Morte dos rios põe em causa a subsistência da Humanidade no planeta

 Morte dos rios põe em causa a subsistência da Humanidade no planeta

O Tigre é o rio que, junto ao rio Eufrates, delimita a Mesopotâmia, cortando a Turquia, a Síria e o Iraque. (conhecimentocientifico.r7.com)

As grandes civilizações nasceram junto ao Tigre e ao Eufrates, na Mesopotâmia, e junto ao Nilo, no Egito – o chamado “Crescente Fértil” –, bem como junto ao Rio Amarelo, na China, e junto ao Indo e ao Ganges, na Índia. Posteriormente, enquanto Alexandre Magno atravessava vários rios (como o Granico, na Ásia Menor), para lograr as suas conquistas, Roma desenvolveu-se à beira do Tibre e do seu império fez-se a “civilização ocidental cristã”, a qual, hoje, na sua mais grave crise, devia ver-se espelhada nos rios que poluiu.

Rio Granico (Granicus), Mísia, na Turquia. (es.wikipedia.org)

O sociólogo brasileiro Ruben Siqueira, articulista do EcoDebate, sustentava, em 2021, que, no Brasil, os rios foram os caminhos de interiorização da civilização introduzida pelos Portugueses.

Porém, a civilização humana não se alimenta só da água; também toda a incomensurável e complexa biodiversidade é essencial para a sobrevivência do homem sobre a Terra. Hoje, nos campos e nas cidades, os rios estão moribundos, por causa da poluição das suas águas e dos solos que os margeiam. Preservar as águas, para muita gente, não pertence à lógica que rege o desenvolvimento. O nosso estilo de vida leva à corrosão dos recursos naturais e ao lixo excessivo. E as águas são as primeiras a sinalizar o início do fim.

(eco-escolas-esam.webnode.pt)

A combinação de terra, água, luz do Sol e o zelo, predominantemente, feminino originou a agricultura, há 12 mil anos. Desde então, a tecnologia evoluiu no controlo dos fatores naturais de produção agrícola, até ao ponto de prescindir deles. Em muitas áreas de cultivo, o solo não é mais do que o sustentáculo da planta e toda a nutrição é artificial, feita por microgotejamento eletrónico. O agricultor, sentado ao computador numa sala climatizada, vai teclando as quantidades de fertilizantes que sobem pela água bombeada do rio. Os gases libertados pelos fertilizantes químicos são dos piores de origem agropecuária, que respondem por 25% dos gases de efeito estufa (GEE) que aquecem o planeta. E os rios acabam por ser dos maiores destinos da maior parte dos produtos tóxicos (são-no, em termos relativos), só ultrapassados pelos oceanos (em termos absolutos).

Poluição por agrotóxicos. (pensamentoverde.com.br)

O modelo da moderna agricultura, chamada “Revolução Verde”, propôs-se “desenvolver” as áreas rurais. A concentração da terra e da água, das sementes e dos investimentos públicos em grandes empresas agropecuárias aumentou a produção, mas de produtos agrícolas brutos ou com pouca industrialização, cultivados ou criados em larga escala (servindo de matéria-prima para a fabricação de outros bens), como (soja, carne, suco de laranja e etanol) para exportação e para especulação no mercado de capitais. Cai o consumo de arroz e de feijão, o que significa má alimentação e fome. E as cidades violentas e inseguras, não param de inflar.

 (agroindustria.com.br)

Em muitos lugares, o campo ou ficou inculto ou esvaziou-se para domínio do agronegócio globalizado, de que resulta miséria camponesa e degradação ambiental. Expandem-se o agronegócio hidrointensivo e a onda dos agrocombustíveis, como pseudossolução para o aquecimento global, e intensifica-se a irrigação, que já consome 70% das águas disponíveis.

A par da irrigação e dos esgotos, as barragens e hidroelétricas condenaram muitos dos rios e não param de aumentar, sem que não se discutam os custos, nem para quê e para quem tanta energia.

Agricultura familiar ecológica. (idec.org.br)

No dizer de Ruben Siqueira, “um rio é como um espelho que reflete os valores de uma sociedade”, a nossa não vale o que bebe e come. Por isso, o sociólogo entende que, esgotado o “desenvolvimento”, urge recuperar o “envolvimento”. E, neste âmbito, só a agroecologia pode salvar a Humanidade, salvando a Terra, os rios, a agrobiodiversidade, os territórios, as tradições culturais, a soberania alimentar. Nisto, poderemos aprender muito com os povos originários, sobreviventes à colonização.

E Ruben Siqueira advertia que a gestão territorial e participativa das águas, através dos comités de bacias poderá até contribuir para piorar o quadro, se for subserviente aos interesses expansionistas do capital. Por isso, a luta maior é pela revitalização integral.

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O rio Citarum está localizado a oeste da ilha de Java, na Indonésia. (aguasabertasceara.blogspot.com)

Os rios mais poluídos do planeta são:

Rio Sarno, na Itália, considerado um dos mais poluídos da Europa.
(correiobraziliense.com.br)
  • o rio Citarum, na Indonésia, que sofre com o despejo diário de centenas de toneladas de lixo e de resíduos tóxicos, como chumbo, mercúrio e arsénico, vindos de mais de duas mil fábricas têxteis e do esgoto de milhões de habitantes (é o mais poluído de todos);
  • o rio Ganges, na Índia, um dos mais sagrados do país, contaminado por grandes volumes de esgoto não tratado, por resíduos químicos industriais e por restos de cremação religiosa;
  • o rio Yamuna, também na Índia, o principal afluente do Ganges (passa perto do Taj Mahal), que apresenta níveis críticos de matéria orgânica e de oxigénio quase nulo;
  • o rio Amarelo / Huang He, na China, muito afetado pela contaminação pesada, decorrente da mineração de carvão e do escoamento de indústrias ao longo da sua bacia;
  • o rio Buriganga, no Bangladesh, em Daca, considerado biologicamente morto, devido ao descarte direto de dejetos humanos e de resíduos tóxicos de curtumes; e
  • o rio Sarno, na Itália, considerado um dos mais poluídos da Europa, sofrendo com a forte pressão da agricultura intensiva e de descargas industriais com metais pesados.

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As secas cada vez mais extremas, no planeta, gritam, continuamente, que, sem água não há vida. Além de imprescindível para a sobrevivência de todos os seres vivos, é fundamental para o desenvolvimento socioeconómico, para a produção de energia e para a adaptação às mudanças climáticas. Porém, atualmente, o enorme desafio é a poluição dos rios, mas também dos mares, dos oceanos, dos canais, dos lagos e das barragens (está tudo em conexão) – o que põe em perigo a saúde de milhões de pessoas no Mundo.

As águas do Ganges descem limpas e cristalinas pela cidade indiana de Rishikesh, situada às portas do Himalaia. Nessas montanhas, ninguém dirá que é um dos leitos fluviais mais poluídos do Mundo, com concentrações de bactérias fecais, que chegam 31 milhões, por cada 100 mililitros, segundo a Fundação Sankat Mochan, organização que luta por devolver ao Ganges o antigo esplendor. Isto faz do rio sagrado símbolo da poluição hídrica, problema global que afeta um de cada três habitantes do planeta, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

Poluição no rio Ganges. (pensamentoverde.com.br)

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define água contaminada como a que sofre alterações na sua composição, até ficar inutilizável. É água tóxica que não pode ser bebida, nem usada em atividades essenciais, como a agricultura, que é fonte de insalubridade, que provoca mais de 500 mil mortes anuais, a nível global, por diarreia, e que transmite doenças, como a cólera, a disenteria, a febre tifoide e a poliomielite.

Segundo a origem, há diferentes tipos de poluição da água: a química, produzida por pesticidas, fertilizantes e metais pesados, que podem causar doenças, se forem consumidos; a biológica, causada por bactérias, por vírus e por parasitas resultantes de resíduos humanos e animais; a física, que ocorre, devido à presença de plásticos, de sedimentos e de resíduos que danificam os ecossistemas; a térmica, causada pela descarga de água quente das fábricas em rios e em lagos, aniquilando a fauna marinha; e a poluição por microplásticos e por partículas de plástico presentes na água e cujas consequências da sua ingestão estão em investigação.

Microplásticos avançam na Amazónia. (Créditos fotográficos: Paulo Bindá – acritica.com)

Os principais poluentes da água incluem bactérias, vírus, parasitas, fertilizantes, pesticidas, medicamentos, nitratos, fosfatos, plásticos, resíduos fecais e até substâncias radioativas, que nem sempre mudam a cor da água, de tal modo que a poluição hídrica é, muitas vezes, invisível, pelo que se utilizam análises químicas de pequenas amostras e de organismos aquáticos.

Embora a presença de plásticos no oceano tenha sido problema recorrente, ao longo dos anos, hoje, diferentes produtos poluentes afetam os ecossistemas marinhos. Os microplásticos são o grande perigo presente em todos os mares. Todavia, produtos, como os resíduos farmacêuticos, também poluem o meio aquático, sobretudo, através de águas residuais urbanas e industriais, e os tratamentos convencionais nem sempre os eliminam, por completo. Alguns poluentes persistentes são compostos derivados de produtos narcóticos, como a cocaína; de agroquímicos, como a atrazina; de cuidados pessoais, como os parabenos (conservantes que impedem o crescimento de bactérias, de fungos e de bolor); e da indústria alimentar, como a cafeína.

 Poluição de rios. (piscinaaguaemar.com)

A poluição da água configura uma das problemáticas mais urgentes, a nível mundial. Cerca de 2,1 mil milhões de pessoas não acedem à água potável, de forma segura, afetando a saúde e a economia. Na maioria dos países onde há dados, as mulheres e as meninas assumem a responsabilidade principal de recolher água em locais de grande stresse hídrico. Em regiões, como a África Subsariana e a Ásia Central, muitas dedicam mais de 30 minutos diários a essa tarefa, o que limita as oportunidades educativas e profissionais, aumentando a disparidade socioeconómica e de género. E, se a água estiver poluída, a exposição a doenças, como a cólera ou a hepatite A, torna-se sério perigo para a vida. Essa é realidade cada vez mais frequente, já que, segundo a ONU, 80% das águas residuais é despejada, sem tratamento, no meio ambiente, o que faz com que grande quantidade da água que as pessoas consomem, nos países em vias de desenvolvimento (PED) contenham resíduos altamente tóxicos.

(sigbi.org)

Também na alimentação, o impacto é direto. A agricultura depende de água limpa, para regar culturas, para manter a qualidade do solo e para proteger a produção pecuária. Se a água contiver poluentes ou não houver dela suficiente disponibilidade, os rendimentos diminuem, as perdas aumentam e podem ser afetados os preços e a segurança alimentar.

Em setores, como o da energia, a poluição representa um grande problema económico. A produção hidroelétrica e as grandes instalações elétricas dependem de grandes fluxos de água limpa para os seus sistemas de refrigeração. Quando a água disponível está poluída com sedimentos ou com matéria orgânica, a eficiência termodinâmica das centrais reduz-se, drasticamente, e os custos de manutenção disparam, afetando os preços do serviço. Paralelamente, o perigo do custo influencia as cidades, já que o tratamento de água potável e de águas residuais exige grande investimento em infraestruturas, em energia e em manutenção. À medida que a poluição aumenta, os municípios devem dedicar mais recursos para assegurarem o serviço, o que se traduz em maior gasto público e em menos recursos para outras prioridades.

Estação de tratamento de água da Copasa no município brasileiro de Coronel Fabriciano, no interior do estado de Minas Gerais. (pt.wikipedia.org)

 A poluição da água afeta o meio ambiente, a vida diária, a economia e a estabilidade social, a qual garante a todos a possibilidade das mesmas oportunidades.

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Fatores naturais, como a filtração do mercúrio presente na crosta terrestre, podem poluir os oceanos, rios, lagos, canais e represas. No entanto, o mais comum é que a degradação da água seja causada pelas atividades humanas e pelas suas consequências, a saber: o aumento da temperatura terrestre, devido às emissões de dióxido de carbono (CO2), aquece a água e faz com que o seu nível de oxigénio diminua; a desflorestação pode esgotar as fontes hídricas e gerar resíduos orgânicos, que servem de terreno fértil para bactérias contaminantes; os despejos de produtos químicos provenientes destes setores são uma das principais causas da eutrofização da água; mais de 80% das águas residuais do Mundo que chegam ao mar e aos rios não é tratada; grande parte dos plásticos que poluem os oceanos provém de barcos de pesca, de petroleiros e de navios de carga; o transporte e o armazenamento de petróleo e dos seus derivados podem causar vazamentos que chegam às fontes de água.

Homens tirando petróleo de praia. (pt.wikipedia.org)

A deterioração da qualidade da água traz efeitos negativos ao meio ambiente, à saúde e à economia global. De facto, quando a demanda biológica de oxigénio, indicador do nível de contaminação orgânica da água, ultrapassa determinado limite, o crescimento do produto interno bruto (PIB) das regiões localizadas nas bacias hidrográficas pode cair até um terço.

A poluição hídrica empobrece os ecossistemas aquáticos e facilita a proliferação descontrolada de algas fitoplanctónicas nos lagos – processo conhecido como eutrofização.

A pesca em águas contaminadas e a utilização de águas residuais na pecuária e na agricultura, podem transmitir toxinas aos alimentos que prejudicam a saúde, ao serem ingeridos. A ONU admite que ainda há vários milhares de pessoas, no Mundo, sem acesso à água potável e ao saneamento, especialmente, em áreas rurais. A OMS estima que cerca de dois mil milhões de pessoas consomem água potável contaminada por dejetos, expondo-se ao risco de contrair doenças, como cólera, disenteria e hepatite. E, segundo a ONU, as doenças diarreicas vinculadas à falta de higiene provocam a morte em cerca de mil crianças, por dia, em todo o Mundo.

A poluição da água afeta tanto os países ricos como os pobres e a água poluída tem efeitos daninhos na economia de países e regiões.

Eutrofização da água. (infoescola.com)

Quando a demanda biológica de oxigénio aumenta, o PIB das regiões afetadas reduz-se 33,33%. Os fertilizantes chegam a aumentar os casos de atraso no crescimento das crianças, em 19%. A exposição aos nitratos, em idades precoces, afeta o desenvolvimento e pode ser letal. O rendimento agrícola diminui, à medida que aumenta a salinidade da água. A água salgada danifica, anualmente, alimentos suficientes para abastecer 170 milhões de pessoas.

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Segundo um relatório da ONU, de 2026, hoje, 75% da Humanidade vive em zonas de escassez ou de insegurança hídrica e, a cada ano, a crise se agrava. Por isso, devemos adotar uma série de medidas para conter essa crise, desde logo, reduzir as emissões de CO2.

Para evitar o aquecimento global e a acidificação dos oceanos, devemos reduzir o uso de pesticidas químicos e de nutrientes, em culturas agrícolas. É também necessário reduzir e tratar as águas residuais, de forma segura, para que, além de não poluírem, possam ser reutilizadas para irrigação e para produção de energia.

É preciso limitar a utilização de plásticos de um só uso, que acabam por flutuar em rios, em lagos e em oceanos, muitos deles na forma de microplásticos. E há que promover a pesca sustentável, para garantir a sobrevivência das espécies e evitar o esgotamento dos mares.

É, realmente, possível despoluir as águas? (produtossap.com.br)

Governos, cidadãos e empresas têm a responsabilidade para fazer ações conjuntas, para proteger os ecossistemas e para realizar projetos que melhorem o bem-estar das espécies marinhas, como o controlo da pesca de animais em risco de extinção. Paralelamente, regulamentação mais rigorosa e controlo rigoroso dos despejos são a base para reduzir a poluição.

Há urgência de pesquisa e de tecnologias que melhorem o tratamento de águas residuais. Por outro lado, a monitorização, em tempo real, com sensores inteligentes, com telemetria e com plataformas de IoTm (Internet das Coisas ou sistemas em nuvem que ligam dispositivos físicos a aplicações, recolhem dados e gerem redes de sensores) permite detetar, instantaneamente, contaminação, antecipar picos de carga e definir doses de tratamento, de modo eficiente. E a economia circular da água, ao invés da abordagem linear (captar, usar e descartar), propõe fechar o ciclo da água, minimizando o consumo de recursos hídricos virgens, reduzindo a poluição e gerando valor agregado, a partir do tratamento e da reutilização da água.

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Cursos e extensões de água doentes, lesam a Humanidade, a todos os níveis.

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05/10/2026

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Louro Carvalho

É natural de Pendilhe, no concelho de Vila Nova de Paiva, e vive em Santa Maria da Feira. Estudou no Seminário de Resende, no Seminário Maior de Lamego e na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi pároco, durante mais de 21 anos, em várias freguesias do concelho de Sernancelhe e foi professor de Português em diversas escolas, tendo terminado a carreira docente na Escola Secundária de Santa Maria da Feira.

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