Uma cunha de quatro milhões

 Uma cunha de quatro milhões

(rtp.pt)

Como noticiou a RTP numa reportagem de dezembro de 2018, Verónica Matos foi a primeira subscritora de uma petição com quatro mil assinaturas que levou o Estado a comparticipar um medicamento para a atrofia muscular espinhal. O filho, Rui, tinha cinco anos nessa altura e estava na lista de espera para receber o tratamento. Mesmo depois de o Estado ter aceitado comparticipá-lo, Rui continuou à espera. “Era bom que começasse o tratamento antes de fazer seis anos”, disse Verónica à RTP.

Verónica Matos e o filho, Rui Matos. (rtp.pt)
Verónica Matos (rtp.pt)

Segundo o Infarmed – Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (num comunicado de 14 de outubro de 2021), o financiamento público alargado do Zolgensma – para todos os doentes com atrofia muscular espinhal tipo 1 – só foi aprovado nessa data. A doença atinge, como refere a mesma fonte, cerca de uma em cada 11 mil crianças. Em 2019, Portugal tinha 110 doentes identificados, sendo 80 deles crianças.

Marcelo Rebelo de Sousa, ex-Presidente da República. (© CNN)

O tempo, nesta doença, não é um detalhe. Como esclarecem a Associação Brasileira de Neurologia e a literatura médica revista pela Sociedade Brasileira de Pediatria, os tratamentos para a atrofia muscular espinhal não recuperam os neurónios motores nem o tecido muscular já perdidos – só travam a perda futura. Crianças tratadas antes de os primeiros sintomas aparecerem chegam a adquirir capacidades motoras que, tratadas depois, nunca teriam. Ou seja, não é só uma questão de “quando” o remédio chega. É uma questão do que ainda resta para salvar, quando chega. Duas gémeas não esperaram por essa aprovação.

Vivenda em São Domingos de Rana (no município de Cascais),
onde vivia a  família das gémeas.(© CNN Portugal)

Como informou o Observador (especial “Caso das gémeas”, 2024-2026), a mãe, Daniela Martins, recebeu ajuda de Juliana Vilela Drumond – agente de seguros no Brasil, nora do ex-Presidente da República, casada com Nuno Rebelo de Sousa, filho mais velho de Marcelo Rebelo de Sousa. O contacto, considerando a mesma fonte, chegou a Nuno Rebelo de Sousa por WhatsApp, através de uma conhecida comum, com documentos médicos e um pedido de informação sobre especialistas em Portugal. Um primeiro hospital tinha recusado o tratamento. Depois desse contacto, o pedido avançou.

António Levy Gomes, neuropediatria e chefe de Serviço
Pediatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, denunciante
de caso. (© CNN)

Conforme a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (citada pelo Observador e pela CNN Portugal), o acesso a essa consulta foi ilegal. De acordo com o Ministério Público, três pessoas são arguidas por suspeita de burla qualificada, abuso de poder, prevaricação e tráfico de influência: Nuno Rebelo de Sousa, o ex-secretário de Estado da Saúde António Lacerda Sales, e o ex-diretor clínico do Hospital de Santa Maria, Luís Pinheiro.

Nuno Rebelo de Sousa, filho do ex-Presidente da República.
(© CNN)

Como foi confirmado pela comissão parlamentar de inquérito (relatório final, março de 2025), houve “intervenção especial” da Casa Civil – mas nenhuma ilegalidade. Duas conclusões do Estado, sobre o mesmo facto, que não batem certo uma com a outra.

O tratamento custou, segundo o Infarmed, quatro milhões de euros – sem fila, sem lista de espera, sem os dois anos que Rui Matos e mais de oitenta outras crianças esperaram.

Não foi milagre. Foi contacto. A própria mãe das gémeas, com base num áudio revelado na comissão parlamentar de inquérito e reportado pela Flash!, descreveu o que fez por palavras próprias: disse ter acionado “o pistolão”.

Samir Assad Filho e Daniela Martins, pais das gémeas.
(© CNN /Instagram)

Refira-se, para que não fique por dizer: segundo a CNN Portugal (em novembro de 2023), o pai das gémeas, Samir Assad Filho, é réu no Brasil por uma dívida ao fisco de cerca de 360 a 372 milhões de reais – perto de 67,5 milhões de euros na cotação da altura –, por crimes fiscais ligados a uma empresa de importação entre 2010 e 2011 . As crianças tinham, por via dos avós, direito à nacionalidade portuguesa e, com ela, acesso legítimo ao SNS – isso nunca esteve em causa. A questão não é essa. A questão é o “pistolão”.

Pais das gémeas, Samir Assad Filho e Daniela Martins. (© CNN)

E mesmo tendo esse direito, ele não bastou sozinho. Como informa o Observador, as gémeas nem sequer tinham número de utente do Serviço  Nacional de Saúde (SNS) atribuído quando o processo começou – tiveram de o pedir ao mesmo tempo que pediam a consulta de urgência. Fica, então, a pergunta mais simples: uma família com o mesmo direito à nacionalidade, mas sem um contacto na Casa Civil do Presidente, teria conseguido o número de utente a tempo, de modo que a consulta seguisse com a mesma rapidez? A doença não espera pela burocracia normal – só esperou, desta vez, meses a menos do que o costume.

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O mesmo desenho, noutro país

Gianni Infantino durante o jogo Argentina x Espanha na final da
Copa do Mundo FIFA de 2026. (pt.wikipedia.org)

O “pistolão” não é português. Como menciona uma reportagem da Folha de S. Paulo (de 31 de março de 2026, citada pela CNN Brasil), o ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Alexandre de Moraes, viajou, pelo menos, oito vezes, entre maio e outubro de 2025, em aviões de empresas ligadas a Daniel Vorcaro, dono do falido Banco Master – por vezes acompanhado da mulher. O gabinete de Moraes negou por completo, chamando à reportagem “fantasiosa” e garantindo que o ministro “jamais” viajou nesses aviões.

Segundo relatório da Polícia Federal (divulgado em setembro de 2026), Vorcaro escreveu a Moraes, às 18h22 de 15 de novembro de 2025 – dois dias antes de ser detido a tentar embarcar para o Dubai –, perguntando: “Acha que segunda já tenho que estar fora?” Nenhum tribunal decidiu, até hoje, o que essas mensagens significam. Fica a pergunta, não a sentença.

Joshua Kushner é um empresário e investidor norte-americano.
É o fundador e sócio-gerente da empresa de capital de risco
Thrive Capital e co-fundador da Oscar Health. (pt.wikipedia.org)

Não é preciso ir tão longe para ver o padrão: um telefonema entre conhecidos, um jato entre amigos – é a mesma arquitetura, dos dois lados do Atlântico. Sem clube secreto nenhum por trás; só quem está lá dentro a resolver as coisas entre si, enquanto quem está de fora faz fila.

O “clubinho dos amigos” não fica só nos relvados nacionais. A FIFA (Federação Internacional de Futebol) e a Casa Branca, segundo a SpaceMoney (citando a declaração financeira oficial de Donald Trump), também sabem trocar favores: o presidente da FIFA, Gianni Infantino, ofereceu a Trump dez bilhetes, avaliados em 15 mil dólares, para a final do Mundial de Clubes de 2025, onde Trump entregou o troféu ao lado dele. Infantino criou ainda um “Prémio da Paz da FIFA” para homenagear Donald Trump, depois de este não ter sido reconhecido pelo Comitê Norueguês do Nobel, que é o órgão responsável pela seleção e atribuição do Prémio Nobel da Paz.

Folarin Jerry Balogun é um futebolista norte-americano que
atua como atacante pelo Mónaco e pela Seleção dos EUA.
(pt.wikipedia.org)

Como noticia a Gazeta do Povo, depois de um telefonema de Trump a Infantino sobre a expulsão do avançado norte-americano Folarin Balogun, o Comité Disciplinar da FIFA concedeu-lhe um indulto, permitindo-lhe continuar no torneio. Segundo o Brasil 247 e o “site” Atualidade Política, a FIFA negociava vender 21% de uma nova empresa, avaliada em 20 mil milhões de dólares, a investidores ligados à família de Trump, nomeadamente Joshua Kushner, irmão do genro do presidente, por 4,2 mil milhões de dólares; a UEFA (União das Federações Europeias de Futebol) criticou publicamente o negócio. Como diz a máxima do jornalismo de investigação: “Segue o dinheiro”. Neste caso, segue sempre para o mesmo tipo de sítio: perto de quem já está perto.

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O que a lei diz sobre todos nós

A Constituição da República Portuguesa começa por dizer, no seu artigo 13.º, que todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei. Ninguém pode ser privilegiado ou prejudicado em razão da sua situação económica ou social.

George Orwell escreveu, em 1 945, uma frase que Portugal não precisou de traduzir para entender: nos livros da quinta que ele imaginou, todos os animais eram iguais – só que uns eram mais iguais do que outros.

Fica a pergunta, sem resposta ainda: quantas das 110 pessoas que esperavam, em 2019, foram então tratadas? Quantas continuaram à espera? E quantas deixaram de precisar, porque o tempo, para esta doença, não perdoa quem não tem pistolão?

Denunciar o poder a quem manda nunca foi fácil, nem novo. Em setembro de 1770, no Piauí, uma mulher escravizada de 19 anos, Esperança Garcia, escreveu ao governador da capitania a denunciar os espancamentos que ela e a sua família sofriam. A carta só foi encontrada 209 anos depois, num arquivo, por um investigador – hoje, é lembrada como o primeiro registo escrito de denúncia feita por uma pessoa escravizada no Brasil.

Ministra do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Cármen Lúcia.
(conjur.com.br)

E julgar os próprios continua a ser o lugar mais difícil de todos: no Brasil, em setembro de 2026, o Supremo Tribunal Federal está dividido a meio sobre investigar um dos seus próprios ministros, Alexandre de Moraes, por mensagens trocadas com o banqueiro por trás do Banco Master. A ministra Cármen Lúcia é o voto que pode desempatar – foi pessoalmente manifestar solidariedade ao colega visado, sem revelar como viria votar, enquanto reconhecia, também, falhas na conduta dele. O caso continua por decidir.

Nenhuma das duas mulheres sabia, ao certo, se ia ganhar alguma coisa com o que fez. Isso também aconteceu, mais recentemente, do outro lado do Atlântico e por um motivo bem diferente: um ator norte-americano decidiu enfrentar publicamente uma das maiores fusões de media da História, sem saber se conseguiria travar o negócio – e ainda assim reuniu centenas de assinaturas de colegas e algum recuo por parte de quem tinha o poder de decidir. O resultado, em nenhum dos três casos, era garantido antes de começar. Fizeram na mesma.

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Fontes:

RTP, “Esperança para doentes com atrofia muscular espinhal. Estado paga tratamento” (dez. 2018). Infarmed, comunicado sobre financiamento do Zolgensma (14 out. 2021). Associação Brasileira de Neurologia, “Atrofia Muscular Espinhal (AME): Terapias Específicas”. Sociedade Brasileira de Pediatria, “Spinal Muscular Atrophy: Clinical features, diagnosis and management” (“Tratado de Pediatria”, 2024).

Observador, especial “Caso das gémeas” (2024-2026). CNN Portugal, “Mulher de Nuno Rebelo de Sousa é agente de seguros” (ago. 2024) e “Pai das gémeas tratadas no Santa Maria tem dívida de milhões ao fisco brasileiro” (nov. 2023).

Flash!, “A nora da polémica” (jul. 2024). CNN Brasil, “Moraes voou em aviões ligados a Vorcaro, diz jornal; ministro nega” (abr. 2026), citando Folha de S. Paulo. Relatório da Polícia Federal sobre a Operação Compliance Zero (set. 2026), citado por CNN Brasil, Voz da Bahia, Jovem Pan e Aliados Brasil. SpaceMoney, “Trump recebe ingressos da Fifa e se aproxima de Infantino” (jul. 2026). Gazeta do Povo, “Projeto da Fifa com família do genro de Trump é criticado pela Uefa” (jul. 2026). Brasil 247, “Escândalo no futebol: Infantino quer vender os direitos das Copas do Mundo aos parentes de Trump” (jul. 2026). Atualidade Política, “FIFA planeja vender fatia do esporte a grupo ligado a Trump e detona crise global”. Constituição da República Portuguesa, artigo 13.º. Academia Brasileira de Letras e Agência Brasil, sobre a carta de Esperança Garcia (1770). Poder360 e ND Mais, “STF está dividido e Cármen Lúcia será voto de Minerva sobre Moraes” (set. 2026).

Metrópoles, “Cármen Lúcia procura Moraes e presta solidariedade em meio à crise no STF” (set. 2026). Diário Carioca, “Cármen Lúcia vê erros de Moraes e Mendonça em crise no STF” (set. 2026).

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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28/09/2026

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Ana Paula Cruz

Ana Paula Cruz é jornalista investigativa, fotógrafa, compositora e escritora brasileira, radicada entre o Recife e Lisboa. Desenvolve o projeto VINCERE (código em “Python” e dados públicos e verificáveis), um eixo de investigação sobre fraude institucional, desigualdade estrutural e arquitetura do poder entre o Brasil e a Europa. Assina poesia e prosa sob o pseudónimo Cinza Viva; e fotografia sob o nome Apcruz. Tem licenciatura em Estudos Europeus; pós-graduação em Direito Penal e Medicina Forense, Compliance e Governança, além de estar na etapa final de um MBA (Master of Business Administration).

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