“Disclaimer”: não é sobre o Cristiano Ronaldo

 “Disclaimer”: não é sobre o Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo (commons.wikimedia.org)

A rendição aos temas da moda não é vocação desta rubrica – e os caros leitores poderão atestá-lo. Ainda assim, na medida em que a atualidade noticiosa o reclama, entremos no assunto do momento: Cristiano Ronaldo. Façamo-lo, todavia, por um ângulo distinto daquele que tem dominado o comentário nacional, dos jornais de referência aos mais variados espaços televisivos. Até o “Expresso da Meia-Noite”, que situo entre os melhores programas do país, se deixou atrair por esta gravitação – passando ao largo de António Guterres, da ameaça nuclear russa, das eleições brasileiras do passado domingo, das convulsões espanhola e francesa e da Comissão Potestativa de Inquérito do Chega a Luís Neves.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Não me ocuparei das prestações de Ronaldo – além de pouco ter a acrescentar ao que já se disse, qualquer juízo meu padeceria da falta de conhecimento técnico e especializado. Parece-me que o jogador rende pouco? Sim. Reconheço a Jorge Jesus, ou a alguém com competência equivalente, maior capacidade para decidir nestas matérias? Evidentemente. Suspeito de que a escolha já não lhes pertence por inteiro, enredada como parece estar num jogo de egos e de interesses empresariais? Sem dúvida. Mas esses são outros assuntos – e, para me manter fiel ao que prometi, deixo-os à margem.

Trago uma tese a que regresso sempre que a ocasião se oferece, seja em textos de opinião ou académicos, num colóquio ou à mesa com amigos, entre dois dedos de conversa ou mordiscando uma perna de frango: a influência da infraestrutura. Os meios através dos quais nos informamos, com as possibilidades que abrem e os limites que impõem, moldam aquilo que podemos conhecer e a forma como o conhecemos. É a partir deste universo, com melhores ou piores intenções, mas sempre sob a influência das condições em que o adquirimos, que tomamos decisões e formamos as opiniões que nos definem enquanto sujeitos pensantes e seres sociais. Se há espaços que favorecem a autonomia e estimulam a reflexão, alargando a nossa capacidade de compreender e de julgar, há outros cuja organização tende a produzir o efeito contrário. É destes últimos que pretendo ocupar-me – em particular, das redes sociais.

(facebook.com/ObservadorOnTime)

Sem fazer desta coluna um púlpito, nem insistir numa ladainha de argumentos já conhecidos, permito-me retomar uma passagem de janeiro: “O feed não é uma construção soberana do utilizador. Resulta de uma negociação estruturalmente assimétrica entre escolhas individuais e arquiteturas algorítmicas desenhadas para maximizar a retenção. Existe margem de agência, sem dúvida, mas opera dentro de limites previamente definidos. Não escolhemos o campo; escolhemos apenas percursos possíveis no seu interior. E quanto mais tempo passamos a escolher, mais esse campo se recalibra para garantir que lá permanecemos.”

O trecho, a caminho dos 10 meses de vida, conserva toda a atualidade e ajusta-se ao argumento que aqui se esboça. A malvadez, a raiva e o ressentimento, servidos nas mais diversas combinações, encontram terreno fértil na atenção humana. Quando os factos não fornecem os ingredientes para esta poção, tão rica que o seu poder de sedução dificilmente se esgota nos limites da verdade, inventam-se histórias. Entra em cena a desinformação, com particular vigor em momentos de crise – não atribuiria semelhante estatuto ao caso Cristiano Ronaldo, mas reconheço que o termómetro da comoção pública não acompanha a escala de preocupações de quem escreve. Admitamos, pois, que assim seja vivido pela generalidade dos nossos compatriotas.

 (kolsquare.com)

Embora só convença alguns, porquanto outros estão já avisados para a emergência deste fenómeno, a eficácia da desinformação estende-se a um grupo cada vez maior de utilizadores. Um conjunto de episódios, decorridos ao longo dos últimos dias, chegam a ser risíveis. Recuperemos alguns:

  • Georgina Rodríguez, companheira de Ronaldo, recuperou uma frase falsamente atribuída a Sir Alex Ferguson contra Jorge Jesus e acrescentou-lhe um comentário da sua lavra; minutos depois, talvez vencida pelo embaraço, apagou a publicação.
  • Pela mesma altura, circulavam declarações de Ricardo Quaresma sobre o capitão que o Polígrafo apurou nunca terem sido proferidas e que o próprio jogador veio desmentir.
  • José Mourinho viu-se obrigado a recorrer ao Instagram para desmentir declarações em defesa de Ronaldo que nunca proferiu – ele, que fez questão de sublinhar o respeito por todas as partes e a recusa em intervir.
(instagram.com)

Se estas situações, de tão constrangedoras, provocam uma sonora gargalhada, também nos convidam a reconhecer o padrão que as sustenta: fabricam-se declarações à medida de cada lado da contenda e atribuem-se a figuras reconhecidas do futebol, cuja autoridade serve de aval à invenção. Ao encontrarem utilizadores predispostos a tomá-las por verdadeiras, estas falsidades beneficiam de uma cumplicidade fértil entre a convicção de quem as acolhe e os mecanismos que lhes multiplicam o alcance. Em bom Português, junta-se a fome à vontade de comer: de um lado, um algoritmo ávido de envolvimento; do outro, utilizadores a quem basta que uma afirmação confirme aquilo em que já acreditam.

Fica o aviso sobre uma das dinâmicas mais persistentes da atual infraestrutura informativa, que tanto absorve assuntos triviais como questões com consequências profundas para a vida social e política. É esta lógica que merece a nossa atenção, para lá de Cristiano Ronaldo, dos golos falhados, das fugas em carrinhas ou dos aviões seguidos no Flightradar24. Ganha força uma hipótese inquietante: enquanto permanecer intacta a infraestrutura que molda a circulação da informação, dificilmente se transformarão as mentalidades que nela se formam.

.

08/10/2026

Siga-nos:
fb-share-icon

Lourenço Ferreira

https://linktr.ee/glourencosferreira

Lourenço Silva Ferreira é doutorando em Ciências da Comunicação, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos relacionados com o populismo, a esfera pública e a democracia. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

Outros artigos

Share
Instagram