Interesse do público ou interesse público?
Jovem simpatizante de Cristiano Ronaldo. (Créditos fotográficos: Omar Ramadan – pexels.com)
Tenho vindo a constatar que a hierarquia das notícias pode ser, em alguns casos, questionável. Refiro-me à abertura de telejornais com polémicas associadas ao futebol, mesmo quando envolvem a Seleção Nacional, e à forma como esses assuntos preenchem longos minutos numa atualidade pautada por desafios que afetam, direta ou indiretamente, as condições de vida de milhões de pessoas e famílias. Essa cobertura faz-me questionar se, atualmente, a luta pelas audiências está a pesar mais na hierarquização e na difusão da informação do que os restantes critérios de valor-notícia.


Sou um espectador assíduo dos telejornais das 20h00 e, como tal, tenho aprendido, nas aulas da minha licenciatura, que estes desempenham um papel importante na definição da agenda mediática – o chamado “agenda-setting” – através da seleção e hierarquização dos assuntos que marcam a atualidade. Foi por isso que, nos últimos dias de setembro e nos primeiros de outubro, dei por mim a assistir a longos minutos de emissão dedicados ao que parecia ter-se tornado “o assunto do momento”: Cristiano Ronaldo e as polémicas em torno da Seleção Nacional de Futebol. Sem lhes retirar importância, comecei a questionar se a dimensão atribuída ao tema era proporcional à sua relevância social.
Enquanto canais temáticos e generalistas concentravam as suas atenções no chamado “caso Ronaldo”, em 30 de setembro de 2026, ficámos a saber que, segundo a estimativa rápida do Instituto Nacional de Estatística, a inflação homóloga teria voltado a acelerar para 3,6%, mais 0,3 pontos percentuais do que em agosto. Em 1 de outubro, entraram também em vigor aumentos nas tarifas do gás natural e da eletricidade no mercado regulado. Notícias com impacto direto no orçamento das famílias, mas que, naquele momento, disputavam espaço mediático com um assunto que dominava grande parte da atualidade.

Os telejornais, pelo peso que têm na formação da perceção pública, ajudam também a definir aquilo que, em cada momento, é apresentado como mais importante. Fazem-no através da hierarquização das notícias, do tempo dedicado a cada tema e da repetição com que determinados assuntos regressam ao ecrã. Não se trata apenas de informar sobre aquilo que aconteceu, mas também de escolher o espaço e a importância que cada acontecimento ocupa.

fotográficos: Santeri Viinamäki – Wikimedia Commons)
Não é de todo razoável confundir o interesse do público com o interesse público. É perfeitamente aceitável e compreensível a atenção gerada por Cristiano Ronaldo e pela Seleção Nacional, tanto pela notoriedade como pelas audiências que mobilizam. Mas uma redação não deve pautar as suas escolhas apenas por aquilo que gera mais atenção, mais audiência ou mais polémica. Há temas que recebem menor destaque mediático, mas têm um impacto significativo nas nossas vidas.
A aceleração da inflação e o aumento dos preços de bens e de serviços essenciais, como o gás e a eletricidade, traduzem-se numa espiral de dificuldades. O mesmo acontece com o preço dos combustíveis e com tudo aquilo que representa para a economia. São aumentos que sentimos diretamente, seja quando abastecemos o automóvel, seja numa simples ida ao supermercado.

É a Seleção de todos nós? É. É Cristiano Ronaldo o capitão que já nos deu tantas alegrias, mesmo quando, por vezes, as nossas próprias vidas não nos dão grandes motivos de felicidade? É. Mas continua a ser futebol.
A questão está, portanto, em aferir a razoabilidade do destaque atribuído a algumas notícias em detrimento de outras cujo impacto económico e social afeta diretamente a vida de milhões de pessoas. Não está em causa saber se Cristiano Ronaldo é notícia. Está em causa perceber o espaço que essa notícia deve ocupar quando tantos outros assuntos disputam a mesma hierarquia informativa.
Talvez a pergunta não seja apenas o que merece ser notícia, mas que lugar merece cada notícia. Porque, quando o interesse do público começa a sobrepor-se ao interesse público, também a hierarquia da informação corre o risco de ficar do avesso.
E é nesse equilíbrio, tantas vezes difícil de encontrar, que voltamos a encontrar “O Avesso dos Dias”.
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15/10/2026