Decidido antes de começar

 Decidido antes de começar

(Créditos de imagem: Tobias Flyckt – Unsplash)

No século I, os imperadores romanos perceberam uma coisa simples: um povo entretido não se revolta. Juvenal, poeta romano, escreveu na Sátira X que o povo de Roma tinha, em tempos, poder real – elegia pelo voto as chefias militares e as magistraturas. Mas, tendo deixado de “vender os seus votos a ninguém”, contentou-se em desejar, ansiosamente, só duas coisas: pão e circo. Não era generosidade do império. Era o preço combinado pela desistência: comida garantida e espetáculos gratuitos, em troca de deixar de exigir contas ao poder.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Dois mil anos depois, o mecanismo continua a funcionar – só que agora é o povo que paga o bilhete. Divertir-se é importante e ninguém deveria ter de se justificar por gostar de um jogo. Segundo a Aporfest (Associação Portuguesa de Festivais de Música), realizaram-se 358 festivais de música em Portugal, no ano de 2024 – número recorde, mais do que os 287 registados em 2019. Segundo o levantamento do Time Out (junho de 2026), um bilhete diário do Rock in Rio Lisboa custa a partir de 89 euros; um passe de fim de semana, 157 euros; a opção VIP, 380 euros. No futebol, um jogo comum do Benfica no Estádio da Luz custa, segundo a StubHub, entre 32 e 46 euros; um encontro europeu de maior procura pode ultrapassar os 200 euros. É a mesma lógica, atualizada para 2026 – só que, desta vez, é o espetador que sustenta o circo, não o imperador.

Isto não é um desvio do assunto. Há quem diga que não gosta de política, que não quer saber – como se isso fosse uma escolha disponível. Pagar impostos é política. Ter onde morar é política. Ir a um jogo com o dinheiro que sobra depois de pagar a renda também é. Ninguém está de fora disto, só há quem prefira não olhar.

Há um nome para essa preferência: os psicólogos sociais chamam-lhe “efeito espectador” – quanto mais gente testemunha um problema, menos cada um se sente responsável por resolvê-lo, porque presume, em silêncio, que outro vai tratar disso.

O resultado importa sempre – num jogo, numa negociação, numa vida. Ninguém compra um bilhete para ver o próprio “time” perder de propósito. Vale perguntar, então, quem decide, de facto, esse resultado.

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Nem todos, dentro dessa festa, entram pela mesma porta. Segundo a UEFA (relatório de finanças do futebol europeu), Portugal tem a distribuição de direitos televisivos mais polarizada da Europa: o Benfica recebe 13,4 vezes mais do que a mediana nacional, e os três maiores clubes – Benfica, Futebol Clube (FC) do Porto e Sporting – ficam com 68% de tudo o que se paga pelos direitos de transmissão. Até há pouco, o clube mais beneficiado recebia 14 vezes mais do que o menos beneficiado; segundo a TSF (junho de 2026), um novo modelo de distribuição, aprovado por 80% dos clubes, visava reduzir essa diferença para sete vezes até 2028/29 – e o Benfica foi, segundo a mesma fonte, um dos clubes que mais resistiu à mudança.

A desigualdade repete-se, dentro do próprio espetáculo, ao nível de cada salário. Segundo o “site” de empregos Indeed, um professor em Portugal ganha, em média, 2540 euros por mês. Informa também “site” FootyStats que o Benfica – o clube que mais paga na Liga – tem uma folha salarial média de 1616249 euros por jogador e por ano, cerca de 53 vezes o rendimento mensal de um professor, todos os meses. O jogador mais bem pago do Sporting, Francisco Trincão, ganha 4,49 milhões por ano – quase 150 vezes esse mesmo valor. E, segundo o Soccerway, os árbitros portugueses estão no fundo da tabela europeia: a maioria ganha entre 750 e 1500 euros por mês, cerca de 30 mil euros por ano – o mesmo nível de um professor, para arbitrar o jogo que paga a outros mais de cem vezes esse valor.

Os próprios clubes já mostraram o que acontece quando o dinheiro sai de dentro, não de fora.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Consultando a Wikipédia e o Correio da Manhã, lemos que João Vale e Azevedo, presidente do Benfica entre 1997 e 2000, foi condenado a dez anos de prisão por peculato, abuso de confiança, falsificação de documentos e branqueamento de capitais, por se ter apropriado de cerca de quatro milhões de euros em transferências de jogadores. Por sua vez, a CNN Portugal (julho de 2026), informa que fugiu para Londres em 2018, tendo sido declarado oficialmente foragido em 2022, e que os tribunais britânicos recusaram a sua extradição. Vive em Londres até hoje.

Um segundo processo contra ele, por mais três milhões de euros em garantias falsas, só deverá terminar em 2034, se terminar. Considerando a Wikipédia e a Soccerway, Jorge Nuno Pinto da Costa, presidente do FC do Porto durante 42 anos (de 1982 a 2024), foi investigado em 2004, a meio do seu mandato, no processo Apito Dourado, por suspeita de corrupção de árbitros, tendo chegado a ser detido e libertado sob fiança de 200 mil euros. Nunca foi condenado nos tribunais comuns. Continuou presidente do clube até 2024, quando perdeu umas eleições – não um julgamento.

(rtp.pt)

O preço do fanatismo não se mede só em euros. Seguindo o Sportinforma e o jornal desportivo A Bola, na final da Taça de Portugal de 18 de maio de 1996, entre o Sporting e o Benfica, um adepto benfiquista, Hugo Inácio, atirou da bancada um “very light” – um foguete de sinalização – que atingiu mortalmente Rui Mendes, adepto do Sporting, de 36 anos. O jogo não parou; o Benfica venceu por 3-1 .

Hugo Inácio foi condenado em 1998, fugiu da prisão em 2000 e só voltou a ser capturado 11 anos depois, em 2011. Foi condenado de novo em 2016. Em 2017, como informam o Público e a CNN Portugal, Marco Ficini, adepto italiano da Fiorentina que acompanhava a claque do Sporting, morreu atropelado junto ao Estádio da Luz, arrastado 15 metros por um adepto do Benfica, que fugiu sem prestar socorro, durante confrontos entre claques rivais antes de um Sporting-Benfica. O condutor só se entregou para cumprir pena oito anos depois, em 2025.

Há também quem transforme a impunidade em carreira. Luis Suárez mordeu adversários em pleno jogo pelo menos três vezes documentadas – Otman Bakkal (em 2010), Branislav Ivanović (em 2013) e Giorgio Chiellini (no Mundial de 2014) – foi suspenso de cada vez, e voltou a ser contratado por clubes de topo depois de cada suspensão. O público paga o bilhete para ver o espetáculo continuar, doa a quem doer.

Fotografia do Expresso ajudou a identificar autor.
(Créditos fotográficos/fonte: Expresso – vavel.com)

A violência, por vezes, não é acidental nem impulsiva: é dirigida. Em vários jogos do futebol português, adeptos gritam insultos raciais a jogadores negros, chamando-lhes “macacos” – em novembro de 2025, segundo a Soccerway, o guarda-redes do Santa Clara, Gabriel Batista, recebeu uma mensagem com ameaça de morte, depois de um jogo em que já tinha sido alvo de insultos racistas. Vale perguntar, sem resposta fácil: quantos desses adeptos partilham, eles próprios, a mesma ascendência africana que insultam no jogador – e, mesmo quando não partilham, o que os faz sentir-se superiores a alguém só por ser mais rápido, mais forte ou melhor de bola? Manter tudo isto sob controlo tem um preço concreto: como refere o Público, o Estado gasta 3,5 milhões de euros por ano só a policiar os jogos da I Liga – sem contar o futebol não profissional, que soma mais 2,5 milhões. Em quatro épocas recentes, foram precisos 1200 momentos de intervenção policial e 129 detenções. É dinheiro público a conter uma raiva que o próprio negócio do futebol, com os seus milhões em direitos de televisão, ajuda a alimentar.

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Onde vai o dinheiro que devia ficar cá

Nem todo o dinheiro do futebol fica sujeito ao mesmo escrutínio. Segundo o Público (junho de 2017), foi um consórcio internacional de jornalistas – o “Football Leaks” – que revelou, em 2016, um esquema global de fuga ao fisco no mundo do futebol, com destaque para Jorge Mendes, empresário de Cristiano Ronaldo e de outros jogadores portugueses de topo. Noticiou o Jornal de Negócios que Ronaldo foi formalmente acusado, em junho de 2017, pela autoridade tributária espanhola, de quatro crimes de fraude fiscal cometidos entre 2011 e 2014: uma sociedade irlandesa geria oficialmente os seus direitos de imagem, enquanto uma outra, sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, não desenvolvia, segundo o Ministério Público espanhol, “nenhuma atividade” – apenas servia para esconder do fisco a totalidade dos rendimentos.

(Créditos de imagem:  Md Mahdi – Unsplash)

A acusação apontava mais de 150 milhões de euros em rendimentos de direitos de imagem entre 2009 e 2020. Os mesmos esquemas, com sociedades na Irlanda, nas Ilhas Virgens Britânicas, no Panamá e na Suíça, foram usados, segundo o mesmo jornal, por outros jogadores geridos por Jorge Mendes – Radamel Falcão, Fábio Coentrão, Di María, Ricardo Carvalho. Em Portugal, como menciona o Esquerda.net, a Operação “Fora de Jogo” investigou o mesmo tipo de esquema, com buscas em sedes de clubes e na própria casa de Jorge Mendes, visando também o advogado Carlos Osório de Castro.

E há uma distinção que poucos conhecem e que vale a pena explicar: o “clube” que um adepto apoia – Benfica, Porto, Sporting – é, para efeitos fiscais, uma associação sem fins lucrativos, isenta automaticamente de IRC, segundo o artigo 54.º do Estatuto dos Benefícios Fiscais, desde que os seus rendimentos brutos não ultrapassem 7500 euros por ano. Mas o futebol profissional – os bilhetes, os direitos de televisão, as transferências de jogadores – não passa pelo clube: passa pela SAD, a sociedade anónima desportiva, que paga imposto como qualquer empresa normal. O benefício fiscal é real, mas é pequeno; o que é grande é a engenharia que separa, dentro da mesma marca, a parte que não paga da parte que paga.

(Créditos de imagem:  Gregorio Cavana – Unsplash)

Até o próprio resultado do jogo pode estar à venda. Conforme regista o Observador, a Operação Jogo Duplo (2017) acusou 28 pessoas – jogadores, dirigentes, intermediários – de manipular resultados da II Liga portuguesa entre 2015 e 2016, a troco de subornos ligados a redes de apostas asiáticas, com suspeitas também ligadas à China. E, segundo a Soccerway, a Justiça portuguesa acusou formalmente, em 2024, a própria SAD do Benfica e Luís Filipe Vieira de manipular resultados entre 2016 e 2019, através de acordos financeiros com o Vitória de Setúbal – o mesmo esquema das transferências simuladas já referido, só que agora também classificado como corrupção desportiva, não só fraude fiscal. O espetáculo pelo qual o público paga bilhete pode já vir combinado antes de começar – no marcador, e nas contas.

Falta perguntar, então, o mais simples de tudo: nesta partida, estamos a ganhar ou a perder?

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Fontes:

Juvenal, Sátira X (origem da expressão “panem et circenses”), versos 77-81 . Aporfest, “Annual Report Festivais de Música em Portugal 2024”. Time Out, “Afinal, quanto custa ir a um festival de Verão?” (jun. 2026). StubHub Portugal, bilhetes SL Benfica 2026-2027. UEFA, relatório de finanças do futebol europeu, citado pelo SAPO (“Direitos TV: Portugal tem a distribuição «mais polarizada» da Europa”). TSF, “Menos dinheiro para os grandes, mais para os pequenos: Centralização dos direitos televisivos avança em 2028/29” (jun. 2026). Indeed, “Salário de Professor em Portugal” (mai. 2026). FootyStats, “Salário – Liga NOS (Portugal)”. Soccerway, “Espanhóis revelam salários dos árbitros nos seis principais campeonatos europeus”.

Wikipédia, “João Vale e Azevedo”. Correio da Manhã, sobre o processo de apropriação de 1,2 milhões do Benfica. CNN Portugal, “Condenado, mas livre: como Vale e Azevedo continua a fintar a Justiça portuguesa” (jul. 2026). Wikipédia, “Apito Dourado”. Soccerway, “Óbito de Pinto da Costa: Dupla coroa europeia elevou presidência controversa”. Sportinforma, “Há 25 anos, o caso do very light manchava para sempre o futebol português”. A Bola, “Sporting relembra adepto vítima de ‘very light'” (mai. 2026). Público, “MP acusa 22 arguidos de homicídio no caso de adepto do Sporting atropelado junto ao Estádio da Luz” (out. 2017). CNN Portugal, “Adepto do Benfica entrega-se para cumprir pena pela morte de rival italiano” (out. 2025). Soccerway, “Domingo negro para o futebol português: Agressão, ameaças e insultos a jogadores”. Público, “Estado gasta 3,5 milhões por ano com policiamento dos jogos da I Liga” (mai. 2015).

SAPO Desporto, “Quanto custa o policiamento no futebol não profissional?” (jul. 2017). Público, “Fisco investiga fugas de impostos no futebol português” (jun. 2017). Jornal de Negócios, “Fisco investiga fugas aos impostos de jogadores em operação à escala europeia” (jun. 2017). Esquerda.net, “Operação ‘Fora de Jogo’: Fisco investiga negócios do futebol” (jan. 2024). Estatuto dos Benefícios Fiscais, artigo 54.º; Código do IRC, artigo 11.º. Observador, “MP acusa 28 jogadores e dirigentes de corrupção desportiva e apostas fraudulentas” (Operação Jogo Duplo, mai. 201 7). Soccerway, “Justiça portuguesa acusa Benfica de manipular resultados entre 2016 e 2019”.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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08/10/2026

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Ana Paula Cruz

Ana Paula Cruz é jornalista investigativa, fotógrafa, compositora e escritora brasileira, radicada entre o Recife e Lisboa. Desenvolve o projeto VINCERE (código em “Python” e dados públicos e verificáveis), um eixo de investigação sobre fraude institucional, desigualdade estrutural e arquitetura do poder entre o Brasil e a Europa. Assina poesia e prosa sob o pseudónimo Cinza Viva; e fotografia sob o nome Apcruz. Tem licenciatura em Estudos Europeus; pós-graduação em Direito Penal e Medicina Forense, Compliance e Governança, além de estar na etapa final de um MBA (Master of Business Administration).

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