canadense, desde o Fórum Económico Mundial de Davos 2026 (EWF 2026) tem defendido a criação de uma coligação das potências intermédias, numa altura em que a ordem internacional está em convulsão, com os EUA a prosseguirem uma agenda agressiva de tarifas e a exigirem maior alinhamento, por parte dos seus aliados.

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Em decisão surpreendente, o primeiro-ministro canadiano afastou-se das negociações comerciais com os EUA, outrora o aliado mais próximo do país. Embora as repercussões económicas permaneçam incertas e possam ser graves, o antigo banqueiro central esclareceu que a soberania não é um preço que o Canadá esteja disposto a pagar. E denunciou as condições propostas por Washington como um “mau acordo”, que violariam o uso da língua francesa no Canadá, protegida pela Constituição, e a capacidade do país de celebrar acordos comerciais com outros Estados. “Está-se em guerra, quando se é atacado, e nós fomos atacados”, afirmou Carney, prometendo retaliar “dólar por dólar” contra o vizinho.

Toronto, Ontário, no Canadá. (Créditos fotográficos: Adriana Macias – Unsplash)

Os efeitos poderão ser dolorosos: tarifas elevadas sobre 20 mil milhões de dólares, em bens canadianos, e cerca de 87 mil empregos diretos e indiretos em risco. E a situação pode piorar, rapidamente. O presidente dos EUA anunciou nova vaga de tarifas contra o Canadá, alimentando o ciclo de retaliações. Este choque espetacular tem sido comparado com a situação da UE, que tem sido alvo das sempre crescentes exigências da Casa Branca e das táticas negociais de uma administração Trump obcecada com os défices comerciais e disposta a usar todos os instrumentos para pôr a América em primeiro lugar.

Bruxelas procura conter a pressão norte-americana para desmantelar regras ambientais, de sustentabilidade e digitais, enquanto tenta manter vivo o desequilibrado acordo comercial UE-EUA fechado em Turnberry, na Escócia, em 2025. Porém, em julho, Trump disse que a UE pagaria um “preço muito elevado”, depois de a Comissão Europeia ter aplicado a multa de 800 milhões de euros à Google, por alegadas práticas de autopreferência e de tratamento injusto de programadores de aplicações. “Prevemos que lhes seja aplicada uma tarifa substancial no mais curto prazo possível”, afirmou Trump.

Por tudo isto, há razões para a UE tomar uma decisão ao jeito de Carney; e a principal é a determinação em proteger o seu direito de regular e em fazer cumprir normas no seu território, linha vermelha que Bruxelas considera intransponível.

Estação Nord, nordeste da Groenlândia. (Créditos fotográficos: NOAA – pt.wikipedia.org)

Diplomatas da UE assinalam que o recuo de Trump na tentativa de adquirir a Gronelândia e a sua decisão de lançar, unilateralmente, a guerra contra o Irão, agitando os mercados de energia, reforçam a vontade coletiva de se fazer ouvir e de resistir. Outro fator que pode encorajar a UE a afastar-se é a sua dimensão de segunda maior economia mundial. E tanto o Canadá como a UE registam, há muito, um excedente em bens e um défice em serviços nas trocas com os EUA.

Pela sua localização geográfica, o Canadá depende, estruturalmente, do mercado norte-americano: cerca de 75% das exportações canadianas de bens têm como destino os EUA. No caso da UE, cujas ligações comerciais são muito mais diversificadas, a quota desce para 21%. Em princípio, isso dá à UE maior margem de manobra e almofada mais robusta para suportar uma guerra comercial com os EUA, se julgar necessário esse caminho.

Durante as negociações que precederam o acordo de Turnberry, a Comissão Europeia preparou uma lista de bens norte-americanos, no valor de 93 mil milhões de euros, a serem alvo de eventual retaliação equivalente. Essa lista, que se mantém válida, seria a primeira linha de defesa. E dirigentes da UE colocaram em cima da mesa a hipótese de ativar o Instrumento Anticoerção (ACI), que permite contramedidas, além das tarifas tradicionais, como excluir empresas estrangeiras de concursos públicos ou suspender, parcialmente, a proteção de direitos de propriedade intelectual. Tal instrumento ganhou nova importância, quando Trump reforçou as ameaças contra a Gronelândia e contra as regras ambientais e digitais do bloco.

Horizonte de Toronto, no Canadá. (Créditos fotográficos: Touann Gatouillat Vergos – Unsplash)

Por outro lado, está a ganhar força, na Europa, a ideia de que a China representa o desafio mais sistémico à segurança económica, e poucos querem travar guerras comerciais simultâneas com Washington e com Pequim. Assim, embora a UE disponha de argumentos e de instrumentos sólidos para se afastar, tem dificuldade em reunir a coragem de Carney para o fazer. Com efeito, desde que Trump anunciou tarifas abrangentes, os 27 estados-membros apressaram-se a fechar fileiras em torno da Comissão Europeia. Alguns, entre os quais a França, a Espanha e os países nórdicos, apelaram a que Bruxelas se mantivesse firme e retaliasse contra condições injustas, mas outros, como a Alemanha, a Itália e a Irlanda, defenderam um compromisso, custe o que custar, para evitar confrontação total prejudicial.

Ora, esta cacofonia e os interesses nacionais concorrentes limitaram a margem da Comissão e levaram à produção de acordo que não deixou ninguém satisfeito. A UE não tem estratégia comum para lidar com Trump, fragilidade que os EUA vêm explorando.

Primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford. (Créditos
fotográficos: Embaixador Pete Hoekstra – pt.wikipedia.org)

Em contraste, Carney conseguiu unir o Canadá em seu redor. Após o colapso das conversações, as províncias canadianas apoiaram, rapidamente, Carney. O primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, cujo setor industrial sairá prejudicado do confronto, manifestou “total apoio a uma resposta firme – tarifa por tarifa, dólar por dólar”. E sondagem recente indica que 76% dos canadianos considera que Carney tomou a decisão certa.

Para o primeiro-ministro canadiano, confrontar Trump faz sentido, politicamente, por capitalizar a antipatia generalizada de muitos canadianos, em relação ao presidente norte-americano, que tem sugerido transformar o Canadá no 51.º Estado dos EUA.

Outro fator decisivo, que levará a UE a pensar duas vezes, é a Ucrânia. Bruxelas reconhece que o acordo comercial UE-EUA foi, em parte, motivado pelo desejo de manter Trump envolvido no esforço de pôr fim à guerra da Rússia. A posição do líder norte-americano sobre o conflito mudou, drasticamente, alimentando a ansiedade entre os Europeus, cônscios de que não podem substituir os serviços de informação dos EUA, nem os sistemas de defesa aérea fabricados ali. 

Embora o Canadá seja firme defensor da Ucrânia, o seu papel no conflito é limitado. Todavia, uma saída europeia poderia dar a Trump conveniente pretexto para retaliar, desligando-se, totalmente, da Ucrânia. Aliás, na opinião de alguns observadores, já o fez.

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No seu discurso sobre o Estado da União, a 16 de setembro, a presidente da Comissão Europeia saudou, entre aplausos, a presença de Carney no PE e disse que “precisamos de repensar, urgentemente, as nossas parcerias”, pelo que se propôs trabalhar com ele, “para abrir a porta a que o Canadá seja o primeiro membro associado da UE”.

Sulphur Mountain, Distrito de Melhoramento nº 9, AB, no Canadá. (Créditos fotográficos: Maxime Doré – Unsplash)

Depois, enfatizou que a UE e o Canadá têm em comum a crença de que “o poder não pertence ao mais forte, rico ou barulhento, mas a todos nós”, e que “as democracias têm a liberdade de escolher com quem trabalhar”. Foi a partir daqui que justificou novo passo político: a passagem do acordo CETA (tratado comercial entre a UE e o Canadá) para uma “aliança para o futuro”, com trabalho conjunto, na área da tecnologia, na integração de bases industriais de defesa, na energia, nos minerais críticos, nas baterias, na inteligência artificial (IA), na segurança económica e no Ártico, enquanto “projeto comum”.

A cooperação económica e de segurança entre os dois parceiros deverá ser aprofundada numa cimeira, em Montreal, no mês de outubro.

Sobre o Estado da União, Ursula von der Leyen anotou que é “o mais forte de sempre”, mas que “dá a sensação de ser o mais precário de sempre”. “São declarações aparentemente incompatíveis, mas ambas verdadeiras, que refletem estes tempos excecionais”, afirmou.

Centro de Montreal, no Canadá. (pt.wikipedia.org)

No contexto de uma era complexa com “grandes possibilidades” e com “grandes perigos”, prosseguiu, vincando que “a Europa escolheu o seu próprio caminho” e “está a emergir uma Europa mais forte e independente”, designadamente, no investimento na defesa e no apoio coletivo, sendo exemplos a Ucrânia e a Gronelândia, “quando drones, ataques híbridos ou desinformação têm as nossas democracias como alvo”.

Na ótica da presidente da Comissão, “na fragilidade fria do Mundo atual, só a Europa pode dar verdadeira soberania aos Europeus”, mas tem de superar o desgaste de relações antigas (referência à ligação com os EUA), os conflitos, a competitividade industrial e a “batalha de narrativas”. Efetivamente, “estamos a lidar com um Mundo abertamente hostil”, o que deve levar a enfrentar os desafios que se traduzem em dificuldades para os Europeus, nomeadamente, pela contenção do custo da habitação e pela mitigação do impacto que têm na democracia.

Referiu o défice comercial com a China, que chegou ao ponto de rutura, e a ambivalência da IA, que deve ser utilizada com cautela e humanismo, mas aproveitando as suas potencialidades.

E lançou o repto: “Queremos unir-nos em torno da nossa ideia europeia de que podemos decidir o nosso próprio destino? Ou vamos deixar que as nossas democracias sejam enfraquecidas pelos representantes e fantoches dos autoritários?”. A crítica é também interna, com menções a “ultranacionalistas” e a “antieuropeus”.

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Em suma, é necessária uma grande frente comum – tão alargada quanto possível – que modere a excessiva ambição dos EUA, no seu pretenso papel de polícia do planeta.

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21/09/2026

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Louro Carvalho

É natural de Pendilhe, no concelho de Vila Nova de Paiva, e vive em Santa Maria da Feira. Estudou no Seminário de Resende, no Seminário Maior de Lamego e na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi pároco, durante mais de 21 anos, em várias freguesias do concelho de Sernancelhe e foi professor de Português em diversas escolas, tendo terminado a carreira docente na Escola Secundária de Santa Maria da Feira.

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