Inundações devastadoras: enxurradas e epidemias invisíveis

 Inundações devastadoras: enxurradas e epidemias invisíveis

(Créditos fotográficos: Omar Ramadan – Unsplash)

Espanha acordou submersa. As enxurradas desceram das montanhas sem pedir licença, invadindo casas, arrastando móveis, destruindo vidas. Valência, Albacete e outras regiões ficaram marcadas pela força brutal da água, que entrou pelo rés-do-chão das habitações como um intruso imparável. Uma tragédia visível, concreta, feita de lama, perda e luto.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Em Portugal, outra inundação corria silenciosa – uma epidemia invisível, sem meteorologia que a explique, mas com efeitos igualmente devastadores. A nossa cheia não vem das nuvens, nem dos rios, nem das barragens. Vem de um vírus antigo, persistente, que atravessa fronteiras com a mesma facilidade com que atravessa gerações. O país ficou perplexo, sem saber se enfrentava a peste negra, a gripe espanhola, a cólera ou alguma variante tropical trazida por mosquitos particularmente ambiciosos. Mas não: era apenas o velho vírus inglês chamado “football”, traduzido, com dramática fidelidade, para “futebol”.

Este vírus não destrói casas, mas destrói serenidades. Não arrasta móveis, mas arrasta multidões. Não invade o rés-do-chão, mas invade telejornais, cafés, escolas e até assembleias municipais. É uma epidemia que se transmite por contacto visual: basta ver uma bola para ficar infetado. E, ao contrário das doenças clássicas, esta não precisa de mosquitos, de ratos ou de água contaminada. Basta um árbitro.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Os ambientes de maior risco são, hoje, as claques nos estádios. É aí que a epidemia atinge níveis de transmissão comunitária explosiva: gritos, insultos, coreografias, bandeiras agitadas como se fossem armas brancas. A agressividade cresce como febre mal diagnosticada. Ninguém sabe exatamente quem infetou quem, mas todos garantem que a culpa é do árbitro.

Depois vêm os canais de televisão, que transformaram o vírus numa programação contínua. Há debates, pré-debates, pós-debates, análises, contra-análises, especialistas em epidemias futebolísticas que surgem como cogumelos após a chuva. A imprensa escrita segue o mesmo protocolo: páginas e páginas dedicadas ao surto, como se o país inteiro estivesse em estado de emergência sanitária.

Nas redes online, a epidemia torna-se digital. Ali, a ignorância, esse grande vetor de transmissão, multiplica-se com a velocidade de um vírus em laboratório. Cada comentário é uma gotícula; cada partilha, uma cadeia de contágio; cada insulto, uma mutação. A desinformação alastra com a mesma facilidade com que se espalha um boato num recreio.

(Créditos fotográficos: Omar Ramadan – Unsplash)

E os locais públicos não escapam: cafés, pastelarias, centros comerciais, transportes, tudo se transforma em sala de espera de urgências emocionais. Multidões absorvem o vírus com a mesma naturalidade com que absorvem o cheiro do café. Ninguém se protege, ninguém usa máscara, ninguém lava as mãos depois de tocar no assunto. A ignorância, essa sim, é a verdadeira pandemia geradora, amplificadora e orgulhosa da sua própria falta de diagnóstico.

(web.facebook.com/ObservadorOnTime)

Os ambientes de maior risco continuam a ser as escolas. Não porque falte higiene, mas porque falta consciência. Professores e ministérios, ocupados com programas, grelhas e relatórios, não estão preparados para diagnosticar surtos de histeria futebolística. As famílias, por sua vez, também não escapam: muitas já vivem mergulhadas na ignorância, sem perceber que o vírus se transmite de pais para filhos com a mesma naturalidade com que se transmite o apelido.

O resultado é simples: enquanto Espanha enfrenta uma enchente de água, Portugal enfrenta uma enchente de emoções. Lá limpam lama; aqui limpamos ilusões. Lá reconstroem casas; aqui reconstruimos esperanças, sempre à espera de que “para a semana é que vai ser”.

E assim seguimos, país de pé firme, mas coração encharcado, não pela chuva, mas pelo futebol, essa epidemia invisível que nunca precisa de alerta vermelho para se tornar incontrolável.

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Nota da Redacção:

Este artigo foi publicado na edição da anterior quinta-feira (8 de outubro) do Diário As Beiras.

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15/10/2026

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José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

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