De volta ao buraco

 De volta ao buraco

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Um olhar sobre o passado, mais ou menos demorado, mas atento às várias arestas da existência humana, revela a amplitude das suas possibilidades: somos capazes do bem e do mal, do maravilhoso e do cruel, do amor e da perversidade.

Enquanto espécie cuja existência se prolonga para além de cada indivíduo, criámos formas de promover o bem-estar coletivo, encontrámos cura para doenças que nos condenavam ao sofrimento, assumimos sacrifícios pessoais em nome da emancipação comum e demos ao Mundo obras de uma beleza que parecia exceder os limites do possível.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Não obstante, a esta mesma Humanidade pertencem as mais profundas violações da decência e da dignidade: executámos os nossos semelhantes, recorrendo ao enforcamento, à decapitação e a tantos outros modos de infligir a morte; concebemos formas de sofrimento e de dominação lentas e cumulativas, deliberadas por quem as impõe e, tantas vezes, apenas gradualmente percebidas por quem as suporta; organizámos a destruição maciça de comunidades inteiras, fazendo da aversão que nos inspiravam razão suficiente para lhes negar o direito de existir.

Exposta a face mais sombria da nossa espécie, ainda que em termos indulgentes, importa reconhecer o seguinte: estes traços persistem e continuarão a manifestar-se. Logo que as circunstâncias lhes forem propícias, poderão até acentuar-se e pautar determinados períodos da História com uma violência que outros, aparentemente mais serenos e maduros, davam ares de ter superado. Basta ler Maquiavel e Tucídides, conscientes da distância que deles nos separa – cerca de cinco séculos no primeiro caso; no segundo, um recuo até à Grécia Antiga –, para nos assustarmos com a perturbadora atualidade das suas palavras. Podem mudar as circunstâncias, os meios e as formas de expressão, mas sempre subsistirão as disposições humanas que ambos souberam reconhecer.

Nicolau Maquiavel (filosofianaescola.com)

Longo vai este preâmbulo, mas dele depende a perspetiva a partir da qual se pretende abordar o tema central deste artigo: a transmissão em direto da execução, por fuzilamento, de Nidal Hasan – o militar norte-americano que, há dezassete anos, matou treze pessoas no Texas. O Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos já se manifestou, naturalmente repudiando a iniciativa e classificando-a de uma violação da “proibição absoluta da tortura”. O organismo recorda ter assumido a mesma posição perante execuções públicas no Afeganistão e no Irão, que considerou “formas cruéis, desumanas ou degradantes de tratamento ou punição”.

(instagram.com/observador)

Já seria desastroso que esta ambição desvairada se circunscrevesse à Administração Trump, conduzida nesta matéria por Pete Hegseth, o Secretário de Guerra dos Estados Unidos. Mais inquietante se torna quando a situamos no seu contexto político: aproximam-se as eleições de novembro, nas quais estará em disputa a composição do Congresso. A orientação populista deste executivo e a proximidade do escrutínio permitem supor que os seus responsáveis não antecipam, entre o “povo” que invocam, a repulsa que semelhante iniciativa suscita. Poderão até esperar deste evento algum benefício eleitoral, sobretudo, se olharem para um conjunto de números – num inquérito realizado pelo Pew Research Center em julho, 66% dos participantes apoiavam a pena capital e 32% opunham-se. Este apoio era maioritário em todos os grupos étnicos e políticos considerados, embora a divisão fosse mais equilibrada entre os inquiridos afro-americanos e os apoiantes do Partido Democrata. Mesmo nestes dois grupos, os defensores da pena de morte superavam os seus opositores.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Atente-se que não estão em causa apenas o anúncio de uma execução ou a execução propriamente dita, per se motivos bastantes para uma crónica de repulsa, mas a meticulosa preparação de uma morte concebida para ser contemplada. Marcada para a hora exata em que Hasan disparou, confiada às armas dos soldados e oferecida, através das câmaras, ao olhar de quem a queira testemunhar. Ao longo dos últimos dois séculos, as sociedades ocidentais foram subtraindo ao olhar público a morte infligida pela justiça, como se reconhecessem que até o exercício do poder de punir exigia algum pudor perante o seu gesto mais irreversível. Devolvem-na agora à praça, com a agravante de a conseguirem contemplar num qualquer ecrã.

As décadas que nos separam de acontecimentos que deveriam permanecer como motivo de vergonha coletiva não parecem ter consolidado a aprendizagem humanista que lhes atribuímos. Por acréscimo ao que continua a acontecer na Ucrânia e em Gaza, menos de um século depois do Holocausto, momento destes minam uma confiança já difícil de sustentar. Em palavras menos elegantes: estamos de volta ao buraco – se é que dele saímos alguma vez.

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15/10/2026

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Lourenço Ferreira

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Lourenço Silva Ferreira é doutorando em Ciências da Comunicação, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos relacionados com o populismo, a esfera pública e a democracia. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

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