A alma do negócio

 A alma do negócio

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Hoje, praticamente, tudo depende de sistemas digitais fortemente interligados entre si. Documentos, fotografias, registos científicos, informação empresarial e, até, ativos financeiros – existem em formato digital e, frequentemente, apenas neste formato. A quantidade de dados produzidos no Mundo cresce a um ritmo extraordinário. Empresas, universidades, instituições públicas e utilizadores individuais geram diariamente enormes volumes de informação.

Este facto está na base do desenvolvimento sem precedentes da sociedade atual, mas também levanta um conjunto grande de problemas. Falámos recentemente de um deles – concretamente, o problema da longevidade digital – num artigo desta série intitulado “Buraco negro”, mas existem vários outros. Porque entender bem os problemas é o primeiro passo para lidar eficazmente com eles, falamos agora de outro desses problemas: a segurança num mundo fortemente ligado.

É inegável que a segurança dos sistemas informáticos e das redes de comunicação é cada vez maior. Porém, ao mesmo tempo, as ameaças a sistemas digitais tornaram-se muito mais sofisticadas. Lemos frequentemente notícias sobre ataques de hackers que tentam roubar informação ou ativos digitais. Sabe-se, normalmente largos meses depois de ocorrerem, de episódios de ransomware em que foi pedido o pagamento de elevadas quantias para desbloquear dados críticos. Ocorrem, por vezes, inexplicáveis – ou inexplicados – problemas em serviços online ou em infraestruturas digitais. Existem também casos em que erros humanos expuseram dados críticos ou provocaram involuntárias perdas de informação.

Na esmagadora maioria das situações, a primeira medida que é tomada em face de um problema de segurança é desligar os sistemas da Internet e anunciar que o sistema está em manutenção. Depois, nega-se que o problema ocorreu. Abafado o incidente e tendo-se ganho algum tempo, tenta-se perceber o que aconteceu, identificam-se os danos, revêem-se os procedimentos e mecanismos de segurança, fazem-se afinações, repõe-se o funcionamento dos sistemas e “reza-se” para que o problema não volte a acontecer, sabendo-se que, num sistema ligado à Internet, qualquer vulnerabilidade pode, potencialmente, ser explorada.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

De todos os passos atrás referidos, o mais eficaz é, sem dúvida alguma, o primeiro, ou seja, o de desligar os sistemas da Internet. É precisamente por se reconhecer a eficácia dessa medida que muitas organizações adotam estratégias que, mesmo em funcionamento normal e fora de situações de ataque,  passam por guardar dados ou ativos digitais críticos em sistemas que não estão permanentemente ligados à Internet. Ao manter a informação fora de ambientes online, reduz-se significativamente o risco de ataques informáticos, de acessos indevidos ou de perda de dados. É o que se designa por cold storage (armazenamento fora de linha), sendo, atualmente, uma estratégia essencial de segurança e de preservação de dados em muitos sistemas digitais.

A ideia fundamental do armazenamento fora de linha é simples: se algo não estiver ligado à Internet, torna-se muito mais difícil atacá-lo, já que tal exige acesso físico ao local de armazenamento. Nos sistemas digitais, isto significa que determinados dados ou ativos são guardados em dispositivos ou em infraestruturas que permanecem offline, isolados da Internet durante a maior parte do tempo.

Este princípio contrasta com o que se designa por hot storage, ou armazenamento em linha, em que os sistemas que albergam os dados estão permanentemente ligados à Internet, permitindo, por um lado, um acesso rápido e frequente, mas, por outro, uma muito maior exposição a ataques.

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É claro que o maior nível de segurança do cold storage impõe um acesso muito menos frequente aos dados, pelo que, na prática, a maioria das organizações utiliza uma combinação dos dois modelos. Os dados necessários para operações diárias permanecem online, enquanto dados críticos ou de longo prazo são armazenados em sistemas sem acesso à Internet.

Um dos contextos em que o conceito de cold storage se tornou mais conhecido foi o das criptomoedas. Sistemas como Bitcoin ou Ethereum utilizam criptografia para garantir a propriedade dos ativos digitais. O controlo desses ativos depende de chaves criptográficas privadas. Isto significa que quem possui uma chave privada tem controlo total sobre os fundos que lhe estão associados e, portanto, se essa chave for roubada ou copiada, os respetivos ativos financeiros podem ser transferidos, sem qualquer possibilidade de recuperação. Por este motivo, muitos utilizadores e empresas optam por guardar essas chaves em sistemas fora de linha, reduzindo, desta forma, o risco de roubo. Por isso, grandes plataformas de negociação de criptomoedas, como a Coinbase ou a Binance, mantêm uma grande parte dos ativos digitais sob a sua gestão em sistemas de cold storage, limitando, desta forma, o impacto de possíveis intrusões nos seus servidores.

Todavia, para além do contexto das criptomoedas, o armazenamento fora de linha desempenha um papel importante na preservação de informação digital ao longo do tempo. Muitas organizações precisam de manter dados durante décadas. Como exemplos, referem-se arquivos científicos e resultados de investigação, registos institucionais ou administrativos, documentação histórica digital e, ainda, backups de sistemas críticos.

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Guardar todos esses dados em sistemas em linha seria caro e desnecessário. O cold storage permite armazená-los de forma mais eficiente, mantendo, ao mesmo tempo, elevados níveis de fiabilidade e de segurança.

Pode pensar-se que a realização de armazenamento fora de linha é algo trivial, mas isso só é assim nos casos mais simples. A escolha da solução a adotar depende do tipo de dados, do nível de segurança pretendido e da frequência com que a informação precisa de ser acedida. Por exemplo, alguns sistemas utilizam dispositivos físicos especialmente concebidos para guardar informação sensível, permitindo apenas o acesso presencial e podendo exigir as palavras passe de mais do que uma pessoa. Noutros casos, menos críticos, podem simplesmente ser mantidas cópias de segurança ou arquivos históricos em sistemas que permanecem desligados da rede. Paralelamente, empresas como a Amazon Web Services e a Google Cloud disponibilizam soluções de cold storage, libertando os clientes de preocupações relacionadas com a complexidade e a segurança dessa abordagem.

Neste nosso mundo cada vez mais digital, proteger dados e ativos tornou-se uma prioridade. Com o cold storage, os dados confidenciais de pessoas e de organizações podem ser mantidos secretos, fora do alcance de ataques informáticos. É que, apesar de todos os avanços tecnológicos, há algo que se mantém inalterado: o segredo é sempre a alma do negócio.

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02/04/2026

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Fernando Boavida Fernandes

Professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, sendo docente do Departamento de Engenharia Informática. Possui uma experiência de 40 anos no ensino, na investigação e em engenharia, nas áreas de Informática, Redes e Protocolos de Comunicação, Planeamento e Projeto de Redes, Redes Móveis e Redes de Sensores. É membro da Ordem dos Engenheiros. É coautor dos livros “Engenharia de Redes Informáticas”, “Administração de Redes Informáticas”, “TCP/IP – Teoria e prática”, “Redes de Sensores sem Fios” e “Introdução à Criptografia”, publicados pela FCA. É autor dos livros “Gestão de tempo e organização do trabalho” e “Expor ideias”, publicados pela editora PACTOR.

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