Ricardo Kalash: “A voz é corpo”

 Ricardo Kalash: “A voz é corpo”

(© João Bizarro – ProPress / sinalAberto)

(*)

A voz como extensão do corpo, o teatro como um acaso que se tornou profissão e o Guarda-Chaves como uma das personagens mais exigentes da sua carreira. Na entrevista, o actor e encenador Ricardo Kalash percorre décadas de experiência em palco e reflecte sobre o trabalho vocal do actor, os cuidados com a voz, a memória e a relação entre técnica e emoção.

(© João Bizarro – ProPress / sinalAberto)

A voz é uma ponte de afectos e de saberes e, ao mesmo tempo, um selo de autenticidade das pessoas que comunicam entre si, nas mais diversas situações da vida.

Ao reconhecermos essa força que nos une e, muitas vezes, também nos faz divergir, pelas ideias que transmite ou pela capacidade aguerrida das palavras, a voz é-nos quase tão importante como o processo de respirar. Por isso, o jornal  sinalAberto, a ProPress-Associação Portuguesa de Jornalistas e a Escola Superior de Educação de Coimbra pensaram desenvolver um  dossiê jornalístico sobre a importância da voz como ferramenta de trabalho dos jornalistas (especialmente, da rádio e da televisão), dos professores, dos locutores, dos advogados, dos cantores, dos actores e dos mais diversos oradores no quotidiano das comunidades falantes.

A presente entrevista ou conversa com o actor Ricardo Kalash é o primeiro acto de um conjunto de quatro peças jornalísticas – o dossiê “Impressão vocal” –pensado aquando do Dia Mundial da Voz (a 16 de Abril) e que agora passamos a publicar.

(© João Bizarro – ProPress / sinalAberto)

Aos 55 anos, Ricardo Kalash (de nome próprio Henrique Ricardo Pereira da Silva) leva quase quatro décadas de teatro. Começou aos 17, quando estudava Engenharia Física e conheceu, por acaso, o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC) – que é o grupo de teatro universitário mais antigo da Europa em actividade contínua, fundado em Julho de 1938 – através de colegas que viviam na mesma república universitária (Kalash morou na República 5 de Outubro e também na Real República Ay Ó Linda). O encontro com o teatro acabaria por alterar o rumo da sua vida. “O teatro acabou por desviar-me o percurso”, recorda.

Desde então, a voz tornou-se uma das ferramentas fundamentais do seu trabalho. Para o actor, porém, não faz sentido separar a voz do resto do corpo.

A voz não trabalha isolada. É o corpo que a produz e, por isso, a preparação física e vocal é indispensável antes de entrar em cena. “Tens de aquecer o corpo e tens de aquecer a voz”, lembra. Sem essa preparação, o actor pode não conseguir alcançar todas as capacidades expressivas de que dispõe, mesmo que não provoque uma lesão.

.

A memória como condição do trabalho

A construção de uma personagem passa pela forma como se diz o texto, pelas intenções, pela postura e pela maneira de andar. “A voz acompanha o corpo e vice-versa. É um todo. A voz é produzida pelo corpo; para mim, a voz é corpo. É apenas outra forma de manifestação”, expressa este actor do grupo de teatro  conimbricense “A Escola da Noite”, que posiciona a voz entre a memória dos textos e o silêncio em cena.   

Essa relação torna-se particularmente evidente quando interpreta personagens distintas. O processo começa, explica, no contacto com o texto e naquilo que a própria personagem parece exigir. Depois, o trabalho de interpretação acrescenta outras possibilidades. Surgem diferentes colocações de voz, intenções e formas de dizer, sempre em função daquilo que o texto pede.

A voz de um actor não se limita à sua dimensão sonora. A memória é igualmente indispensável ao trabalho em palco. Decorar textos faz parte do processo de preparação e, embora se torne mais difícil com o passar dos anos, continua a ser uma exigência incontornável da profissão.

(© João Bizarro – ProPress / sinalAberto)

A ideia de uma voz sem memória levanta, efectivamente, uma contradição fundamental: como pode o actor dar sentido às palavras se não dominar o texto que tem de interpretar?

“A voz acompanha o corpo e vice-versa. É um todo. A voz é produzida pelo corpo; para mim, a voz é corpo.”

Para o entrevistado, a memorização é uma componente objectiva do trabalho teatral. A voz só ganha plena expressão quando está ao serviço de um texto assimilado e de uma interpretação construída.

A experiência acumulada permite desenvolver estratégias pessoais, mas não elimina as dificuldades. Tal como acontece com os exercícios vocais, também a memória exige prática e adaptação às características de cada intérprete.

Entre as vozes que admira, Kalash destaca Miguel Magalhães, seu colega no grupo “A Escola da Noite”, a quem reconhece uma “voz maravilhosa”, bem como o tipógrafo e actor Rui Damasceno, da cooperativa de produções teatrais e realizações culturais Bonifrates, o qual, para além da sua magia na arte tipográfica com chumbo, também é conhecido pelo seu vozeirão.

Ricardo Kalash não acredita, por isso, em fórmulas universais para trabalhar a voz. Cada actor deve conhecer o seu instrumento e construir, ao longo do tempo, um conjunto de exercícios adequado às suas características. “Nem todos somos iguais, nem todos temos a mesma voz e nem todos enfrentamos os mesmos problemas”, repara. O repertório vocal de cada intérprete vai sendo construído com a experiência, com os diferentes processos de trabalho e também com as pessoas que encontra pelo caminho.

(© João Bizarro – ProPress / sinalAberto)

O próprio actor admite não ser “o melhor exemplo” no que toca a uma rotina rigorosa de cuidados vocais. O aquecimento, contudo, faz parte da preparação. Os cuidados tornam-se, particularmente, evidentes quando surgem problemas. Depois de temporadas longas, a voz pode ficar cansada e há pequenas medidas que ajudam na recuperação, como evitar bebidas muito geladas ou recorrer a chás.

Kalash não se preocupa, contudo, em seguir uma rotina excessivamente rígida. “Eu costumo tratar da voz quando tenho problemas de voz”, anota, defendendo uma relação prática e consciente com este seu instrumento de trabalho.

“Nem todos somos iguais, nem todos temos a mesma voz e nem todos enfrentamos os mesmos problemas”

A preparação varia também de espectáculo para espectáculo. Em alguns processos, o trabalho vocal é acompanhado por especialistas, como aconteceu recentemente com Carlos Meireles, responsável por um trabalho específico de voz. Noutros, a preparação depende mais da experiência, da sensibilidade e dos exercícios desenvolvidos individualmente por cada actor.

“Se nós fizermos sempre igual, cansa”, observa, referindo-se tanto à intensidade vocal como ao ritmo da interpretação. Cada espectáculo exige uma espécie de partitura, construída a partir da relação entre as vozes dos actores, os ritmos e as características do espaço.

(© João Bizarro – ProPress / sinalAberto)

Essa partitura depende também dos colegas de palco. A escolha do elenco tem, muitas vezes, em consideração a forma como as vozes se complementam. Há combinações que funcionam melhor do que outras, criando diferentes possibilidades de diálogo e de expressão.

.

O  desafio das temporadas longas

As temporadas prolongadas são um dos maiores desafios para a saúde vocal dos actores. Quinze dias com dois espectáculos diários são suficientes para provocar um desgaste significativo. “Obviamente, o corpo ressente-se e a voz ressente-se”, reconhece.

A solução não passa por eliminar completamente o cansaço, mas por saber gerir os esforços e cuidar da voz. Ainda assim, nem sempre existe tempo para recuperar entre actuações. O actor alerta que o desrespeito pelas regras técnicas de utilização da voz acelera o aparecimento de problemas.

Os problemas de voz não lhe são estranhos. “Acho que não há actor que nunca os tenha tido”, afirma. Com os anos, refere, aprende-se a reconhecer os sinais e a impedir que o problema se agrave. Ainda assim, não existe uma forma de evitar completamente o desgaste, principalmente em períodos de grande intensidade. “Imagine-se quinze dias com dois espectáculos por dia. Obviamente, o corpo ressente-se, e a voz também, porque a voz é produzida pelo corpo. Não há como evitar”, comenta.

Entre a técnica e a emoção, o actor coloca a necessidade de controlo. Há momentos em que a interpretação nasce do instinto, mas há outros em que a técnica permite executar aquilo que foi trabalhado. Em palco, a liberdade emocional não pode sobrepor-se à construção da personagem: “Numa peça, temos uma partitura a cumprir. Não podemos dar total liberdade às emoções, porque isso pode afastar-nos do caminho que a personagem exige.”

É esse domínio técnico que permite repetir uma interpretação sem depender constantemente de estados emocionais difíceis de controlar. Para Ricardo Kalash, sem esse controlo, “tudo se torna muito mais imprevisível”.

(© João Bizarro – ProPress / sinalAberto)

Um dos exemplos mais exigentes da sua carreira é o Guarda-Chaves, personagem que nasceu no Museu Nacional Machado de Castro e que, entretanto, acompanhou o actor para o grupo de teatro “A Escola da Noite”. Trata-se de um velho republicano que trabalhou toda a vida em museus, conhece profundamente a cidade e conduz visitantes por diferentes percursos históricos. Actualmente, a personagem trabalha basicamente em parceria com o Museu Municipal e percorre lugares como o Pátio da Inquisição, a Baixa, a Torre de Almedina e o Edifício Chiado.

“Numa peça, temos uma partitura a cumprir. Não podemos dar total liberdade às emoções, porque isso pode afastar-nos do caminho que a personagem exige.”

O Guarda-Chaves exige uma colocação vocal particularmente precisa. Uma visita pode durar uma hora e meia ou até duas horas e, segundo o actor, alguns segundos de má colocação podem ser suficientes para comprometer a voz. “Se a voz for mal colocada, numa visita que pode durar uma hora, uma hora e meia ou até duas horas, bastam trinta segundos de má colocação para estragar a personagem e deixar a voz completamente arranhada”, sublinha o actor.

.

Responder às exigências de uma personagem

Ricardo Kalash confirma que o Guarda-Chaves, uma das personagens mais exigentes que interpretou, é um exemplo dos riscos e das possibilidades da transformação vocal em teatro. A personagem tem uma voz própria, “uma voz arranhada”, que vem muito da garganta e que, por isso, pode provocar desgaste rapidamente. Fazer essa voz sem causar danos exige anos de prática e um trabalho “muito calculado, muito preciso e muito treinado”.

(© João Bizarro – ProPress / sinalAberto)

A exigência não se limita à interpretação da personagem. O trabalho de actor implica um conhecimento profundo da própria voz e dos seus limites. “Cada actor deve conhecer a sua voz”, explica, acentuando que as escolhas vocais são feitas dentro das possibilidades físicas de cada um.

O Guarda-Chaves já acompanhou mais de quinze mil pessoas em visitas marcadas. Mas a personagem, como salienta Kalash, não se resume à voz. Tem também um corpo e uma maneira particular de estar. “O Guarda-Chaves não tem apenas voz, também tem corpo e uma forma muito própria de estar. Tem as chaves da cidade e anda a mostrá-la às pessoas”, especifica.. É, de certa forma, uma personagem que transforma a cidade em palco e que lhe empresta uma voz. Ou, como o próprio actor sintetiza: “O Guarda-Chaves dá voz à cidade.”

.

Cada teatro ou espaço de palco tem a sua própria voz

A experiência de Kalash leva-o também a reconhecer que cada sala exige uma adaptação diferente. Ao chegar a um teatro, é habitual experimentar a voz para perceber como ela se instala e percorre o espaço: “Todas as salas são diferentes.” Em alguns casos, é necessário projectar mais; noutros, o espaço permite trabalhar com menos esforço. Para si, a acústica das salas é, de facto, outro factor determinante. Uma mudança de teatro implica uma adaptação imediata à forma como o som se propaga no espaço. Por isso, é habitual que o actor, ao chegar a uma sala, experimente a sua voz com um simples “Ah!…”, procurando perceber a reverberação e a maneira como o som percorre o espaço.

Nem todos os teatros exigem o mesmo esforço vocal. Há salas em que a acústica permite projectar a voz com maior facilidade, enquanto outras obrigam a um trabalho mais intenso. A adaptação é fundamental para evitar o desgaste desnecessário.

(© João Bizarro – ProPress / sinalAberto)

A voz de palco distingue-se ainda daquela que é utilizada perante um microfone. “Tudo o que tenha microfones é diferente. Tecnicamente, é muito diferente da voz colocada para palco”, nota Ricardo Kalash. Apesar de considerar a voz apenas um dos instrumentos do actor, reconhece-lhe uma importância essencial: “Sem voz, é muito difícil um actor fazer alguma coisa, salvo casos muito específicos. Quando um actor fica sem voz, está de baixa.”

Há, contudo, outra ferramenta indispensável: a memória. Decorar texto faz parte do trabalho e torna-se, com o passar dos anos, uma tarefa mais difícil. “Tem de haver memória. Ou deve haver memória”, insiste. Sem saber o que dizer, a voz perde a sua função no palco.

Kalash também rejeita a ideia de existir uma voz ideal para produzir determinado efeito no público. O que o interessa é a variedade. “Acho que tudo o que for sempre igual cansa. Quer em termos rítmicos, quer em termos de voz, tem de haver uma partitura que seja interessante”, considera. Essa partitura depende também da relação entre os actores. A escolha de intérpretes para determinados papéis pode passar pelo próprio jogo vocal, já que “há vozes que se encaixam melhor do que outras”.

E há um prazer particular que não depende sequer de falar. Quando questionado sobre o que mais gosta de fazer em palco, surpreende pela resposta: “O que eu mais gosto de fazer, o que me dá mais gozo, é não fazer nada.” Menciona os momentos em que está em cena sem falar ou mexer-se e, ainda assim, concentra a atenção do público. É nesse silêncio, também, que o trabalho do actor pode ganhar outra dimensão.

(© João Bizarro – ProPress / sinalAberto)

Ao trabalhar profissionalmente apenas no teatro, a relação de Kalash com a voz não passa pelo canto. Nunca teve particular conforto com essa área. Antes de entrar para o grupo teatral “A Escola da Noite”, Ricardo Kalash conta que, quando era convidado para uma peça, a primeira pergunta que fazia era: “Tenho de cantar?” Se for necessário, canta, mas admite fazê-lo “mal” e prefere evitar.

“O que eu mais gosto de fazer, o que me dá mais gozo, é não fazer nada.”

A voz que desenvolveu ao longo de décadas continua, assim, ligada essencialmente ao teatro e às personagens que constrói. Uma voz que, como admite, é única: “Não há duas vozes iguais.” E essa singularidade pode ser uma das maiores ferramentas do actor. “É uma impressão digital do actor”, assegura. Uma impressão digital que precisa de ser treinada, adaptada e protegida, mas que, no palco, ganha sentido quando se transforma na voz de uma personagem.

.

Apenas o teatro, longe dos microfones e dos discos

Apesar da importância da voz, o percurso do actor está profundamente ligado ao teatro. A participação no cinema foi reduzida e as dobragens não fazem parte da sua experiência profissional. A preferência é clara: “Eu gosto de teatro.”

A diferença entre a voz de palco e a voz utilizada em trabalhos com microfone é, para o actor, sobretudo uma questão técnica. A captação sonora altera a forma como a voz é utilizada, exigindo outras adaptações e outros cuidados.

Também a música não ocupa um lugar central no seu percurso. Antes de integrar a Escola da Noite, como já registámos, uma das primeiras perguntas que fazia quando era convidado para uma peça era se teria de cantar.

“Foi preciso, canto. Mal, mas canto”, admite, com humor. Cantar não é uma actividade que lhe seja particularmente confortável, embora recorde que já o fez em palco.

(© João Bizarro – ProPress / sinalAberto)

A comparação entre o actor e o cantor de ópera surge durante a conversa para ilustrar as exigências distintas de cada profissão. Um cantor de ópera precisa de preparação vocal e de capacidades interpretativas, enquanto a formação de um actor não garante, por si só, o domínio da técnica do canto lírico.

Quando questionado sobre aquilo de que mais gosta no trabalho, a resposta contraria a ideia de que a satisfação de um actor está necessariamente nos grandes momentos de interpretação ou nos discursos mais intensos.

O prazer surge precisamente nos momentos em que está em cena sem falar nem se mexer, enquanto o público mantém os olhos postos nele. A imobilidade transforma-se, assim, num exercício de presença. Estar em palco não significa necessariamente agir ou falar. Por vezes, basta estar.

É nesse aparente paradoxo que se revela uma das dimensões mais interessantes do trabalho teatral: a capacidade de criar significado mesmo na ausência de palavras e de movimento.

A conversa termina entre interrupções, perguntas repetidas e novas referências à necessidade de decorar texto. O tom descontraído acompanha um testemunho que, entre o humor e a reflexão, evidencia a complexidade de uma profissão em que a voz, o corpo e a memória se encontram permanentemente ligados.

(© João Bizarro – ProPress / sinalAberto)

No fim, talvez o maior prazer do actor esteja justamente nesse instante em que tudo parece suspenso: o texto está decorado, a voz está preparada e o corpo está em palco. E, por momentos, não é preciso fazer absolutamente nada.

Apesar da importância da voz, o percurso do actor está profundamente ligado ao teatro. Como também já anotámos, a  participação no cinema foi reduzida e as dobragens não fazem parte da sua experiência profissional. A preferência é clara. Por isso, relembra: “Eu gosto de teatro.”

.

………………………….

.

(*) Este trabalho jornalístico conta com a colaboração do jornalista João Bizarro, responsável pela captação de imagem e pela produção audiovisual.

.

08/10/2026

Siga-nos:
fb-share-icon

Vitalino José Santos

Jornalista, cronista e editor. Licenciado em Ciências Sociais (variante de Antropologia) e mestre em Jornalismo e Comunicação. Oestino (de Torres Vedras) que vive em Coimbra.

Outros artigos

Share
Instagram