A batalha invisível das elites

 A batalha invisível das elites

(jornalopcao.com.br)

Vivemos num tempo em que duas hierarquias disputam silenciosamente o futuro das sociedades. A primeira é a hierarquia da educação, dos valores, da cultura, do saber, da investigação e da honestidade. A segunda é a hierarquia do poder, da corrupção, do negócio, da publicidade e da comunicação inquinada. São duas formas de organizar o Mundo e de formar elites.

A elite do saber nasce da escola, da investigação, da cultura democrática. É lenta, exigente, paciente. Requer professores, bibliotecas, universidades, liberdade de pensamento e responsabilidade pública.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

A elite do poder nasce do dinheiro, da influência, da propaganda e da capacidade de manipular emoções. É rápida, agressiva, imediata. Requer controlo da comunicação, domínio económico e capacidade de transformar cidadãos em consumidores. Estas duas elites coexistem, mas raramente cooperam. O mundo contemporâneo tornou‑se o palco onde este conflito se tornou global.

(Créditos de imagem: Geancarlo Peruzzolo – pexels.com)

Há países onde o poder domina a educação: Rússia, China, Índia, Coreia do Norte. São sociedades em que o Estado controla a comunicação, em que a escola é instrumental, em que a investigação é subordinada ao poder e em que o nacionalismo substitui a cidadania. E há países onde a educação domina o poder: os do Norte da Europa, que colocam a escola, a empatia e o bem‑estar no centro das políticas públicas. Ali, a elite do saber é a elite do poder.

Entre estes dois modelos, surgem líderes que declaram territórios como se fossem bens pessoais – a Gronelândia, o Golfo de Ormuz, Cuba –, revelando a regressão para um mundo pré‑democrático, onde a lei é substituída pela vontade do chefe. É o triunfo da elite do poder sobre a elite do saber.

As religiões, ao longo da História, deixaram marcas profundas neste dualismo. Foram decisivas na construção do mundo que temos – com virtudes e defeitos. Criaram escolas, preservaram manuscritos, ensinaram a ler e a contar quando o Estado não o fazia. Sem elas, a Europa teria perdido parte da sua memória escrita. Mas também legitimaram poderes, moldaram obediências e, por vezes, perseguiram quem pensava de forma diferente. Da beatitude à fogueira dos ateus, da caridade à censura, construíram modelos que ainda hoje influenciam a política. A sua contribuição para a educação foi real, mas limitada: formaram elites, não povos.

Os novos poderes – rádio, televisão, Internet e redes sociais – ampliaram a força da propaganda. A publicidade transformou cidadãos em consumidores. O comércio global contaminou a saúde pública, a opinião pública e até a gestão das calamidades: cheias, incêndios, epidemias. A elite do poder ganhou um novo braço: a elite da comunicação.

(Créditos fotográficos: Landsmann – Unsplash)

E Portugal? Entre a herança do analfabetismo até às portas do século XXI e a educação das elites, o país vive num limbo histórico. Durante séculos, a escola foi pensada para poucos. O povo ficou de fora. A emigração foi sina e destino.

Ontem, emigravam os pobres; hoje, emigram os letrados. Formamos médicos, enfermeiros, engenheiros e investigadores para que outros países beneficiem do seu talento. Investimos na educação, mas não investimos nas condições para que os educados permaneçam. A elite do saber continua pequena; a elite do poder económico continua forte.

A pergunta é simples e urgente: que mundo queremos ser? O da educação, da cultura e da empatia  ou o do poder, da propaganda e da desigualdade.

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17/09/2026

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José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

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