A certeza das convicções

 A certeza das convicções

Buenos Aires, na Argentina. (Créditos fotográficos: Sasha • Make Stories Studio – Unsplash)

Enquanto Buenos Aires ainda está muito presente em mim e de lá me vêm notícias de gente que contactei, vou procurando reintegrar-me nesta realidade em que a esfera pública é muito pequenina, repetitiva, cansativa; por isso mesmo, previsível e muitas vezes “rasteirinha”. Mas quero conservar, para uso interno, meu, pessoal, a força de gente que vi a viver na incerteza dos acontecimentos com a certeza das convicções.

Cidade de Buenos Aires, na Argentina. (Créditos fotográficos: Celso Costa – Unsplash)

Não quero reintegrar-me na incerteza de convicções com a certeza dos acontecimentos previsíveis e nada mobilizadores. Verei até onde resiste este sopro na minha alma. O mesmo que me fez um riso escarninho, mais do que desesperar, num autocarro expresso de Lisboa para o Porto, que se atrasou hora e meia porque os “inteligentes” que dirigem (neste caso, obras na estrada) se lembraram de cortar um troço da A1, numa sexta-Feira ao fim da tarde, num nó já de si complicado.

“Atenção: obras na estrada – seguir pela direita.” (dnoticias.pt)

As outras obras de que Portugal mais carece tornam-se, cada vez mais, as de misericórdia por uma Terceira República falida, que tem como única alternativa, por ora, uma Quarta República ainda pior, boçal, de antanho e completamente demagógica e aldrabona: na política, de forma evidentíssima, mas no resto também. Força, eu! Tens de resistir, Jorge! – bem como os mais, poucos, que sabem melhor do que este pobre “diabelho” que aqui escreve a catilinária: “Quo usque tandem, Portugalzinho, abutere patientia nostra?” (“Até quando, Portugalzinho, abusarás da nossa paciência?”)

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05/10/2026

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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