O que fazer se Sua Excelência não responde?

 O que fazer se Sua Excelência não responde?

(Créditos de imagem: Joao Cruz – Unsplash)

Se todos os tempos parecem exigir que as suas verdades sejam proclamadas – das mais elementares às mais complexas, das canónicas às acabadas de descobrir –, também este espaço se presta a tão encantador serviço. Eis, pois, a verdade absoluta da semana: jornalismo não é sinónimo de transmissão de informação.

Para transmitir informação, principalmente nos dias que vivemos, não faltam meios ou protagonistas. O jornalismo, quando exercido by the book, à altura dos princípios que historicamente o instituíram como um dos pilares fundamentais da vida democrática, reclama algo mais. Não será necessário perdermo-nos numa enumeração interminável das suas funções; bastam algumas perguntas para perceber a dimensão do que está em causa. Quem informa os cidadãos sob condições de independência e rigor? Quem seleciona e hierarquiza aquilo que, entre a torrente incessante de acontecimentos, merece adquirir relevância pública – naturalmente, sob aquelas mesmas condições? Quem torna inteligíveis realidades de elevada complexidade para públicos que, sem este trabalho de mediação, dificilmente disporiam dos instrumentos necessários para as compreender? É precisamente neste intervalo, algures entre fazer circular informação e torná-la pública, relevante, escrutinável e inteligível, que começa aquilo a que propriamente chamamos jornalismo.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Por associarmos a este ofício todas as premissas supracitadas, impõem-se dois deveres complementares: não o desmerecer, por um lado; criar condições para que cumpra as suas funções essenciais, por outro. Dito de outro modo: fazer pelo jornalismo aquilo que o Governo não tem vindo a fazer – e, sobretudo, aquilo que parece ainda menos disposto a fazer nesta sua segunda vida. O desmerecimento, tão próximo da má educação que, por vezes, chega a roçar o inconveniente, foi tratado por André Carvalho Ramos com a propriedade e o fundamento devidos. Também o signatário desta coluna regressaria ao tema, num momento posterior, condensando num título o espetáculo a que, neste particular, vínhamos assistindo: “O paradoxo da tendência amacacada”

Recomendo, portanto, que demos este capítulo por tratado. Interessa agora a outra dimensão do problema, porventura menos vistosa, mas bastante mais consequente: a criação das condições necessárias para que o jornalismo possa desempenhar as funções que justificam a sua relevância democrática. Se delas depende, em boa medida, a saúde do sistema que tão confortavelmente tomamos por adquirido, defendê-las não pode resumir-se a proclamar a importância do jornalismo sempre que chega a ocasião cerimonial para o fazer. Há um ponto de partida particularmente oportuno para discutir a distância entre proclamação e prática: o mais recente comunicado do Sindicato dos Jornalistas (SJ).

Foi na passada sexta-feira, 18 de setembro, que o SJ lançou um apelo pouco dado a ambiguidades: sempre que o primeiro-ministro, Luís Montenegro, pretenda fazer declarações sem admitir perguntas, as redações e as direções de informação deverão ponderar não enviar jornalistas para as acompanhar. O título do comunicado dispensava grandes exercícios de interpretação – “Se Montenegro não aceita perguntas, boicotem as declarações” – e traduz o endurecimento de posição perante uma prática que, segundo o Sindicato, se vem tornando habitual: a realização de declarações públicas do chefe do Governo sem o subsequente escrutínio dos jornalistas.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

O episódio mais recente ocorrera na véspera. Após o Conselho de Ministros, Luís Montenegro apresentou publicamente as medidas aprovadas pelo Governo, mas não se disponibilizou para responder a questões. A ocasião terá funcionado como a gota que fez transbordar um copo já generosamente preenchido. Perante aquilo que considera uma sucessão de situações semelhantes, o SJ concluiu que, “se não permitem colocar questões, não devem estar jornalistas presentes”. Poderia fechar aqui as aspas e avançar, finalmente, para o argumento desta coluna, reclamando para estas linhas alguma réstia de autoria. Não o farei – o próprio comunicado do SJ encarrega-se, com notável precisão, de formular aquilo que me preparava para escrever: “Impedir perguntas é impedir a prática jornalística. É imperiosa a necessidade de questionar as pessoas em posições de poder, sejam decisores públicos ou privados. Sem essa hipótese, transmitir as suas declarações é participar num exercício de propaganda – mais vale que enviem um comunicado de imprensa.”

(Créditos de imagem: Bogomil Mihaylov –Unsplash)

Logo que aos jornalistas se reserva somente o serviço de pé de microfone, em momento algum se lhes permite fazer verdadeiro jornalismo. É uma opção que aqui se considera ilegítima, embora perfeitamente possível à luz de práticas que, a esta altura, já pouco têm de novidade. A democracia perde sempre alguma coisa quando o poder se habitua a falar sem se sujeitar a ser interrogado; perde ainda mais quando, para este exercício, requisita ao jornalismo a visibilidade que lhe convém enquanto lhe recusa o escrutínio que o justifica. Impedir a pergunta significa amputar uma das funções mais elementares da mediação jornalística; sem ela, resta pouco mais do que uma transmissão assistida de mensagens cuja oportunidade e condições de circulação são inteiramente definidos por quem as profere.

Aplaude-se o Sindicato dos Jornalistas pela firmeza demonstrada perante um Governo que parece andar confundido quanto a algumas das exigências fundamentais da vida democrática. E guarda-se já outro aplauso, com o devido entusiasmo, para a classe jornalística – à espera apenas do momento em que esta posição deixe o comunicado e entre nas redações.

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24/09/2026

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Lourenço Ferreira

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Lourenço Silva Ferreira é doutorando em Ciências da Comunicação, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos relacionados com o populismo, a esfera pública e a democracia. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

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